Moonlight surpreendeu ao ganhar o Oscar de melhor filme. Poucas obras foram tão sublimes ao retratar a psique do homem negro. Vamos investigar mais a fundo.

INTRODUÇÃO
A verdade é que alguns textos dão muito medo de escrever. Você se auto-sabota ao máximo, simplesmente porque acha que não vai dar conta. Os motivos são vários, mas um deles, que é o que eu sinto agora, é: será que eu vou dar conta?
Junho é o mês do orgulho LGBTQIA+ e, como vocês já sabem, o Maratona não só reforça o coro das vozes nesse período, como está fazendo uma série de postagens que tenham esses(s) grupamento(s) como base. Só que… na verdade, eu não consumo muitas coisas com essa linha de debate, fiquei meio perdido. Mas com tantos conflitos raciais acontecendo, também em junho, a ideia surgiu na minha mente: Moonlight.
Esse filme, que imagino que vocês já tenham visto, tem o debate de sexualidade muito interligado ao debate de raça, e é do que vamos falar. Eu vou tentar trazer uma reflexão sobre a psique do homem negro homossexual em confronto com uma sociedade que lhe oprime, tomando como base Pele Negra, Máscaras Brancas, de Frantz Fanon. Tomara que eu consiga.

Tá cheio de spoilers, fica o aviso.
MAS ANTES…
Já que vamos falar sobre negritude, e tangenciando a criminalidade: expresso aqui o meu pesar, e profundo ódio, ao ver que uma cena que despertou protestos tão agressivos ao norte do globo, se repete aqui no Brasil com a maior naturalidade. Em Carapicuíba, São Paulo, um policial imobilizou com o próprio corpo um jovem que não oferecia resistência, sufocando-o e fazendo-o desmaiar. As lágrimas não conseguem brotar dos meus olhos porque o ódio as ferve antes.
MOONLIGHT
Moonlight conta a história de um garoto preto em 3 momentos da sua vida: Little, quando ainda é uma criança; Chiron, quando está na adolescência; e Black, já um adulto formado. Vemos como situações que acontecem muito novo na vida de uma pessoa podem vir a determinar seus comportamentos muito longe no futuro.

No último episódio do MaraMinas, aos 1:15:00, minha amiga Bells fez uma fala muito interessante: “Ainda que contando uma história negra de um casal lgbt de um casal não estereotipado, ele coloca as pessoas negras do filme no lugar de marginalização. […] Aí você perpetua a ideia de que o único lugar de um homem negro é esse”. É muito válido, porém, quando se lembra que o Chiron vem de um lar nada estável, cuja mãe tinha problemas de adicção, não conhecemos o pai, ele vem a ser preso muito cedo, e ainda por cima, a figura forte de exemplo masculino que ele teve, na infância, era um traficante, não é de se estranhar que Little tenha se tornado Black. Moonlight não é, ao meu ver, uma obra determinista sobre o local do preto na sociedade. Mas sim, como demonstrar o processo de construção de um desses indivíduos. As condições e variáveis que o levaram a tal.
É um pouco complicado fazer essa separação, porque Moonlight tem bem poucos personagens (Chiron, sua mãe, Juan, Teresa, Kevin, e Terrel), e só vemos mais um que se equipare em narrativa ao Chiron.
LITTLE
Moonlight começa com Every Nigger Is a Star, que tem como refrão:
Eu andava pelas ruas sozinho
Tradução: Letra.Mus.Br (adap.)
Vinte anos eu estive por conta própria
Para ser odiado e desprezado (pobre negro)
Ninguém simpatizar (pobre negro)
Mas há uma grande coisa que eu sei
Você pode dizer: “Eu avisei”
Eles têm um lugar certo no sol
Onde há amor para todos, [..]
Mais perfeito impossível. Little nos dá 3 coisas para conversar, a instabilidade no lar, sexualidade, e construção de imaginário do ser negro. Por falta de conhecimento, o lar será pouco abordado.
É curioso ver como logo no começo, após a fala de Juan com um dos seus aviõezinhos, já somos apresentados não só à Little, como a uma constante na sua vida: o bullying. Little prefere invadir uma propriedade a lidar com os outros garotos. Fanon diz:
Enquanto o negro estiver em casa não precisará, salvo por ocasião de pequenas lutas intestinas, confirmar seu ser diante de um outro.
[1](p. 103)
Veremos que essas lutas intestinas vem a acontecer, mas vemos Little fora de casa sendo perseguido. Em algumas cenas, também, vemos os garotos perturbando ele, e não temos certeza do motivo. As pistas vem aos poucos: numa cena da aula de dança, vemos Little se mexendo com desenvoltura. Numa discussão entre sua mãe e Juan, veremos ela falar “Viu o jeito que ele anda? Vai contar pra ele por que ele vive apanhando?”. Por fim, na conversa chave com Juan, Chiron pergunta “o que é ‘boiola’?”.

No mundo branco, o homem de cor encontra dificuldades na elaboração de seu esquema corporal.
Fanon [1](p. 104)
O autor explica que reconhecer o corpo é um ato de negação do próprio corpo pois, a partir do momento que você precisa reconhecer suas ações, você deixa de agir a partir do hábito. Você está agindo a partir da visão do outro. Temos duas partes a abordar, primeira: veremos ao longo de Moonlight como uma pessoa homossexual precisa também fazer essa elaboração racional do seu esquema corporal para poder ser aceito socialmente. Segundo: Fanon fala do mundo branco, mas… Moonlight só tem gente preta. Faz sentido referenciá-lo?
Claro que faz. O mesmo, parágrafos antes, [1](p. 104) “O negro em seu país, em pleno século XX, ignora o momento em que sua inferioridade passa pelo crivo do outro… […] Mas depois… Depois tivemos de enfrentar o olhar branco. Um peso inusitado nos oprimiu“.
O mundo de Chiron só existe por estar num mundo branco. Por mais que o elenco inteiro de Moonlight seja preto, por mais que vejamos sempre bairros negros, em cidades muito pretas, o mundo do negro na América é, por definição, um mundo construído a partir do olhar branco. O mundo estadunidense é um mundo pós-colonial, de opressão europeia sobre americanos nativos e africanos. Agrupamentos negros se formaram para a sobrevivência das pessoas negras nesse local. Moonlight existe porque os Estados Unidos pós-colonial existe. Voltemos.
Chiron na infância é, o tempo todo, confrontado com uma sexualidade que ele ainda não sabe possuir. É tão estranho, que o espectador começa a se perguntar “mas o que, de fato, faz com que ele seja taxado dessa forma?”. A aula de dança? O banho de banheira com água quente? O fato de não gostar muito de brincar de bola? Fora isso, não sobra muita coisa. Eis que conhecemos Kevin.

Kevin é um dos coleguinhas de Chiron. São quase opostos: Kevin é extrovertido, gosta de brincar de bola, fala palavrão, é entrosado. Mas apesar disso, vai conversar com o Chiron. Chiron o toca pela primeira vez – no rosto, para verificar uma cicatriz. Logo, uma briga de brincadeira se inicia. Moonlight é belo por ser sublime em diversos momentos. É difícil, para a pessoa desatenta, perceber que esse aqui é, talvez, o primeiro envolvimento sexual de Chiron com alguém. Ele sempre foi um garoto introvertido, mas com Kevin consegue ser mais extrovertido. Não gosta tanto de brincadeiras de contato, como jogar bola, mas com Kevin, ele se embola no chão. Mais do que isso, mesmo que fosse uma brincadeira agressiva, eles terminam no chão ofegantes e sorrindo.

É preciso que se diga, ao contrário do que pensam as mentes conservadoras que assolam o nosso país, que sim, a sexualidade tem expressões ainda na infância, e é um fenômeno observado há muito tempo. Freud, em 1905, lança Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade [2], onde tenta descrever tal fenômeno, categorizando-o. Odessa[3] também descreve o comportamento em diversos pacientes infantes, desde bebês com expressões simples, como a amamentação, até a pré-adolescência. Por fim, Silvares [4] nos apresenta uma tabela de referência do desenvolvimento sexual infantil. Ela frisa, [4](p. 79) “percebe-se que não há uma correspondência direta entre o comportamento e o conhecimento sexual infantil”.
Odessa demonstra vários comportamentos possíveis, como pesadelos, brincadeiras com outras pessoas, sonhos, brincadeiras com objetos. Não é estranho pensar que a luta entre Kevin e Chiron tenha sido uma dessas demonstrações. A forma como os garotos levantam alegres e confortáveis um com o outro é outra demonstração disso. Mas ainda assim, “Eu sabia que você não era frouxo!” é a fala de Kevin, antes deles saírem correndo.
Gostaria de falar também dos garotos brincando de mostrar os genitais uns pros outros, mas essa fala do Kevin nos leva diretamente ao próximo ponto: como a masculinidade rígida do homem negro é construída desde muito cedo. Não só por adultos, mas também pelos seus pares – outras crianças. Fanon nos alerta, [1](p. 47) “O importante não é educá-los, mas levar o negro a não ser mais escravo de seus arquétipos”, mas é muito complicado, quanto toda a conjuntura social te leva nessa direção.

Chiron não tem um exemplo masculino em casa (um pai, avô, tio ou irmão). Juan é a pessoa mais próxima dessa figura que conhecemos. Mas é, também, uma pessoa problemática: Por mais gentil que seja, é um traficante de drogas. O mesmo cara que é tão atencioso e sensível com Chiron, que o ensinou a nadar, que demonstrou ser confiável ao ponto de segurá-lo em pleno mar, também é o cara que vende drogas para sua mãe. Com ele, Little tem uma das falas mais icônicas de Moonlight, “o que é ‘boiola’?”. Mas um detalhe me prendeu, logo antes.
Chiron chega na casa de Juan e Teresa mas, assim que chega, senta na primeira cadeira, de costas para a porta. Juan então dispara “para começo de conversa, […] não sente de costas para porta. […] Que segurança você tem assim?”. De novo, a construção da masculinidade sendo constituída desde muito novo. Em que pese, é de fato uma excelente dica. O local em que vivem, e os meios onde circulam, podem ser de fato muito violentos, e medidas de segurança nunca são exagero. Mas é mais um tijolinho nesse muro da masculinidade.

E agora podemos ir pra pergunta. “O que é ‘boiola’?”. Uma criança tão pequena deveria ser submetido a essa dúvida? Por que “boiola” (faggot) e não outro sinônimo, não pejorativo? Numa sociedade saudável, isso seria um problema? “Só diga pros outros negos que você não é frouxo”, disse Kevin cenas atrás. O que é ser “frouxo”? É um problema ser frouxo? Juan é muito sensível em suas respostas aos questionamentos de Chiron. Lhe devotamos muito respeito, mesmo sabendo que, paralelamente, ele destruiu o lar do garoto.
CHIRON
A sexualidade de Chiron continua sendo questionada. Ao se distrair na aula, um colega, Terrel, o acusa do terrível crime de ter menstruado. É muito estranho pois, assim como na infância, Chiron não tem comportamentos estereotipados associados à homossexuais ou a mulheres. Ele é só uma pessoa introvertida. Mas a obsessão de Terrel por ele é muito intensa. Poderia-se levantar o questionamento, “não seria essa homofobia uma demonstração de homossexualidade reprimida?”. Pode ser, mas como disse Lorelay Fox (na entrevista abaixo), esse pensamento é uma forma de devolver a culpa da homofobia para o próprio homossexual. Então vou evitar essa linha de raciocínio aqui, nessa análise de Moonlight.
Porém, por mais que Chiron não siga o estereótipo do homossexual, conseguimos notar melhor seus interesses nessa fase. Quando Kevin comenta com ele como tá “comendo” uma colega deles, Chiron fica notavelmente incomodado. Mas ao mesmo tempo, sonha com o sexo do amigo com a garota.
O lar de Chiron continua ainda mais deteriorado. Se, na infância, a mãe estava iniciando o vício, vendendo a tv e ficando chapada as vezes, agora ela basicamente está em estado de vício permanente. Chega ao ponto de roubar o filho para continuar sua adicção. O único lar seguro que lhe sobra é a casa de Teresa, sua “mãe” indireta. O lugar de conforto é próximo ao mar, onde seu “pai” indireto lhe ensinou tanta coisa. Lá ele reencontra Kevin.
E se o amor e o sexo ainda não eram claros para Chiron, agora eles ficam mais do que evidentes. É uma cena muito bonita, então não vou falar muito. Apreciem:
Mas enfim, às vezes parece que o Chiron é brasileiro, porque nenhuma alegria vem sem uma eleição de 2018.
No momento em que eu esquecia, perdoava e desejava apenas amar, devolviam-me, como uma bofetada em pleno rosto, minha mensagem! […] De um homem exige-se uma conduta de homem; de mim, uma conduta de homem negro – ou pelo menos uma conduta de preto. Eu acenava para o mundo e o mundo amputava meu entusiasmo.
[1](p.117)
Terrel arma para Chiron (mais uma vez), combinando uma forma de humilhar ele com… Kevin.
E Kevin aceita.
Por que?
A mesma sociedade que aprisiona Chiron, aprisiona Kevin. Os mesmos paradigmas, os mesmos dogmas, os mesmos preconceitos. Só que com uma diferença: Kevin já estava integrado. Desde a infância. Kevin começa a briga com Chiron quando eram crianças, mas Kevin nunca deixou de brincar com os outros meninos. Kevin toma a iniciativa com beijar Chiron e tocá-lo, mas ele já transava com garotas antes. Como uma pessoa já integrada, ele precisa manter seu status social. Mesmo que isso implique trair outra pessoa. Kevin faz o que lhe é pedido, e fere Chiron muito além de um rosto sangrando.

Nunca esqueci um conto que meu pai leu para mim uma vez, mas não consegui reencontrar esse texto. “Um homem foi julgado, e estava sendo apedrejado. Lhe jogavam rochas grandes, e ele não reagia nem esboçava emoção. Porém, um amigo ao passar, pega uma pedrinha, e a arremessa. Aí, então, o homem desaba em prantos”. Terrel não tinha noção de como ele transbordou esse balde.
O que você esperavam quando tiraram a mordaça que fechava essas bocas negras? Que elas entoassem hinos de louvação? Que as cabeças que nossos pais curvaram até o chão pela força, quando se erguessem, revelassem adoração nos olhos?
[1](p. 43 apud Sartre, prefácio à Anthologie de la poésie nègre et malgache)

Quem poderia julgar as cadeiradas que Chiron aplica em Terrel? A masculinidade que sempre foi esperada dele finalmente irrompe. Porém, [1](p. 47) “do negro exige-se que seja um bom preto; isso posto, o resto vem naturalmente”. Chiron não foi. Chiron é preso.
BLACK
Finalmente chegamos ao homem adulto. Vimos essa semente se desenvolver. E começamos essa etapa com um trauma de infância de Chiron: Sua mãe gritando para ele “não olhe para mim!”. Fanon nos lembra, [1](p. 127) “[…] a psicanálise, […] se propõe a compreender determinados comportamentos no seio de um grupo específico representado pela família. E quando se trata de uma neurose vivida por um adulto, a tarefa do analista é reencontrar, na nova estrutura psíquica, uma analogia com certos elementos infantis, uma repetição, uma cópia de conflitos surgidos no seio da constelação familiar. […] procura-se considerar a família ‘como objeto e circunstância psíquicas.’ ”.

Abordei pouco a relação de Black com a mãe, mas o seu “abandono presencial” é importantíssimo para entendê-lo.
Black se tornou o que seu microcosmo exigia. Uma pessoa embrutecida, que ganha argumentos pela força. Porém, como já dito, o “bom preto” tem “dificuldade em desenvolver seu esquema corporal”. É muito fechado, pouco simpático. Não se relaciona bem com a mãe. Dois trechos de Pele Negra descrevem bem o que é Black, um na página 76, parágrafo 5º (apud Minkowski, 1927), outro na página 78, parágrafo 2º (apud G. Geux). Vou trazer só o primeiro:
No caso do sujeito de tipo negativo agressivo, a obsessão pelo passado, com suas frustrações, seus vazios, suas derrotas, paralisa o impulso vital. Geralmente mais introvertido do que o amante positivo, ele tem tendência a repetir suas decepções passadas e presentes, desenvolvendo em si uma zona mais ou menos secreta de pensamentos e ressentimentos amargos e desenganados […]. Mas[…] o abandônico tem consciência desta zona secreta que cultiva e defende contra qualquer intrusão. Mais egocêntrico do que o neurótico do segundo tipo (o amante positivo), ele relaciona tudo a si próprio. Tem pouca capacidade oblativa e sua agressividade, uma constante necessidade de vingança, limita seu entusiasmo. Seu enclausuramento dentro de si não lhe permite realizar nenhuma experiência positiva que poderia compensar o passado. Do mesmo modo, a ausência de valorização e, por conseguinte, de segurança afetiva, é nele quase completa;[…]
[1] (p. 76) (apud Minkowski, 1927),

Como vimos no início dessa etapa, Chiron nunca se livrou dos seus traumas, transformando-o em Black. Não só na sua “profissão”, traficante. Mas sim, na pessoa embrutecida, com poucos amigos, com dificuldade de se abrir (e de fazer piadas). Arma pronta para qualquer ocasião, tanto na cintura quanto na mente. A mãe, ao reencontrá-lo, tenta desfazer o passado, mas o tempo já passou. Nunca a perdoou. Porque haveria de fazê-lo? Chiron viveu sozinho com ela (ou apesar dela) por anos, porque agora lhe cabe a reaproximação? Porque teria de aceitar o pedido hipócrita dela de sair das ruas? Mesmo que, com isso, ele não note o quanto é hipócrita que ele se torne um traficante, provavelmente permitindo que os problemas do seu lar se repitam em outros lugares.
Mas Chiron ainda não está totalmente fechado. A ligação de Kevin faz surgir em Black algo há muito adormecido. Em Silvares [4](p. 79), vemos que a polução noturna é algo comum entre crianças de 10 anos. Chiron recalcou seus impulsos desde a adolescência! E agora eles ressurgem num turbilhão, que tenta romper a carapaça chamada Black.

Quando encontra Kevin, Black está finalmente sem jeito. Se já era de poucas palavras, se torna monossílabo. Se seu sorriso era meramente social, agora revela uma tácita timidez. Fanon, mais uma vez:
A primeira característica parece ser o medo de se mostrar tal como se é. Há aqui um vasto domínio de diversos temores: medo de decepcionar, de desagradar, de entediar, de cansar… e, conseqüentemente, medo de perder a possibilidade de criar com o outro um laço de simpatia, ou, se este existe, de danificá-lo. O abandônico duvida que possam amá-lo tal qual ele é, pois passou pela cruel experiência do abandono quando estava disponível à ternura dos outros, pequenino, e portanto sem artifícios
[1](p. 79, apud G. Gueux, p. 39)
A vida passou para os dois, e as novidades nem sempre são confortáveis. Um filho, o tráfico…

Porém, Kevin está muito confortável com o reencontro. Faz piadas, é divertido. Cozinha para Chiron. Põe uma música que lembra os bons tempos. No entanto, como descrito por Fanon, Black não consegue se mostrar como é. Nem mesmo quando Kevin é incisivo ao perguntar-lhe onde passará a noite. Era a “vida em modo tutorial”, como diz o Guga Mafra, mas Black apenas aumenta o som do rádio. Fanon utiliza dois personagens, Jean Veneause e Andréa, para demonstrar a psique do homem negro. E, sobre isso, comenta [1](p. 80) “Quando reencontra Andréa, diante da mulher que deseja há longos meses, refugia-se no silêncio…”. É importante que se diga: Fanon está aqui demonstrando o conflito do homem negro com uma mulher branca. Para Moonlight, adaptei (onde cabia, claro) para os conflitos entre dois homens negros.
E, para nossa sorte, Black não segue os passos de Jean Veneause. Justamente tentando [1](p. 81) “Se libertar de seus delírios infantis”, Black (agora Chiron) fala:
Você é o único homem que já me tocou. Nunca mais toquei ninguém desde então.
Black

É um final lindo, sublime, dos dois aconchegados no ombro um do outro.
Fanon afirma, “Jean Veneause é um neurótico, apelar para a cor é apenas uma tentativa de explicar sua estrutura psíquica. Se esta diferença objetiva não existisse, ele a inventaria peça por peça”. O mesmo eu afirmo para o nosso Chiron, aqui, contudo modificando um pouco a premissa: além de sua cor não ser suficiente para explicar as suas travas emocionais, sua sexualidade também não é. No entanto, todos os traumas a que foi submetido, tendo tais fatores como motivadores, o levaram de Little para Black.

Fanon finaliza o Capítulo 3 dizendo que uma forma de resolver as problemáticas apresentadas implica em transformar o mundo. E esse mundo precisa mesmo ser transformado, afinal. Mas meus estudos de Fanon e Moonlight se encerram aqui, por hoje. Espero que tenham gostado!

[1] FANON, F.; SILVEIRA, R. da. Pele negra, máscaras brancas. Editora da Universidade Federal da Bahia, 2008. ISBN 9788523212148.
[2] [Wikipedia] Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade
[3] Odessa, M. Wulff. (2016). Contribuições para a sexualidade infantil ,. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, 19(3), 512-526.
[4] Silvares, E. F. de M. Orientação sexual da criança. In: Maria Zilah Brandão, Fátima C. S. Conte e Solange M. B. Mezzaroba (orgs.). Comportamento humano: tudo (ou quase tudo) que você gostaria de saber para viver melhor. Santo André: ESETec.
[…] me lembra a reflexão do revolucionário e intelectual marxista e pan-africanista Frantz Fanon (já abordado aqui no site), quando disse “minha pele negra não é depositária de valores específicos”. E, ao ser […]
[…] a esse tema. E eu tive dificuldade semelhante à dos meus colegas. Eu consegui escrever sobre Moonlight, que é até hoje um dos meus melhores textos, e fico orgulhoso e grato ao mesmo tempo. Mas isso […]
[…] signfica de forma alguma que os debates trazidos por Moonlight e The Normal Heart devam ser esvaziados, muito pelo contrário, é em consonância com as tramas […]