Revisitando Zone of the Enders

Revisitando Zone of the Enders

Maratoneiros, uma pergunta rápida para vocês: alguma vez já se sentiram traídos pela nostalgia? Como assim? Sabe quando você jurava que aquele filme, quadrinho, livro ou jogo da sua juventude parecia a melhor coisa do mundo, mas ao visitá-la anos depois descobre que não era bem assim? Então, foi bem isso que rolou comigo ao tentar jogar, Zone of the Enders (Z.O.E.), mais de 15 anos após o seu lançamento original, lá no Playstation 2. 

Contextualizando

Zone of the Enders é uma obra do gênero sci-fi, focada numa realidade em que os seres humanos foram capazes de grandes avanços tecnológicos, como a colonização de outros planetas e a criação de robôs de combate para uso militar, chamados de Orbital Frames. A trama da maioria dos jogos e animes da franquia gira em torno dessas máquinas e o poder delas de pôr um fim no conflito armado entre a Terra e a colônia de Marte.

Jehuty é um dos mais poderosos Orbital Frame de Z.O.E.

O projeto encabeçado por Hideo Kojima, quando ainda estava na Konami, ganhou vida em 2001, com o lançamento do primeiro jogo da série, Zone of The Enders, para Playstation 2 e um OVA (original video animation) chamado Z.O.E. 2167 Idolo, que serve como prólogo para que o jogador entenda como se iniciaram os conflitos entre a Terra e Marte. Ainda no mesmo ano, foram lançados também Zone of the Enders: Fist of Mars, um jogo de estratégia para GameBoy Advanced, e Z.O.E Dolores, I, uma série em anime para televisão, com 26 episódios. Já, em 2003, foi a vez de Zone of the Enders: The 2nd Runner, a sequência direta do primeiro jogo.  

Z.O.E. Dolores, é produzido pela Sunrise, o mesmo estúdio de Gundam e Cowboy Bebop

Em 2012, com o lançamento da Zone of the Enders: HD Collection, ainda havia o interesse de Hideo Kojima e sua equipe de lançarem um novo jogo da série, no entanto, com as baixas vendas e problemas técnicos da coletânea, o projeto caiu no esquecimento.    

Tendo feito esse breve resumo sobre a história da franquia, a partir de agora vou falar apenas da minha experiência com o primeiro jogo, lá de 2001.

Passado 

Recordo de ter jogado Zone of the Enders (o original de PS2), pela primeira vez, no começo dos anos 2000. Devia ter entre 13 ou 14 anos e, nessa fase da vida, vivia um sério caso de amor com animes de robôs gigantes, como Gundam, Red Baron, Cybuster e Evangelion. Sonhava pilotar um mecha fodão algum dia… Com Z.O.E., realizei virtualmente esse sonho molhado da minha adolescência. 

https://www.youtube.com/watch?v=zsrmD8_pMrk
Essa introdução ainda continua maravilhosa.

Z.O.E. se tornou um título muito especial para mim, porque, além de me proporcionar a experiência de controlar um robô gigante, os combates tinham um ritmo veloz, alinhados à uma trilha sonora empolgante e gráficos impressionantes (para a época). Também me encantava a ideia de um garoto, acidentalmente, cair no cockpit de um robô gigante e se ver obrigado a tomar parte na guerra para salvar uma pessoa amada (um conceito bem comum em animes do gênero mecha).

Presente

Bom, como havia dito há pouco, Zone of the Enders, realizou o meu sonho de pilotar um robô gigante e era um jogo pelo qual nutria carinho, então nada mais natural do que querer jogá-lo de novo, não? Pois bem, foi isso mesmo que fiz, mas dessa vez, decidi jogar a versão remasterizada do game, disponível na coletânea HD de Playstation 3.  

Nos primeiros minutos de jogatina, só conseguia pensar no quão empolgante seria reviver meus dias de glória pilotando o Jehuty, porém, passada a empolgação inicial, parte daquela magia proporcionada pelo véu da nostalgia caíram pouco a pouco. O Pedro do presente talvez não estivesse pronto para admitir que o seu amado jogo havia envelhecido mal. Muitíssimo mal.

Bonito, mas e a trama?

No departamento gráfico, levando em consideração a idade avançada do primeiro Z.O.E., a equipe da Kojima Productions conseguiu bons resultados em adaptar o visual do jogo para sexta geração de consoles, garantindo que ele ficasse um pouco menos datado. Contudo, as melhorias visuais não significam muita coisa quando o conjunto da obra não ajuda. 

O meu primeiro ponto de incômodo imediato rejogando Zone of the Enders, depois de tantos anos, foi com o enredo e os personagens. Joguei a versão japonesa do jogo, o que me poupou do péssimo trabalho de localização da versão americana, principalmente, no que diz respeito a dublagem, mas são tantas lacunas no roteiro que você pode vir a finalizar o jogo e ainda assim não pegar tudo que está rolando de fato na trama. 

Leo Stenbuck, o protagonista do jogo e moleque sem sal…

Em outras palavras, você vai precisar visitar uma Wikia ou assistir os animes da franquia, caso queira realmente ter uma noção mais clara do que aconteceu para desencadear a guerra na qual você está lutando desesperadamente para salvar vidas inocentes. 

Agora, falando dos personagens, eles não têm nenhuma profundidade. Criar quaisquer vínculos com eles é uma tarefa difícil (isso se você quiser se dar o trabalho). O jogo até tenta criar momentos dramáticos na narrativa, com cenas em CGI, mas tudo é tão forçado para o jogador que não funciona. Não fosse o design maneiro de alguns deles, como a Viola, não sobraria muita coisa pra apreciar. 

Viola, a vilã que deseja pôr um fim em Leo e seu Jehuty.

Prepare seus dedos (e a sua paciência)

Apesar de ser um jogo curto (você pode finalizá-lo em cerca de seis horas se souber exatamente o que fazer e onde ir), Zone of the Enders é muito cansativo. Admito que já não tenho os reflexos de antes e ficar horas apertando os mesmos botões numa sequência louca de comandos fez com que meus dedos pedissem descanso por tempo indeterminado. 

Dash, dash, laser, laser, dash, haja reflexo.

Mesmo as missões de resgate, que funcionam como sidequests para tentar arrancar umas horinhas a mais do jogador, acabam caindo no mesmo fluxo de repetição da campanha. Os inimigos que enfrentamos são os mesmos e ainda temos o bônus maldito de ter que proteger alguns edifícios da colônia dos seus ataques. Além disso, seus próprios ataques também destroem os prédios, que mais parecem construções feitas de papel, tornando o combate uma experiência mais traumática do que divertida se você almeja resgatar todo mundo.

Os combates contra chefes são as poucas chances que o jogador tem de explorar novas possibilidades de abordagem contra o inimigo e aproveitar o real potencial de todas as armas equipadas no Jehuty. Ainda assim, essas lutas contra chefes são poucas, dada a curta duração do jogo.

Zone of the Enders: anime de robô interativo

Os sinais dos tempos foram um pouco cruéis com o primeiro Zone of the Enders e nem mesmo o fator nostalgia foi suficiente para superar alguns aspectos negativos do jogo, que antes passavam despercebidos. Afinal de contas, não só eu amadureci enquanto jogador, como a indústria (e o desenvolvimento) de jogos também. As tendências mudam com o passar dos tempos, é um processo natural. 

Zone of the Enders, assim como outros jogos, em suas respectivas épocas, representa parte da história dos videogames. Em 2001, quando estreou no Playstation 2, ele era sem dúvida algo a frente do seu tempo. O dinamismo das mecânicas de combates, os designs dos mechas em 3D, a narrativa (apesar de fraca) repleta de elementos de linguagem cinematográfica (marca das produções do Kojima) impressionam quando levamos em consideração a idade do jogo. A trilha sonora então, permanece maravilhosa e intacta pelos traços dos tempo. Sempre que ouço a música da tela de início do jogo (a minha favorita) tenho arrepios até hoje…

E aí, arrepiou?

Quando questionado em uma entrevista, o diretor e roteirista do jogo, Noriaki Okamura, sobre que tipo de jogo é Zone of the Enders, ele o descreveu como um “simulador de anime de robô” no qual você pode controlar fácil e livremente um mecha, como os vistos nos animes. Dito isso, o jogo cumpre muito bem com a proposta. E sendo franco, era dessa experiência que estava atrás quando o joguei no passado e também agora.    

A verdade que não queria admitir é que o jogo envelheceu mal, acontece. Demorei um pouco para digerir esse fato e acredito que escrever sobre isso possa ter me ajudado a equilibrar minhas novas impressões acerca dessa experiência. No final, a lição aprendida é que determinados jogos conseguem transpor as barreiras do tempo e ainda se mantém atuais e relevantes para um grande público. Infelizmente, esse não me parece ser o caso de Zone of the Enders, não que isso diminua os méritos alcançados por seu time de desenvolvedores.

O carinho pela série pode não ser o mesmo hoje em dia, mas com certeza, as boas memórias irão me acompanhar por muito tempo.

Falando de algum lugar no universo - Pedro Corujeira

Salvo mundos fantásticos da iminente destruição desde os anos 90 e sigo nessa vida até hoje. Nos intervalos entre uma batalha e outra, escrevo para o Maratona de Sofá sobre joguinhos, filmes, desenhos, gibis e o que mais der na telha.

Deixe um Comentário