Quando a Amazon começou a anunciar uma série sobre caçadores de nazistas, os alertas da internet foram ligados, positiva e negativamente. De um lado, porque em tempos de governos neofascistas e neonazistas pelo mundo, a vontade de ver essa galera tomando bicuda nos dentes tá aí, espalhada em muita gente disposta a assistir. Do outro, porque quando se trata de representações populares envolvendo a memória judaica sobre o Holocausto, o dissenso é certo.
Isso rolou. A repercussão pública da obra foi desde odes que a colocaram como “a melhor série do Prime Video” até umas pauladas sem dó dizendo, basicamente, que a série erra em tudo que tenta.
Confesso que eu tô mais inclinado a esse segundo ponto. Entre um elenco estrelado para esconder o roteiro rocambolesco e o texto preguiçoso, é uma realização que flerta com meio mundo de referências estéticas sem se apropriar de fato de nenhuma (comics, blaxploitation, game shows, o alvorecer das séries de TV, e os antigos vídeos educativos para TV, tudo rapidinho e desconexo para parecer cool), houve quem argumentasse que a série levanta debates importantes. Mas será que levanta mesmo?

Um mergulho em um pires.
Não vou entrar aqui em uma dissecção da história da série, mas venhamos e convenhamos que o enredo do jovem garoto puxado para uma guerra secreta entre um grupo pacífico e uma conspiração megalomaníaca entranhada no governo não é bem nova. A própria onda de abordar uma “vingança” contra os nazistas também não é algo 100% original – existem diversas histórias sobre isso, sendo o filme “Bastardos Inglórios” de Quentin Tarantino talvez o mais notório. Se há novidade em misturar essas duas histórias (eu realmente não sei se há), não foi o suficiente para manter meu ânimo.
Um ponto atrativo na série é a história da Operação Paperclip – ação secreta de inteligência que permitiu ao governo do Estados Unidos recrutar cientistas nazistas para trabalhar em solo americano após a II Guerra. Essa operação realmente é pouco conhecida e debatê-la publicamente seria incrível! Afinal, a justificativa estratégica que levou o governo dos EUA a tal atitude não está tão longe do debate político hoje. Se em 1945 o presidente Truman achou que perdoar os crimes cometidos pelos nazistas era algo que precisava ser feito para combater a “ameaça comunista” da União Soviética, em 2020 o presidente Trump vai a público defender um supremacista branco que assassinou com um rifle de assalto pessoas negras que se manifestavam contra o racismo e fala em “ameaça socialista”.
Mas…. a narrativa da série aborda essa questão de forma covarde e domesticante. A abertura ilustra bem, quando coloca a agente do FBI Millie Mories (Jerrika Hinton) como uma atravessadora da luta entre os caçadores de Meyer Offerman (Al Pacino) e os nazistas da Coronel (Lena Olin). Ou seja: há um agrupamento de judeus matando nazistas em solo americano e a luta da agente do FBI que acompanhamos é primeiro para encontrar os assassinos, para só depois para investigar como os nazistas entraram no país. Ao mesmo tempo, o alvo dos caçadores é única e exclusivamente o grupo de nazistas. Não há preocupação sobre o significado da anuência governamental dada a esses criminosos de guerra, nem reflexão alguma a respeito de que espécie de nação era aquela cujo “interesse nacional” passava por dar guarida aos perpetradores de um dos maiores genocídios da História humana.
Concomitantemente, a jornada da agente Morris para investigar a operação é a demonstração da velha história de como a ação de 01 pessoa é importante para transformar uma instituição (mesmo que na vida real a história da Operação Paperclip tenha levado gerações de pessoas para se tornar minimamente pública – e mesmo depois disso continuaram sendo sustentados pelos cidadãos estadunidenses).
Em síntese, qual o final feliz a ser esperado? A punição dos burocratas que possibilitaram essa operação, individualizando uma questão que nunca foi individual? Ou um pedido de desculpas oficial, “encerrando” a questão de maneira simbólica e passando a mensagem que as instituições governamentais são plenamente capazes de se fiscalizar (ainda que levem décadas para fazê-lo e, no fim, o crime compense, desde que você depois finja que o puniu)? Podia ser pior, porque ao menos vemos uma boa atuação de Hinton abordando as dificuldades de ser uma agente negra e secretamente lésbica nos anos 70 – mas é duro ver a bichinha se esforçando para entregar bem as linhas banais de texto que escreveram pra ela…
Representatividade?
Em 2020, milhares de pessoas foram às ruas em Minneapolis, no estado de Minnesota, contra o racismo estrutural existente na polícia local, forçando a prefeitura a abolir a força policial. E em 1977, a força crescente nas periferias americanas quando o assunto era combate ao racismo era o Partido dos Panteras Negras. Fica a questão: como estando um momento de radicalização das pautas antirracistas, e falando sobre um momento passado em que as propostas das ruas eram igualmente radicais, essa história opta por oferecer não só um, como dois arcos narrativos cujas balizas são absurdamente conservadoras? Alguém nos ajude, Lázaro, a entender.
Até porque os Panteras Negras aparecem na história. Roxy Jones (Tiffany Boone), uma das integrantes do grupo de caça de Meyer, é uma mulher negra que tem relações com o partido e a causa da libertação negra, como colocado na série. Aparentemente o pai de sua filha é membro ativo no partido, como podemos ver em um episódio quando ela busca a garota em um ato público do qual ele faz parte. Em outro momento, sua relação com a causa da liberação negra se faz presente quando ela passa um sabão em uma propagandista eleitoral no meio de um evento cheio de WASPs (brancos, americanos, sulistas e protestantes, em português) – a propagandista, claro, uma nazi.
Apesar disso, Roxy é uma personagem subdesenvolvida na história. Okay, quase todos são… mas em um momento onde a representatividade simbólica nas produções culturais é pauta quente no mundo do entretenimento, como pode uma super-produção como essa fazer isso com seu token revolucionário negro ao abordar o momento de auge dos Panteras Negras?
O mesmo acontece com o pobre soldado Joe Mizushima (Louis Ozawa), que é um veterano da guerra do Vietnã. Como essa galera se juntou a uma caça liderada por refugiados judeus? Movidos apenas pelo ódio contra os nazistas, racistas, eugenistas de bosta? Logo uma militante formada em um partido revolucionário negro, que compreendia e criticava o papel do Estado no racismo dominante nos EUA? Logo um soldado de ascendência japonesa, que sabe que o Exército (logo, o Estado) foram responsáveis pelo destino trágico que se abateu sobre seu melhor amigo após a guerra?

Cadê a conexão que tava aqui?
É nessa desconexão, seja com passado, seja com presente, que mora o grande perigo de “Hunters”. Não é a coisa da “história alternativa” – isso pode ser bacana quando bem feito. Não é o caso aqui. ““Hunters”” apaga questões importantes que precisam ser abordadas mesmo que de passagem, e ainda por cima fortifica visões e estereótipos que representam uma barreira absurda para a formação de uma consciência histórica minimamente crítica na sociedade.
A constante figura do nazista sádico que fazia experimentos humanos é uma delas. Essa galera era minoria. Não que essa figura seja irreal, o negócio é que boa parte dos cientistas acolhidos pelos EUA sequer tinham contato cotidiano com os campos de concentração. A maior parte deles trabalhava em laboratórios governamentais há quilômetros dos campos, e foram considerados como alvos para a Operação Paperclip porque aos olhos do Estado norte-americano não eram grandes ideólogos, mas apenas “cumpriam ordens” – como notoriamente alegou o burocrata nazista Adolf Eichmann em seu histórico julgamento.
Ao varrer isso pra debaixo do tapete, a série se esquiva de discutir de fato o que seria urgente nos nossos tempos. Porque se o nazista é somente o cara que tem prazer torturando e matando quem ele considera inferior, então isso não tem nada a ver com o vizinho simpático, não é mesmo? Ele jamais seria capaz de denunciar alguém para uma polícia política, porque ele não tem nenhum traço de comportamento sádico, afinal.
Percebe onde quero chegar? Ao abrir mão de discutir o colaboracionismo estadunidense com a agenda nazista de frente, a série abriu mão de discutir colaboracionistas de modo geral. Por consequência, ela é incapaz de despertar um debate sobre o que torna possível que semana após semana, dia após dia, soldados das forças de segurança dos EUA e do Brasil sigam matando pessoas da mesma cor, que moram em regiões parecidas das cidades, e que tem a renda média parecida. Passa longe de sequer triscar no que torna possível que existam hoje, no país mais rico do mundo, campos de concentração para crianças imigrantes, onde elas passam fome e são violentadas sexualmente. E o eixo de todas essas atrocidades é o sistema racista e supremacista branco que as opera.
Nesse embalo irresponsável, as liberdades criativas que a série tomou para ilustrar de maneira mais gráfica o desprezo nazista pelas vidas judias também é um problema. De novo: a questão não é “terem inventado coisas”, mas exatamente o que inventaram. Quando a história se dá a liberdade de imaginar um “jogo de xadrez humano” onde os prisioneiros eram forçados a assassinar uns aos outros à medida que uma peça derrubava a outra, ou quando cria um “concurso de canto” onde os perdedores eram assassinados, ela traz uma mensagem.
A necessidade de criar tais imagens para impactar o público parte da concepção de que as realidades factuais dos campos de extermínio não eram tão cruéis assim, em primeiro lugar, o que já é um absurdo. Em segundo, ao apresentar uma representação popular fantasiosa quanto a esse elemento justo no momento histórico que vivemos, a série dá munição a um flanco de questionamentos. “Se eles inventaram essa crueldade pra série, podem muito bem ter inventado parte da crueldade mencionada em alguns documentos”. Vualá: o invencionismo bem-intencionado acabou de regar a semente do negacionismo.

Não tenha um amigo como David Weil.
Por isso me assustei ao saber que Jordan Peele foi um dos produtores executivos da série. Peele tem redefinido o cinema de terror e suspense ao abordar de maneira direta o racismo da sociedade estadunidense em seus filmes. Foi justo isso que me deixou espantado: “Hunters” tinha a oportunidade de incluir uma reflexão ascendente sobre os elementos culturais que permitiram a Operação Paperclip, assim como a assimilação de nazistas às comunidades suburbanas dos EUA… mas o máximo que faz nessa direção é um clipe que usa a ironia para mirar no experimentalismo e erra (funciona enquanto vídeo isolado, mas fica completamente solto dentro do resto da contrução da série).
Em entrevista sobre a série, Jordan Peele disse que se envolveu com a produção criada pelo novato David Weil porque se tratava de “um show que eu queria assistir”, principalmente porque “a ideia de nazistas integrados ao nosso sistema parece muito próxima neste momento”.
A ideia realmente é próxima (e real, tanto lá quanto cá) mas a série mais dá contornos fantasiosos a um processo real do passado do que ajuda a percebê-lo como próximo do presente – como séries realmente boas fazem ao comentar política. Com isso, mesmo tratando de programas políticos e tendo um arco relacionado ao alto escalão do governo dos EUA, ela reduz os processos políticos a questões fantasmagóricas da geopolítica ou a uma mera questão que envolve o relacionamento pessoal dos operadores políticos de Washington.
Eu prefiro pensar que, como o papel do produtor executivo é basicamente vender a ideia para o estúdio que financia a parada, Peele caiu no conto do roteirista inexperiente apaixonado pelo próprio roteiro, que consegue vender a ideia para um amigo importante. Não foi o primeiro, mas tomara que tenha sido a última vez que o mega-criador caia nessa.
E antes que alguém diga “ah, mas o simples fato de você escrever esse texto já demonstra que a série levantou o debate”: não, meu amor, o debate quem tá levantando sou eu, você, e as pessoas ao redor. “Hunters” tá lá no Amazon Prime Video, sentadinha, brincando de manter a audiência assistindo por se sentir inteligente ao captar a referência estética/histórica do episódio. Nada contra, existem jeitos piores de ganhar views. Mas se você precisa ver uma série ruim pra se sentir sagaz, eu te trago péssimas notícias….