Superstore é uma série estadunidense que mostra o cotidiano de pessoas que trabalham num hipermercado, como um Walmart, fictício chamado Cloud-9. A série segue o argumento de mostrar situações engraçadas ou constrangedoras de pessoas no seu ambiente de trabalho, assim como The Office ou Brooklyn Nine-Nine, embora não siga o estilo de mockumentary que estas duas possuem.
Eu tinha acabado de maratonar Parks & Rec, The Office (US) e The Office (UK). Com isso, tinha ficado órfão de assistir um episódio de uma comédia leve antes de dormir. Então, por indicação da Sabrina Fernandes, resolvi pegar Superstore para assistir. A série está disponível até a 4ª temporada no Amazon Prime Video. A quinta temporada somente por meios alternativos, se é que você me entende. Enquanto que a sexta estreará agora no final de outubro de 2020.
Sinopse
A Amazon traz uma sinopse sem graça que cabe em um tweet e ainda sobra caractere (todo meu ódio a Jeff Bezos!): “America Ferrera e Ben Feldman estrelam uma comédia hilária sobre o ambiente de trabalho e os funcionários de uma megaloja.”
Então resolvi dedicar umas linhas para escrever uma sinopse: O jovem Jonah (Ben Feldman) começa a trabalhar numa megaloja Cloud-9 e logo de cara começa uma relação complicada com sua supervisora, Amy (America Ferrara), por ele parecer elitista. Posteriormente, vamos percebendo junto aos personagens que os problemas do dia-a-dia vão muito além de clientes excêntricos ou os trotes entre funcionários. Superstore mostra como os trabalhadores estadunidenses são precarizados e vivem a beira do colapso, e o país está bem longe da imagem popular de “terra da liberdade e das oportunidades”.
Os personagens centrais de Superstore
Amy: é a pessoa com um coração enorme que faz o possível para ajudar as pessoas a sua volta. Ela é latina (especificamente de origem hondurenha, mas nasceu nos EUA) e mãe trabalhadora que sustenta a família sozinha. Bem como, Amy trabalha na loja há mais de 10 anos e é a supervisora. Ela sempre usa um crachá com um nome diferente a cada episódio.
Jonah: é o cara gente boa que quer ser amigável com todo mundo. É inteligente e culto, mas fica pagando de palestrinha a todo momento. Ele cursou um ano de faculdade de administração, mas acabou reprovado e foi trabalhar na Cloud-9.
Os chefes
Dina (Lauren Ash): é a vice gerente da loja. Uma pessoa super difícil de trabalhar e bem excêntrica, o que à primeira vista te faz lembrar do Dwight de The Office. Assim, Dina é extremamente rigorosa com as regras da empresa e não faz a menor questão de ser agradável com os funcionários. Contudo, no fundo, ela é uma boa pessoa e faz vista grossa quando o cumprimento das regras põe a segurança de seus colegas em risco. Dina é vegana e tem muitos pássaros de estimação, muitos mesmo. Além de ser uma gostosona, e ela sabe bem disso.
Glenn (Mark McKinney): parece um bebê gigante, mas já nos seus 60 anos. É o gerente da loja. É super positivo e inocente e um fervoroso evangélico. Tem a personalidade do Barney (o dinossauro roxo) e ele parece que tem a voz de um Muppet (sério). Por causa de sua religiosidade, reproduz racismo, homofobia, xenofobia e misoginia, mas pelo convívio com seus colegas de trabalho, vai aos poucos se desconstruindo. Glenn viu seu negócio familiar de gerações ir a falência por conta da ascensão de monopólios do varejo como a Cloud-9 e trabalha desde então justamente na Cloud-9.
Coadjuvantes que roubam a cena
Cheyenne (Nichole Sakura): ela começa a série como uma adolescente grávida que trabalha na loja. A princípio, Cheyenne se encaixa no estereótipo da adolescente que é avoada e deslumbrada (possivelmente possui TDAH). Ao mesmo tempo, por conta de sua gravidez precoce, vemos o dilema de uma adolescente ter que conciliar os estudos, o trabalho extenuante e a maternidade. Chey tem um relacionamento com o bizarro Bo (Johnny Pemberton), um branquelo que se acha rapper e que pensa que a vida é um videoclipe do Migos.
Mateo (Nico Santos): é um imigrante filipino gay que trabalha na loja. Sempre tem comentários ácidos sobre qualquer situação e é super competitivo. Assim, Mateo paga de esnobe o tempo todo e acha que todos ao seu redor são incompetentes. Por outro lado, através do Mateo, temos contato com a realidade difícil de um imigrante em um país xenófobo. Chey e Mateo se tornam melhores amigos ao longo da série.
Garrett (Colton Dunn): é um cadeirante que trabalha na loja. O piadista do grupo. Igualmente tenta passar uma impressão de descolado e indiferente. Garrett muita das vezes é o ponto de lucidez em meio às situações bizarras que acontecem em Superstore. Bem como, ele sempre nos brinda com comentários sarcásticos ao fazer os anúncios no altofalante da loja. Jonah a todo custo tenta fazer com que Garrett se torne seu melhor amigo.
Sandra (Kaliko Kauahi): uma havaiana que trabalha na loja. É super introvertida e acabam tirando proveito dela por isso. Quando Sandra recebe um pouco de atenção, ela acaba se revelando uma mentirosa patológica na tentativa de continuar recebendo essa atenção dos colegas. Muitos momentos hilários e bizarros de Superstore se dão por conta dessa dinâmica de introversão e desespero por atenção de Sandra.
Política e humor em Superstore
Superstore é uma série muito engraçada por transformar o que poderia ser humor pasteurizado e sem graça em uma discussão política interessante, pertinente e engraçadíssima. Justin Spitzer, criador da série, consegue trabalhar muito bem o humor na série. Assim, quando a questão política entra em cena, ele consegue fazer isso de maneira bem humorada quando cabe e de maneira respeitosa e séria quando o momento pede. Enquanto em The Good Place nós vemos um equilíbrio primoroso entre ética e comédia; em Superstore vemos um equilíbrio primoroso entre política e comédia.
Superstore constantemente retrata estereótipos de minorias possibilitando a reflexão do quanto eles são nocivos ou, no mínimo, inadequados. Vemos como muitos desses estereótipos são estruturais na sociedade e que a desconstrução deve ser diária. Xenofobia, misoginia, homofobia e racismo são temas que permeiam praticamente todo episódio.
Outro tema constante em Superstore é a precarização do trabalho. Nos EUA, direitos trabalhistas são virtualmente inexistentes para a massa trabalhadora. Salários são baixíssimos e não recebem seguro-saúde (se recebem, é tão incompleto que não serve para nada). Nada de licença maternidade, férias remuneradas, vale-alimentação ou vale-transporte para a esmagadora maioria dos trabalhadores. Muitos estadunidenses não conseguem equilibrar as contas e vários deles sobrevivem de food stamps para se alimentarem. Não têm acesso adequado a saúde pois o sistema de saúde dos EUA é privado e caríssimo. Uma ida ao hospital pode falir a pessoa.
A série retrata situações onde personagens são obrigados a trabalhar no dia seguinte após dar à luz a um bebê; ter que morar escondido no depósito da loja pois não ter dinheiro suficiente para pagar o aluguel; sofrer um acidente no trabalho e continuar trabalhando mesmo ferido por não poder custear a ida ao hospital; intervalos cronometrados; idas ao banheiro limitadas; demissão por querer se sindicalizar.
Classe trabalhadora
Falando em sindicalizar, há uma forte cultura corporativa nos EUA de desestimular, até mesmo intimidar os funcionários para que eles não participem de um sindicato, pois essa é uma das poucas maneiras que um trabalhador estadunidense consiga garantir o mínimo de direitos trabalhistas. Em The Office, por exemplo, há um momento em que os funcionários do galpão tentam se sindicalizar, mas são convencidos a não o fazer pois a empresa faliria se tivesse que arcar com os pagamentos dos direitos trabalhistas. Imagine o quão fodido é esse sistema que quebra se pagar o mínimo para o trabalhador viver em segurança. Mas não é o caso de toda empresa falir se fizer isso, muitas das vezes apenas não o fazem para não ter um lucro menor.
Em Superstore vemos como gerentes e executivos da Cloud-9 vivem com salários astronômicos, quando comparado aos trabalhadores das lojas, possuem plano de saúde platinum e recebem diversas regalias. Enquanto a empresa se recusava pagar licença maternidade para uma personagem, dava uma festa luxuosa para os executivos, com direito a ipads de brinde. Nesta festa eles ainda se divertiam contando as humilhações de seus funcionários e confabulavam maneiras de fazê-los trabalhar mais recebendo menos. Claramente não iria à falência se remunerasse honestamente seus funcionários.
Ainda vemos na série diversas tentativas dos personagens se organizarem para lutar pelos seus direitos e como a empresa vai os coagindo e minando essas tentativas. Vale destacar, isso acontece sistematicamente nos EUA, não é um exagero da série.
O interessante de Superstore é que quanto mais politizado você for, mais você fica triste com os acontecimentos da série. Tem piadas que você não consegue rir porque é real demais. É improvável assistir uma série dessas e não ficar puto com o capitalismo.
Zona de spoilers de Superstore
Alerta: se você ainda não assistiu até o final da quarta temporada, pare de ler agora ou siga por sua conta e risco. Como a quinta temporada não está disponível no Prime, não comentarei sobre ela aqui.
Então a quarta temporada termina com Mateo sendo levado algemado pelo ICE para ser deportado. A construção dessa cena é muito bem feita. Ela passa toda a dor e tristeza do momento. É o tipo de cena que nos faz chorar e chorar. Mas depois que as lagrimas secam, vem o ódio. O ódio a esse sistema que foi feito para nos esmagar. Ninguém deveria ser considerado ilegal por apenas viver em um lugar. Ninguém deveria ser tratado como inimigo por apenas querer viver com dignidade.
Lembrando que a empresa convocou o ICE porque queria intimidar o movimento sindical na loja. A empresa quis que seus funcionários fossem presos para não pagar direitos trabalhistas. Não tem como “negociar com o patrão” quando a diferença de forças é colossal assim. O trabalhador é considerado inimigo porque ele quer viver dignamente e isso não é tolerado por quem está no topo. Assim, quanto mais miserável for a vida do trabalhador, menos ele terá forças para se rebelar e impedir os planos de que todo e qualquer centavo vire lucro. Nós, classe trabalhadora, não podemos permitir que isso aconteça.
Considerações finais
Em Superstore acompanhamos situações engraçadas, situações bizarras, casos amorosos, amizades sendo formadas e senso de comunidade entre trabalhadores braçais de uma superloja numa cidade ordinária dos EUA. Porém vemos que o dia-a-dia do país central do capitalismo é um incessante esforço de sufocar a classe trabalhadora até o limite da sobrevivência para que os grandes monopólios, e os indivíduos em suas cúpulas, possam lucrar cada vez mais.
Rolou uma identificação forte aqui. Lembrei dos maus bocados que passei trabalhando numa grande rede de super mercados lá no Japão. Depois vou procurar assistir a série.