Dumplin’ é um carinho à nós pessoas com corpos fora do padrão, invisíveis muitas vezes, ou visíveis à chacota e repreensão. Baseado no livro de mesmo nome da escritora Julie Murphy, lançado em 2015.
SINOPSE
Willowdean Dickson (Danielle Macdonald) é uma adolescente fora dos padrões estéticos. Ela é gorda. Sofreu toda a sua vida com o preconceito das pessoas e de sua própria mãe, Rosie Dickson (Jennifer Aniston), que a apelidou desde sua infância de fofinha (Dumplin’). Sua mãe é obcecada por beleza, e participou de inúmeros concursos dessa mesma área, o que refletiu em sua criação. A imagem materna centrar para Will, sempre foi sua falecida tia Lucy, que a apoiou e ajudou com sua autoestima. Na iminência de um dos concursos mais famosos do Texas, o Miss Teen Bluebonnet (que inclusive sua mãe é quem organiza), Will decide participar em protesto às atitudes de Rosie.

INFLUÊNCIA DA TIA
Willowdean cresceu e se fortaleceu graças à sua Tia Lucy (Hilliary Begley), aos seus ensinamentos, e ao gosto pelas músicas de Dolly Parton que dividiam. Perder sua figura materna mais forte a abalou bastante. Lucy era uma mulher gorda, e sempre demonstrou confiança no que era, e como era. Ao mexer nas coisas da tia para doar, Will acha um formulário de inscrição para o concurso de beleza da cidade, feito há anos. Ela se dá conta de que sua tia não tinha tanta confiança assim, e que desistiu de tentar participar por ser fora dos padrões.

CONCURSO DE BELEZA
Por mais que você cresça e demonstre confiança em si, é difícil, e principalmente doloroso, enfrentar um mundo que só enxerga beleza em corpos magros. A intenção de Will ao entrar no concurso, é de afrontar sua mãe e mostrar que uma pessoa gorda pode sim concorrer em tais eventos. Ao inscrever-se, ela encoraja outras meninas a fazerem o mesmo, inclusive a sua melhor amiga, Ellen (Odeya Rush), com beleza padrão, se inscreve também em apoio à causa da moça. Ela acaba demonstrando gostar de concorrer, o que confunde Will, e as fazem se desentenderem. A ideia inicial era protestar, e não aproveitar, pois Will acha isso tudo muito superficial e fútil.
Porém essa experiência, vivenciando os bastidores e conhecendo as histórias que ali estavam, fez com que Will entendesse que sua presença ali era importante e necessária, muito além de apenas provar pra sua mãe seu valor. Representar as diferenças tornou-se seu principal objetivo.

REPRESENTATIVIDADE
Representatividade, como sempre digo e repito, importa, e importa muito. Assistir esse filme me trouxe muitas lembranças da minha infância à vida adulta. Sempre fui fora dos padrões, gorda na infância, mediana na adolescência, e muito acima do meu peso agora enquanto adulta. Engordei por conta da gravidez e nunca perdi esses quilos a mais. Me aceito muito.
mais hoje do que quando era de peso mediano. Ao longo da minha vida ouvi coisas como “você tem um rosto tão bonito, devia emagrecer”, “seu rosto é bonito, pena que é gorda”, “nossa, essa roupa te engordou muito”.
Will, mesmo tendo tido o apoio e os ensinamentos de sua tia, ainda carrega essa dor iminente de não se encaixar. Quando seu interesse amoroso, Bo Larson (Luke Benward) a beija ela fica confusa, não consegue entender como um cara padrãozinho (em termos de beleza) quer algo com ela. Em certa altura do filme, ele a questiona de porque ele não se interessaria por ela. Afinal, ele a acha linda, e nunca deixou de demonstrar. Mas ela mesma não consegue ver isso.
A trama foca na aceitação de Will e suas amigas de concurso.
GORDOFOBIA EXISTE
Gordos são desacreditados a todo momento de sua beleza e importância. Somos levados a pensar que ninguém nos amará, e que ser gordo é errado, feio e um atentado à própria saúde. Nem todo gordo tem problemas de saúde, ou engordam porque comem demais. Cada um tem o seu biótipo.
O filme traz uma reflexão necessária sobre os diversos tipos de corpos. E ver uma história centrada em uma mulher gorda, sem que seja usada para alívio cômico, é acolhedor. Representatividade na TV e em filmes e séries é muito importante, mas fora dela é ainda mais.
INFLUENCIADORES DO MUNDO REAL
Nas redes sociais cada vez mais temos pessoas falando sobre autoaceitação e gordofobia.

Alexandra Gurgel, escritora, jornalista e YouTuber, fundou o Movimento de aceitação corporal para todos os corpos. É uma forte influência para as pessoas gordas e fora dos padrões. Em seu canal no YouTube, chamado ‘Alexandrismos’, e em seu livro ‘Pare de se odiar: Porque amar o próprio corpo é um ato revolucionário’, ela fala sobre autoaceitação, o movimento body positive, autoestima, relacionamentos e a luta contra a gordofobia. A partir de sua experiência pessoal, ela mostra que o amor próprio é muito importante para se aceitar, e entender que o seu corpo é sim o ideal, independente do quanto você pesa. Um dos atos mais revolucionários deste século, é amar-se incondicionalmente.
“Amar seu corpo é ir contra tudo o que te ensinaram’, diz Alexandra.

Luana Carvalho é modelo ,e se tornou referência para meninas e mulheres gordas do país. É a idealizadora do perfil @carnavalsemgordofobia no instagram. Por ser negra, Luana não se sentia contemplada pelo movimento anti-gordofóbico.
“Quando comecei a ter contato com o movimento anti-gordofóbico, eu percebi que ele é branco demais, elitizado demais. Se dentro do movimento negro eu sentia que metade da minha existência era apagada, dentro do movimento anti-gordofobia eu também sentia isso, porque minha vivência enquanto negra não era falada porque é extremamente branco, classista e racista esse movimento”, conta Luana.

Caio Cal é influenciador digital, youtuber no canal ‘Caio Revela‘, ativista do movimento #corpolivre, gordo, gay afeminada e stylist. Em seu canal ele fala sobre moda plus size, sobre suas vivências enquanto homem gordo, fala sobre corpo livre e sua rotina morando sozinho em outra cidade.
“Só a gente que é gordo sabe o quanto não caber nas coisas nos coíbe de aproveitar a vida como qualquer outra pessoa”, diz Caio, “A gordofobia tira meu acesso e me isola, já que o mundo não foi feito para pessoas do meu tamanho.”
“Nunca vou entender marca grande, com grana, que faz uma coleção plus size que não atende quem é, de fato, gordo.”
CONCLUINDO
Dumplin’ aborda um assunto necessário e muito importante. Aceitar-se é fundamental. O filme aborda toda a temática de gordofobia e aceitação de forma rasa. Mas não podíamos esperar muito de um longa feito para o público adolescente. Ele precisa ser leve e usar a linguagem jovem para que o alvo seja alcançado. Mesmo assim, passa uma mensagem bastante positiva para crianças, adolescentes e também adultos.

Willowdean passou tempo demais presa em odiar o apelido dado por sua mãe, e esqueceu de se amar.
O legado deixado pela Tia Lucy foi abraçado por ela e suas amigas. Will entendeu que Dumplin’, ou fofinha, é apenas uma palavra. E que seu amor próprio deve ser maior do que isso.
Um corpo livre, é um corpo feliz. Entenda que você é suficiente, que a sua beleza é única, e que você se basta.