A “mídia inclusiva” precisa permitir que nós LGBTQ possamos mostrar nossa capacidade profissional e artística.
Na última década temos ouvido bastante sobre o espaço que o LGBTQ+ tem batalhado para ter em filmes. E de fato tem surtido efeito, mesmo que os dados ainda sejam insatisfatórios. De acordo com a GLAAD, uma organização não-governamental americana que monitora a maneira como a mídia retrata as pessoas LGBTQ+, em 2020, apenas 20 dos 110 filmes das grandes indústrias continham inclusividade LGBT.

O que me instigou a escrever esse texto foi questionar onde está a representatividade profissional de pessoas abertamente LGBTQ+.
Porque “representatividade profissional” LGBTQ+?
Penso muito no discurso da Viola Davis no Emmy de 2015. Ela diz que a única coisa que separa mulheres negras de qualquer outra pessoa, é a oportunidade.
Assim também acontece com LGBTQ+. Em 2015, Eddie Redmayne foi aclamado em The Danish Girl, interpretando uma mulher trans. No mesmo ano, de acordo com a GLAAD, dos 114 filmes lançados pelas grandes indústrias e 47 filmes das afiliadas, nenhum possuía representatividade trans.
Apenas 3 do 11 melhores filmes LGBTQ+ na perspectiva do Rotten Tomatoes foram protagonizados por atores ou atrizes abertamente LGBTQ+: Retrato de uma Jovem em Chamas, Fora de Série e Uma Mulher Fantástica.
Gênero e sexualidade são construções sociais assim como a ideia de raça. Sendo assim, se nos incomodamos quando personagens não-brancos são interpretados por caucasianos, não faz sentido nos acharmos confortável quando profissionais não-LGBTQ+ interpretam personagens que são, ou ao menos não nos questionarmos porque atores LGBTQ+ não serem contratados com essa mesma frequência para interpretar personagens cis e heterosexuais.
“Afinal de contas, atuar não é interpretar outras realidades?”
Numa sociedade ideal, onde as oportunidades são iguais para todos, não teríamos porque nos preocupar com quem vai interpretar o que. Por isso, ser uma Scarlett Johansson – branca que interpretou asiática em Ghost in the Shell e se não fosse pela revolta da internet interpretaria um homem trans – é nada mais que perpetuar privilégios.
Uma vez que atuar é interpretar outras realidades, pessoas transexuais devem, pra ontem, ser escaladas para papéis cis.
“Se isso é uma forma de você se desafiar você como um ator, então eu acho que devem nos deixar desafiar e interpretar personagens cis. Nós temos pedido isso por um longo tempo. É algo que nós sempre pudemos fazer pois nós entendemos a experiência de uma mulher.”
MJ Rodriguez, atriz trans em entrevista para MTV.
Homens heterossexuais são corriqueiramente vistos como representação de virilidade, e quando eles interpretam personagens gays para o geral pode ser motivo de aclamação, mas quando o personagem gay viril ou alívio cômico viram a regra, apagam a pluralidade que o movimento LGBTQ+ possui. Acaba deixando de nos representar.
Não signfica de forma alguma que os debates trazidos por Moonlight e The Normal Heart devam ser esvaziados, muito pelo contrário, é em consonância com as tramas que podemos estender o debate.
“Mas se já tem LGBTQ+ na história, importa tanto assim quem interpreta?”
Como consumidor, é incrível ver personagens LGBTQ+ ocupando lugares até então cis e hétero, como Nicky e Joe no filme de ação The Old Guard, dois heróis imortais. Ou ver Christian Malheiros entregando uma performance incrível ao interpretar um jovem, negro, gay e periférico como eu em Sócrates.
No entanto, não podemos considerar que o problema é somente a questão de representatividade na ficção. Atores e atrizes LGBTQ+ existem e precisam de oportunidade. E quando eu digo oportunidade, não é somente escalar um ator para chaveirinho de hetero em comédias água com açúcar ou um ator trans em plano de fundo só pra dizer que tá rolando inclusividade – como em Homem-Aranha Longe de Casa.
“Eu acho que nós não queremos só contar histórias que sejam especificamente sobre nossa experiência como pessoas trans. Queremos contar histórias que investiguem o que é ser humano e ter experiências humanas – com amor, família…”
India Moore, atriz trans em entrevista para MTV.
Precisamos impulsionar a ocupação desses locais para fazer a história mais autêntica possível. Precisamos da oportunidade de contar nossas histórias e interpretá-las sem a perspectiva cis ou hetero por trás de tudo. Com os filmes, as oportunidades de discutir os assuntos abordados surgem e ninguém melhor que o indivíduo que viveu aquilo para fazer isso. E além disso, ‘contar nossa história’ é também explorar nossa capacidade de dar vida a outras narrativas sem que sejamos prejudicados pela LGBTQfobia.
Sejamos críticos
LGBTQ e aqueles que apoiam o movimento devem ser críticos quanto ao que está sendo representado e quem está representando. Não é sobre a indústria inserir qualquer personagem LGBTQ+ de qualquer jeito só pra fugir das críticas sobre falta de inclusividade. É sobre mostrar como nós somos – nossas vidas não giram em torno da nossa sexualidade, gênero, ou de uma pessoa hetero/cis.
Estou focando em filmes, mas pode-se levar a série Pose como um ótimo exemplo. Pessoas trans com seus sonhos vivendo a experiência de amar, sonhar, se arrepender… Sem que o enredo seja exclusivamente sobre como é ser uma pessoa trans.
É verdade que a profissão de um ator envolve representar a outras realidades. O problema em questão é a quem essas oportunidades estão sendo oferecidas. Se contentar com ‘obras inclusivas’ sem verificar quem está por trás dos projetos mantém os poderes nas mãos da indústria normativa. Portanto, não é sobre vetar atores de viver outras vidas, mas permitir a qualquer atores e atrizes que fogem da norma tenham oportunidade de mostrar seu talento.
Ao final do texto são tantas coisas para repensar que só tenho a agradecer, Marleson. Aprendi muito! Espero que a discussão sobre represtatividade LGBTQ ganhe cada vez mais espaço.