Black is King, filme dirigido por Beyoncé, será a jornada e as lições do Rei Leão reimaginada para crianças negras e jovens negros buscarem suas próprias coroas.
Antes de mais nada me sinto obrigado a informar: Sou adorador da Igreja Beyoncé. Amém Beysus! No entanto tentei trazer aqui menos informação sobre a Beyoncé e mais sobre sua arte, afinal, é sobre “algo muito maior que ela”, como a mesma canta em Bigger.
Black is King foi anunciado dia 29 de junho no Instagram de Beyoncé e tem estreia prevista para o dia 31 de julho no serviço de stream Disney+ (que só está disponível em alguns países, a gente que lute). E em julho foi anunciado, junto com o segundo trailer que o filme também será transmitido em países africanos por canais a cabo.
A TRAJETÓRIA
Beyoncé impactou a indústria música
Antes de mais nada, para chegarmos em Black is King, antes devo ambientar você caro leitor sobre onde estava Beyoncé “antes do empoderamento”.
Logo após quebrar a internet em 2013 com o lançamento surpresa do álbum visual BEYONCÉ, Queen B percebeu que ela merece o título de rainha. O álbum tinha QUATORZE músicas e DEZESSEIS clipes! A música pop estava na era em que os artistas anunciavam uma música, lançavam a música, anunciavam clipe e lançavam clipe, nesta ordem. Assim, os artistas novos queriam um lugar nos holofotes ao mesmo tempo que artistas com mais tempo na indústria queriam manter seus projetos recém-lançados frescos.

O projeto foi sucesso de vendas. Turnê mundial esgotada. Certamente a carreira da rainha estava mais que consolidada. Logo depois saiu em turnê com o marido JAY Z e em seguida lançou a versão Platinum do álbum homônimo. Ainda ganhou uma porrada de prêmios e fez uma performance icônica no VMA. Afirmo fortemente que a “Era BEYONCÉ” foi o auge! Eu disse O AUGE!
É importante salientar que para muitos foi nesse álbum que Beyoncé se ergueu diretamente como feminista embora a maior parte de sua discografia ser sobre empoderamento feminino, como nas músicas Run the World (Girls) e Me, Myself and I.
“Minha persuasão pode construir uma canção
Poder infinito
Nosso amor pode devorar”
Trecho de Run the World (Girls)
Então vamos lá.
Formation
Desde o lançamento do álbum visual e até os dias de hoje os fãs da Beyoncé certamente não sabem o que é dormir direito com medo de perder o lançamento de algum material durante a madrugada. De fato ela tinha mesmo mudado o jogo e parado o mundo. E em 6 de fevereiro de 2016 ela DO NADA lançou a música e o videoclipe Formation.
Em seguida, no dia 7, fez performance ao vivo no Superbowl do Coldplay fazendo referências ao Partido dos Panteras Negras, (organização americana criada na década de 60 por afro-americanos para criticar combater a violência policial contra negros), consequentemente colocando a cultura pop em estado de choque. Beyoncé estava anunciando sua nova era, que inegavelmente seria mais importante e impactante de todas. Logo depois de colocar pra todo mundo ver e ouvir que ela é feminista, agora estava se mostrando orgulhosa de suas raízes ao mesmo tempo que protestava contra a violência policial contra afro-americanos. O pop já pegava fogo quando ela apareceu com mais gasolina no dia 16 de abril lançando o trailer surpresa de Lemonade.
Lemonade
Na semana seguinte a gente estava em choque de novo. O projeto tratava-se de um novo álbum visual, dessa vez com 12 faixas e um filme exibido pela HBO. Apesar do visual ter como tema principal o processo emocional de Beyoncé sobre a traição de Jay Z, também pode-se notar referências à cultura e história afro-americana e africana, principalmente nas canções Hold Up, Sorry, e Love Drought assim como o posicionamento contra o genocídio negro nos EUA ao inserir parentes de vítimas da violência policial em Forward e Freedom.

Obviamente os conservadores não ficaram satisfeitos. Beyoncé recebeu diversos comentários agressivos em suas redes sociais e foi criticada por políticos conservadores que até promoveram boicote à cantora. Só que Beyoncé não estava nem aí, já que ainda em abril, deu início a Formation Tour, que foi até outubro de 2016.

Os ataques não surtiram efeito, uma vez que ao final de 2016 Beyoncé tinha o álbum mais bem avaliado da carreira e a turnê mais lucrativa do ano nos EUA. No final da Era Lemonade, Formation se tornou a música mais premiada da história.
O impacto desse álbum na cultura pop foi o menos importante. O projeto gerou discussões além do mundo da música, se tornando tema de palestras, cursos e estudos acadêmicos e até tema de obra acadêmica.

Apeshit e Everything is Love
Em junho de 2018 Beyoncé e Jay Z estavam de volta na segunda turnê conjunta intitulada On the Run II quando lançaram o tão esperado álbum Everything is Love assinando como The Carters. Mas o fato importante a ser mencionado aqui é o videoclipe do single promocional, Apeshit, título que se refere ao público indo à loucura em seus shows.
O clipe não foi nada de muito chique, sabe?! Eles só escolheram como cenário de gravação o maior museu do mundo.
É. O Museu do Louvre.
O videoclipe mostra o casal, dançarinas negras e diversos homens negros com seus estilos urbanos afro-americanos transformando e redesenhando o ambiente do Louvre à sua maneira, mostrando sua arte e sua cultura.

O clipe gerou diversas análises internet afora e a maioria delas explica que os The Carters não estavam ali para enaltecer a arte eurocêntrica e branca, mas para criticá-la e mostrar a arte que o corpo negro representa.
Homecoming
“Em vez de colocar uma coroa de flores, era mais importante levar nossa cultura para o Coachella”
Beyoncé
Em 2018, Beyoncé, como a primeira artista negra a encabeçar o Coachella, nos entregou duas horas de puro orgulho negro. Ela enalteceu as faculdades e escolas historicamente negras, cantou o considerado hino nacional afro-americano Lift Every Voice and Sing. Quando deixava o palco para troca de figurino, em vez de interludes conceituais como estávamos acostumados a ver em suas turnês, o palco era tomado por dançarinos e instrumentistas negros que com certeza brilhavam tanto quanto a cantora.

Em seguida, em 2019 – dessa vez promovendo praticamente em cima da data de lançamento, porque Beyoncé pode fazer assim… – ela lançou na Netflix o documentário e álbum ao vivo Homecoming. Onde além do show, falou do processo de retorno aos palcos logo após o parto de seus gêmeos e o processo de criação da apresentação no Coachella.
O documentário e o show contém diversas falas e músicas de Nina Simone, além de outros artistas, sobretudo negros, sampleados em praticamente todas as músicas.
“Como uma mulher negra
Eu costumava sentir que o mundo queria que eu ficasse na minha caixinha
E as mulheres negras costumam se sentir subestimadas
Eu queria que sentíssemos orgulho não apenas do show, mas do processo
Orgulhosos da luta
Gratos pela beleza que vem com uma história dolorosa e se alegra na dor
Se alegra com as imperfeições e os erros que são certos pra caramba.”
Beyoncé no documentário
O Rei Leão e The Gift, projetos que geraram o Black is King
Em 2017 foi anunciado que Beyoncé se juntaria ao elenco do remake live-action de O Rei Leão, emprestando sua voz a Nala. Em 2019 simultaneamente ao lançamento do filme, Beyoncé lançou um álbum inspirado no live-action com curadoria dela, o The Lion King: The Gift, ou só The Gift.
Além das interludes do filme que se alternam com as faixas, Beyoncé fez questão que produtores e cantores africanos colocassem suas identidades do projeto. No processo de criação do álbum ela viajou com sua família para Djibouti, país da África, para criar conexão com sua ancestralidade e com a cultura. Beyoncé não quis apenas nomes grandes no álbum, mas também autenticidade e coração no projeto.
Mais tarde, em 16 de setembro de 2019, o canal americano ABC exibiu o documentário Making The Gift, que mostrou o processo de escrita e produção das canções do projeto. É lindo de ver tanta gente preta participando da produção e o mais importante para o projeto, tanta gente de África.
Brown Skin Girl, música que estará presente em Black is King nos vocais da filha prodígio Blue Ivy, fez bastante sucesso e gerou o desafio #brownskingirlchallenge, onde crianças e mulheres negras e seus pais cantavam os versos do refrão, que enaltecem a cor da pele negra.
Religião
No videoclipe de Spirit, o carro-chefe do álbum que inspira Black is King, Beyoncé faz diversas referências à ancestralidade e cultura africana, uma vez que a canção fala sobre conexão com espiritualidade.

Beyoncé cresceu em uma família cristã, já mostrou sua devoção à Virgem Maria através da música Ave Maria no álbum I Am… Sasha Fierce, e após fazer suas primeiras referências à Oxum no videoclipe de Hold Up, agora no The Gift e em Black is King Beyoncé abraça e nos convida a abraçar nossa ancestralidade, a cultura da nossa terra de origem.
BLACK IS KING

Por fim chegamos a Black is King. O filme/álbum visual teve seu primeiro trailer divulgado dia 29 de junho e seu segundo trailer dia 19 de julho. Beyoncé ao divulgar o filme no Instagram escreveu que o material originalmente seria parte conjunta do The Gift, e que no último ano ela esteve trabalhando incansavelmente na produção e edição, mas que em 2020, todos os protestos erguidos pelo movimento Black Lives Matter levaram o filme a ter um propósito ainda maior.
“Com este álbum visual, eu queria apresentar elementos da história negra e da tradição africana, com um toque moderno e uma mensagem universal, e o que realmente significa encontrar sua identidade e construir um legado.”
Beyoncé via Instagram

Certamente as músicas do The Gift criarão o roteiro do filme ao mesmo tempo que pelas imagens dos trailers divulgados teremos uma história sendo contada. Para completar, conhecendo a Beyoncé, com certeza podemos esperar muita coreografia em Black is King também.
Críticas na internet
Logo após a divulgação do primeiro trailer, surgiram críticas que acusavam Beyoncé de estar fazendo o álbum apenas visando lucro, bem como estar fazendo apropriação cultural, o que levou a mãe dela, Tina Knowles, a fazer uma postagem no instagram em resposta aos ataques. A mãe defende que Beyoncé também é negra, e tem direito de enaltecer sua herança.
“O tempo que você usa para tentar derrubar Beyoncé poderia ser usado para criticar e derrubar os sistemas que nos machucam e nos oprimem.”
Tina em seu Instagram
Beyoncé também foi criticada no Twitter por não exibir o filme em África, uma vez que o tema principal girava em torno de diversas culturas do continente. Como solução, no dia do lançamento do segundo trailer também foi anunciado que dois canais exibirão em diversos países do continente africano o filme também com exclusividade. Nada mais justo.

Filantropia e música
Nos últimos anos Beyoncé tem se engajado bastante com as pautas do movimento negro, seja através de ações dela mesma como artista, como o show beneficente Global Citizen: Mandela 100, ou da iniciativa que comanda, a BeyGOOD, que recentemente promoveu testagem para detecção de coronavírus em comunidades do Texas.
Beyoncé em 2020
Seguindo a linha filantrópica, mais cedo esse ano Beyoncé gravou um remix para a música Savage de Megan Thee Stallion – que é uma delícia de música – e reverteu toda a renda da música para combate ao COVID-19 no Texas.
No dia 7 de junho Beyoncé gravou um discurso poderoso parabenizando os formandos de 2020 que sem dúvidas é mais inspirador que qualquer vídeo de coach. Até porque coach não presta pra nada.
Logo depois Beyoncé lançou BLACK PARADE no Juneteenth, dia da Proclamação da Emancipação da Escravidão no Texas. A faixa é a trilha sonora do projeto de apoio a artistas e pequenos empresários negros que estão sendo prejudicados pelo COVID-19.
Se Hold Up, e Mood 4 Eva fazem apenas algumas referências à religiões africanas e ancestralidade, Beyoncé em Black Parade está firme às suas raízes ao comandar uma marcha que enaltece a cultura afro-americana enquanto abraça a cultura africana e chama todo mundo para buscar conexão com o que nos foi tirado durante a escravidão, a nossa identidade ancestral.
“Estou indo de volta pro Sul
Onde minhas raízes não estão diluídas
Crescendo como uma árvore Baobá
De vida em terra fértil, ancestrais me colocaram no jogo
Amuleto Ankh nas correntes de ouro, com minha energia Oshun“
Letra de Black Parade
Além disso, na faixa a Queen B também fala sobre os diversos protestos nos Estados Unidos contra o racismo e a violência policial, referenciando Martin Luther King Jr e Tamika Mallory, ativista e principal organizadora da Marcha das Mulheres de 2017.
Conclusão
Numa rápida análise da carreira de Beyoncé, eu percebi que ela preferiu alcançar o elevado patamar de artista lendária para então ter a certeza de que o ela cantasse ecoaria pelo mundo e assim poder usar sua voz para dar luz à assuntos importantes e necessários de serem ditos. Seus projetos podem não ter todo o conteúdo que abrange o movimento negro, no entanto as faixas sempre despertam a curiosidade e promovem o orgulho.
Do mesmo modo Black is King não será diferente. A arte de Beyoncé mais uma vez nos fará olhar para nós mesmos e expandir nosso universo de possibilidades. Nos oferecerá novas narrativas e certamente terá uma mensagem que ficará gravada e será capaz de ecoar nas próximas gerações:
Preto é Rei.
Você pode conferir também o texto sobre o filme, onde falo do enaltecimento da pele escura e o significado de ser rei trazido no álbum visual, e também impacto de Black is King neste preto gay periférico que vos escreve.
[…] Antes de ler esse texto, você pode conhecer o caminho trilhado por Beyoncé até Black is King, texto publicado aqui mesmo no […]
[…] Quando Fishbone estava surgindo, já era estabelecido como sucesso o canal televisivo de música da MTV. O canal demorou a exibir música de artistas negros, sob a alegação de que era um “canal de rock”, porém bandas de rock como Fishbone e Bad Brains tinham pouca exposição. As coisas começaram a mudar timidamente dentro do rock, com o estouro do Living Colour, cujo guitarrista Vernon Reid (guitarrista do Living Colour), fundou o movimento Black Rock Coalition, em 1985 e mais evidente dentro do pop. […]