Jerry Lawson: Cartuchos esquecidos

Jerry Lawson: Cartuchos esquecidos

Que o racismo é estrutural, nós sabemos. Entretanto, nos últimos anos, vieram à tona também o apagamento de negros e negras importantes na história. Pessoas as quais sem elas e suas mentes, teríamos provavelmente aspectos da sociedade bastantes diferentes.

Um desses exemplos é o trio composto por Katherine Johnson, Dorothy Vaughan e Mary Jackson. Matemáticas e engenheiras, foram responsáveis por realizar cálculos importantes dentro da NASA, de tal forma que permitiram que os Estados Unidos pudessem ganhar a corrida espacial. A história foi adaptada para livros e filmes, o último conhecido como “Estrelas Além do Tempo”.

Poster do filme Estrelas alem do tempo, com as personagens principais.
Poster do filme “Estrelas Além do Tempo”

Entretanto, não falarei delas hoje, mas sim, de um negro, chamado Jerry Lawson.

Sua história

Gerald Anderson Lawson nasceu em 1940, em Brooklyn. Seu pai, Blanton, que apresentava interesse em ciências, trabalhava nas docas da cidade, enquanto sua mãe, Mannings, trabalhava na associação de pais e professores local. Seu avô, foi educado como físico, mas nunca conseguiu seguir a carreira, trabalhando então como chefe de correios.

Como pode ver, uma família, de uma forma ou de outra, bastante interessada no ramo científico. Jerry demonstrava interesse nesse mundo desde cedo. No colégio, ganhava dinheiro consertando TVs. Aos 13, ganhou uma licença de radioamador.

O Início

Nos anos 70, se juntou a Fairchild Semicondutores, como consultor de engenharia no seu setor de vendas. A partir daí, sua relação com jogos começa a se delinear. Enquanto estava nesse setor, criou o jogo arcade Demolition Derby em 75, utilizando-se de semicondutores da empresa, jogo que se tornou um dos primeiros jogos feitos em microprocessadores.

Devido ao feito, se tornou engenheiro chefe da Fairchild, além de diretor de engenharia e marketing da divisão de videogames da empresa.

A revolução

Com esses cargos, Jerry deu início ao que abriria portas para sua maior invenção, O console Fairchild Channel F (FCF). Na época, a maioria dos jogos já vinham codificados dentro dos consoles. Imagina se você comprasse o Super Nintendo, E ele viesse com o Super Mario World na memória. Entretanto, na semana seguinte, saiu Mario Kart. Pro seu azar, nesse universo não tem cartuchos, então você vai ter que comprar o SUPER NINTENDO – MARIO KART, se quisesse jogar.

Com isso em mente, Lawson teve como intuito mudar esse paradigma. No FCF, Lawson separou os jogos da máquina em si. Portanto, jogos poderiam ser vendidos a parte em cartuchos removíveis, criando assim uma coleção, criando uma nova fonte de renda para a empresa.

O Console Fairchild e um dos seus cartuchos
O Console Fairchild e um dos seus cartuchos

Infelizmente, o console não foi um sucesso comercial. A sua inovação com cartuchos, entretanto seria adotada pelo Atari 2600 em 77.

Nos anos 80, Lawson saiu da empresa e fundou a Videosoft, desenvolvedora que criava jogos para o Atari 2600 (o mundo dá voltas, né?). A empresa, entretanto, faliu 5 anos depois, e Lawson começou então a trabalhar como consultor tecnológico para outras empresas, além de participar de um programa de mentoria em Stanford.

Atualmente, ainda vemos cartuchos ainda sendo bastante usados pela Nintendo, especialmente em seus portáteis.

Reconhecimento?

Somente em 2011, Lawson tem algum reconhecimento, ao ganhar o prêmio de pioneiro da indústria na IGDA, Associação Internacional de Desenvolvedores de Jogos, e mais tarde, em 2019, ganhando o prêmio de Herói dos Games da ID@Xbox, pela invenção.

Entretanto, Lawson, faleceu um mês após o evento da IGDA, por complicações de sua diabetes. Foi personagem de alguns documentários, feitos a partir de 2015, como “Perfis do sucesso Afro Americano”, e mais recentemente, em agosto de 2020, com o documentário High Score, produzido pela Netflix, onde seus filhos Karen e Anderson contam sua história.

Jerry Lawson mais velho, com o console que criou em mãos
jerry Lawson mais velho, com o console que criou em mãos

E aí?

Imagine um mundo onde seu Super Nintendo poderia nem existir, ou ser muito diferente. Pense então, que talvez você só tenha descoberto a existência e genialidade de Lawson com o documentário da Netflix, ou quem sabe, com esse texto assim. 

Jerry Lawson foi, portanto, mais um exemplo de capacidade, inventividade e genialidade representado por uma raça frequentemente discriminada e desvalorizada. Não é gratuito que essas figuras levem tanto tempo a serem reconhecidas. Já programadores e inventores brancos, rapidamente saltam para o inconsciente popular como verdadeiros avatares da genialidade e inventividade. 

Dessa forma, reconhecemos essas disputas, e partindo disso trazemos à luz suas obras buscando reparar essa falta de espaço. Ao concluir esse texto, é importante que você agora saiba quem foi Jerry Lawson, e multiplique esse conhecimento.

Falando de algum lugar no universo - Diogo Freire

Amante de games e cinema. Não venha falar mal de Drive e/ou Ryan Gosling comigo!

2 Comentários
  1. Responder Pedro Henrique Corujeira Pereira 17 de novembro de 2020

    Li tantos livros sobre a história dos videogames e nunca havia ouvido falar em Jerry Lawson, que lástima! Obrigado por me fazer conhecê-lo, Diogo.

  2. Responder Janaína Muniz Falcao 13 de dezembro de 2020

    Legal gostei👏👏

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