Beyoncé escolheu para seu novo projeto declarar todo seu orgulho e amor ao povo preto e sua ancestralidade.

Antes de ler esse texto, você pode conhecer o caminho trilhado por Beyoncé até Black is King, texto publicado aqui mesmo no Maratona.
Black is King se baseia nas lições de O Rei Leão para entregar uma nova narrativa para o povo preto, levando reis negros e rainhas negras a reivindicar seu lugar de direito no universo. E para o choque da branquitude, a obra fala de África sem falar de escravidão, violência, sexualização, miséria e fome.

O FILME/ÁLBUM VISUAL
O projeto dirigido por Beyoncé foi lançado no dia 31 de julho no Disney+ (não me pergunte como eu assisti) e assim como o álbum que originou o filme (The Lion King: The Gift), artistas africanos e afro-americanos apresentam seu trabalho e cultura para o mundo, entre eles o ganês Kwasi Fordjour, co-diretor do projeto visual. Ah, quando eu falo artistas, quero dizer cantores, produtores, dançarinos, diretores, escritores, atores, estilistas, trancistas, modelos, coreógrafos… (!!!)

Beyoncé se baseia no roteiro de O Rei Leão para criar a narrativa do filme e adiciona diversos elementos de culturas de África. Aliás, a mestre em História e Estética da arte Ana Beatriz Almeida fez uma análise decolonial maravilhosa para explicar vários desses elementos mostrados.
O Simba dessa versão se vê lançado à própria sorte ao perder seu lar e sua família, sendo assim desconectado de suas raízes, mas sempre guardado pelos deuses. As fumaças e espelhos da vida de luxo e ouro acabam fazendo-o esquecer de quem um dia foi, precisando então, recuperar sua história para poder se sentir completo.
O filme também nos faz refletir sobre quem controla a narrativa da História da humanidade. Para os livros de história somos os escravos, selvagens, rebeldes e apagados. Obviamente não somos nada disso, mas quem somos?
Se eu não posso ser eu, nunca me conhecerei. […] Se eu nunca me conhecerei, como você me conhecerá?
Beyoncé escolheu decolonizar nossa história para mostrar que o que nos define não deveriam ser as barbáries causadas aos nossos ancestrais.
Beyoncé fez questão de aprender com coreógrafos africanos, que os penteados fossem semelhantes aos da cultura africana e que os figurinos fizessem referência aos deuses de lá.

NOSSA PELE ESCURA
Beyoncé então nos convida para ver preto como sinônimo de glória. E de fato ela derrama todo seu amor à nossa pele na poética das músicas e das falas em Black is King.

Acredito que você, leitor preto, já deve ter passado por uma situação onde alguém compara a tonalidade da nossa pele com coisas do mundo na intenção de nos diminuir. Entretanto, em Black is King Beyoncé nos lembra que nossa pele é “refletida com o que há de mais sublime no mundo.”
Abençoado seja o corpo, nascido celestial, lindo em matéria escura
Beyoncé em Black is King
Menina de pele escura, sua pele é como pérola. A melhor coisa no mundo
letra de Brown Skin Girl
Além disso, o visual de Brown Skin Girl é talvez o momento mais emocionante de todo o filme. Mulheres negras compartilhando seu amor por sua pele e por outras mulheres. Se eu chorei? Certamente que sim. (Chorei de orgulho praticamente o filme todo).
E O QUE É SER REI?

O enaltecimento do povo preto proposto não é só pra ser usado na legenda do Instagram. Por isso, Black is King fala também de usar conhecimento e ancestralidade como meio de empoderamento para o progresso do povo negro.
Aos homens negros é dito para não nos amarmos. Dizem que eu devo odiá-lo. O mundo dirá que você é outra coisa. Muito escuro, muito baixo, tanto faz.
Um dos passos mais importantes para escrever um futuro rico para o povo preto é a desconstrução da masculinidade tóxica, sobretudo para o homem preto, que historicamente é lido como selvagem, bruto, irracional.
Seria um mundo melhor para todos nós se reis e rainhas percebessem que sermos iguais, compartilharmos espaços, ideais, valores, compartilharmos forças, fraquezas, nos equilibrarmos, é o jeito com que nossos ancestrais faziam as coisas, e esse é o jeito africano. […] Cuidar das pessoas, isso é realeza.
É isso meu povo! Não adianta colocar a coroa na cabeça e com ela ser soberbo. Precisamos redefinir monarquia sendo reis e rainhas cooperando com outros reis e rainhas! Portanto, para prosperar, eu preciso que meu irmão preto e minha irmã preta prosperem também.
MINHA EXPERIÊNCIA

Para esse jovem preto, gay e periférico que vos escreve, o filme é uma expansão mental. Aceitar minha sexualidade foi uma tarefa difícil, aceitar minha etnia foi ainda mais, e ainda é. Porque como negro que sou, existem certos conceitos intrínsecos passados para mim como um “vírus branco” que só o conhecimento pode extinguir. Através de Black is King pude pesquisar e conhecer a pluralidade cultural que África apresenta referenciada em cada frame do filme. Saber que “éramos beleza antes que soubessem o que era beleza” me permite ver que a imposição branco cêntrica de padrão é menor que eu, menor que nós.
Religião
Ver a presença de espíritos e orixás nos passos do jovem negro que protagoniza a produção, interpretado por Folajomi Akinmurele (criança) e Nyaniso Dzedze (jovem-adulto) me levou para um lugar onde a muito tempo não estive, com palavras que um dia me foram ditas, mas, semelhante ao que acontece no filme, fumaças e espelhos me distraíram. Falo da certeza de não estar sozinho, até mesmo sem ninguém ao redor.
Pessoalmente, já presenciei energias de três religiões. A cristã, a espírita e mesmo que por apenas uma noite, o candomblé. Apesar das diferentes tradições, as três concordam que nunca estamos desprotegidos e eu escolhi me sentir protegido por divindades oriundas da minha ancestralidade – e mesmo assim precisando conhecê-las mais.
Viver sem reflexo por tanto tempo pode fazê-lo se perguntar se você realmente existe.
Entender o que a cor da minha pele representa é uma jornada que comecei aos 19 anos, e se a sensação é de nascer de novo, ter referências negras é vital. Lázaro Ramos, Jordan Peele, Will Smith, Carla Akotirene, Liniker, Angela Davis, Beyoncé, meus amigos… A lista é enorme! São pessoas que direta ou indiretamente são artisticamente e intelectualmente influentes para mim.
Black is King, uma história decolonizada, poética e cheia de beleza negra, me enche os olhos e aumenta ainda mais o meu orgulho. Me faz ainda mais acreditar que eu sou porque somos.
[…] pode conferir também o texto sobre o filme, onde falo do enaltecimento da pele escura, o significado de ser rei, e o impacto de Black is King […]