Uma das coisas que eu mais fiz nesses últimos dias foi consumir produtos com mulheres protagonistas. Foi algo quase imperceptível, quando notei eu já havia assistido duas temporadas de Harley Quinn(2019), uma série animada que mostra a ex do Palhaço Príncipe do Crime tentando carreira solo, junto com sua best Hera Venenosa. Logo após eu resolvi assistir The Legend of Korra(2012-2015), outra série animada que se passa no mundo de Avatar: A lenda de Aang, e mostra a nova Avatar Korra lidando com o legado político e social de Aang, junto com a velha e a nova geração de dobradores. Aí vem She-Ra e as Princesas do Poder(2018), outra excelente série animada que faz um reboot da personagem clássica dos anos 80. E teve Drik Barbosa.
Entre títulos e obras, apareceu esse álbum musical, também com uma protagonista feminina, só que agora negra. E tal artista conseguiu aproveitar o que há de melhor da cultura periférica brasileira para apresentar em seu disco. Hoje, o Amador Crítico Musical fala por quê Drik Barbosa é um destaque na cena nacional.
Você se lembra dela?
Quem acompanha a cena do rap, vai lembrar de Drik Barbosa aparecendo como um das últimas MC’s do Poetas no Topo #3.1. Naqueles 1m30 de espaço que tinha, demonstra que por mais que estivesse no pico dessa cena, ela ainda tinha muitas coisas para alcançar. Com pequenos passos Drik Barbosa chegou nesse que é marco da arte hip-hop brasileira, cravando a ferro e fogo seu nome nas memórias de todos os fãs de rap. E foi assim, de passinho em passinho que ela chegou em 2019 lançando seu álbum “Drik Barbosa”, mostrando que aquilo também ainda não era o topo.
“Drik Barbosa”, 2019

Essa capa demonstra quem é Drik em sua arte. Perceba qual é a base da artista e os seus trajes.
Nessa obra, Drik pega o que há de melhor na cultura de favela e põe em suas músicas. Aqui, ela gera flertes muito sinceros com vários gêneros musicais do Brasil, lançando suas rimas em ritmos verdadeiramente pop’s, mas que vieram dos becos, das vielas e favelas brasileiras. Drik Barbosa fala da fé de seu povo, da alegria de ser herdeira de um legado de luta e muito resistência, onde se orgulha de ser uma sobrevivente de uma estrutura que trabalha para aniquilá-la.
É um álbum com participações de artistas com colaborações que soam bem sinceras, onde você não sente aquela competitividade para ver quem lança a linha mais cabulosa. Nesse álbum, é claramente perceptível que são pessoas negras se apoiando e se elevando, para que outras pessoas negras também possam fazer o mesmo. O melhor exemplo disso está na faixa “Quem Tem Joga”, que apesar de ter as excelentes Karol Conka e Gloria Groove como participações especiais, quem brilha de uma forma muito natural e inocente é a nem creditada Mirella Barbosa, irmãzinha da cantora, que logo inicia a música cantando “com esse cabelo/com essa cor/e com essa roupa meu amor” de uma forma bem chiclete e cativante mostrando que alí tem uma energia a ser aproveitada futuramente, e que, se depender de Drik Barbosa, com certeza também irá muito longe.
E falando sobre participações, todas as faixas com feat. são um destaque nessa obra. Quando Drik engrandece e agradece pela luta da sua família, Anna Tréa vai pontuando o recital de Drik Barbosa com uma guitarra melódica, sincera e amorosa que abraça muito bem o conceito dessa música. Em Liberdade, Drik canta com Luedji Luna, com uma intimidade sincera de parceiras de luta e guerra, com a rapper londrina R.A.E. para fechar esse pacotinho com uma linda fita de seda.
Mas Drik Barbosa também brilha em suas faixas solo. Começando por “Até o Amanhecer”, onde temos uma noção de duas coisas em Drik Barbosa: sua capacidade lírica e sua doce e melódica voz para pontuar uma das lovesongs do álbum. E quando se trata de lovesongs, Drik Barbosa flerta como ninguém com a região nordeste, ao cantar junto com o ÀTTOOXXÁ a faixa “Tentação”, pagodão baiano para dançar na festa, pra namorar agarradinho ou fazer as duas coisas. E foi com essa faixa que Drik Barbosa nos mostra porque é um destaque na atual cena musical nacional. Eu realmente não consigo imaginar nenhum outro artista lançando linhas tão lindas e poderosas numa faixa que tem tudo pra ser um hit de rádio.
O álbum ainda conta com as participações de Rael e o patrão Emicida (o álbum leva o selo da Lab Fantasma), que cantam sobre a espiritualidade na faixa “Luz”, onde Drik fala sobre sua fé, que levanta as multidões para um novo dia de luta, mas que não é nada sem a benção materna, agradecendo aos céus pela família que tem. Emicida vem e nos diz que o seu vermelho “É mais Xangô do que Mao Tse-Tung” e Rael encerra com seu refrão potente, acapella, apenas acompanhado de uma linda batucada de terreiro.
Mais uma preta campeã. AMÉM!
É bem fácil de entender porque quando os pretos cantam sobre suas vitórias, sucessos, conquistas e ostentações de troféus não soa como algo supérfluo, mas sim como alguém que se desdobrou como ninguém para estar onde está. Toda essa exaltação vem com palavras de engrandecimento e agradecimento a família pela glória alcançada.
E Drik Barbosa também canta sobre isso, mas com alegria e uma chama de auto exaltação que não nos consome, mas nos instiga a sermos pessoas melhores nessa sociedade, uma chama que inspira os menores das comunidades a crescer, mas sem se esquecer de quem está atrás, de quem os ajudou a alcançar o pico desta montanha. E como isso é tão satisfatório.
Quando ouvimos esse álbum, ouvimos uma Drik Barbosa agradecida, feliz e orgulhosa por ser uma mulher preta que paga as contas e os boletos da sua família com a arte, que tem a felicidade de comparecer em mais um almoço de domingo, com uma mesa farta e toda sua família em volta dela. Vemos uma mulher negra mais que contente de estar no topo, mas ainda sedenta para ultrapassar a estratosfera.
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.Drik Barbosa tem 28 anos, e esse é apenas o começo, pode crer, ela vai longe