É o Darín que o Filipe do Xadrez Verbal brinca que aparece em TODO filme argentino? Acho que é… Bom, esse é mais um pra coleção. A Odisseia dos Tolos (La Odisea de los Giles, 2019)

SINOPSE
Baseado no livro La Noche de La Usina, de Eduardo Sacheri.
Seguindo a onda de filmes sobre vilarejos contra um opressor (beijo, Bacurau), um grupo de moradores de uma cidade pequena na Argentina reúne seus recursos para comprar um silo e montar uma cooperativa rural. Porém, o líder Fermín Perlassi (Ricardo Darín) inventa de confiar no gerente do banco, Alvarado (Luciano Cazaux) e… tomam um calote na crise argentina de 2001.
CONTEXTO E CULTURA
Acho que, para brasileiros, é impossível não relacionar o período do corralito, que aconteceu entre 2001 e 2002, com o plano Collor, que acontece entre 1990 e 1994, e é um dos fatores do impeachment do ex presidente homônimo. Ambas foram medidas extremamente impopulares, que dificultavam o acesso da população aos seus fundos que estivessem em bancos. Daí, gerou indignação popular. E essa revolta foi um dos fatores que levou à queda do presidente em exercício de ambas nações. Claro, cada um vai ter as suas características específicas, mas as semelhanças são muito claras.
Essa á uma das graças de consumir coisas de outros países, fora os que estamos acostumados. Eu nunca soube que esse período tinha acontecido, mesmo com meu pai sendo um grande consumidor de telejornais (e acho que minha educação baseada em Podcasts acabou falhando. Volte duas casas). Filmes como A Odisseia nos permitem acessar essa parte da história, além de conhecer alguns costumes dos nossos irmãos do sul que não nos ocorreria normalmente. Eu vejo o brasileiro como um povo muito auto-centrado, de uma maneira ruim. Nós damos muita atenção para o que acontece nos nossos colonizadores culturais (Estados Unidos, França, Inglaterra), mas ligamos pouco para pessoas que vivem no mesmo continente, ou que falam a mesma língua. O cinema, como máquina de empatia que é, ajuda a derrubar essas barreiras – se você der a chance.
Enfim, divago.

CONEXÃO
A Odisseia trás muitos elementos de conexão com o espectador. A narração, que não só te conduz pela trama, como também te conecta com o fato histórico (lembrando que esse filme é uma ficção). As cenas de reportagens reais que aparecem. E outros elementos, é claro. As cores saturadas e sólidas contribuem bastante para o clima de comédia que o filme tem, apesar deste lidar com assuntos bem sérios (desespero, roubo, revolta popular). Importante notar que A Odisseia é feito de argentinos para argentinos. Muita referência e informação é dada sem ser explicada. Se você ficou curioso, corre e pesquisa.
ATORES
Os atores tem uma carreira extensa de produção, a começar pelo Darín, e seu objetivo de estar em TODO filme argentino. Todos estão muito bem em seus papéis, e entregam exatamente o que se precisa. Até mesmo os mais novos, Rodrigo (Chino Darín) e Florencia (Ailín Zaninovich) estão bem. Inclusive, curioso, Chino Darín é filho de Ricardo Darín na vida real.
CONCLUINDO
A Odisseia dos Tontos é um filme que pode passar batido pelo seu radar, mas não deveria. É um filme muito caprichado em sua comédia, apesar de ser de roubo (heist). O plano é interessante e inteligente, apesar de… bom, momento P.S. E, para além disso, te permite acessar uma parte da história de nosso país vizinho que talvez você não conheça. Ela é plano de fundo, mas com certeza você ficará curioso, se gostar de história. Deem uma chance!

MOMENTO P.S. (Pode Spoiler)
Primeiro: uma coisa muito legal de ver filme argentino, é que dá pra reconhecer muitas palavras mesmo num filme legendado. E caramba, como eles são bons em falar palavrão! Saí da sessão com vários novos (Que… já me esqueci. Mais um motivo para reassistir).
Outra coisa: Por que odisseia? O filme não trata de uma jornada, não é um road movie… é interessante, mas é estranho.
Indo um pouco sério agora, mas ainda na superfície: o plano de descarregar a bateria, enlouquecendo Manzi (Andrés Parra) é inteligente. Mas não seria mais fácil 1) ativar o alarme 2) se esconder 3) esperar Manzi aparecer 4) imobilizar ele, e roubar o dinheiro? Tá certo, tá certo, numa das reuniões eles deixam claro, são pacifistas, e não querem ferir ninguém. Mas… sei lá, tão mais prático.
Por fim, e agora sendo realmente sério, assistir A Odisseia me lembrou de dois filmes brasileiros: O Doutrinador, e Bacurau. O primeiro, no sentido de que pessoas que são atingidas por um sistema que não pensa no bem-estar delas (chegando a vitimar entes queridos) se revoltam contra este e contra seus agentes corruptos. O segundo, por ser um grupo de pessoas atingido por um inimigo em menor número, mas muito mais poderoso, que se unem para reagir e sobreviver.
Porém, as semelhanças com Doutrinador param muito no começo. Os Heroic Losers não decidem tomar medidas fascistóides como o herói dos quadrinhos. Pelo contrário, a reação deles sempre se baseia num senso de justiça muito afiado, e não agressivo (apesar da barra de ferro pronta atrás da porta).
Bacurau, aqui sim, é muito mais próximo. Não tratam da mesma classe social / econômica, e A Odisseia não tem o plano de fundo que envolve questões étnicas. Mas ainda assim, ver um povoado, que tinha tudo para ser apenas mais um na lista de corpos no chão, se unindo para se proteger e reagir, é muito bonito. Quem nasce neste pueblo é gente, também, afinal.
