Castlevania – Terceira Temporada

Castlevania – Terceira Temporada

Em 2017, a série animada de Castlevania chegou na Netflix com pé na porta. Criada por Warren Ellis, com apenas 4 episódios, de muita ação, horror e gore, trazia a adaptação de um clássico jogo de videogame, e deixava todo mundo ávido pela continuação. Na verdade, os 4 episódios e 2017 foram uma grande aposta, que acabou dando muito certo. Em 2018 tivemos a continuação, segunda temporada com 8 episódios, que continuava as narrativas estabelecidas na primeira, mas que também expandia muito universo. E agora, 2020, temos a terceira temporada, que assim como a anterior, continua as histórias da temporada passada mas também apresenta muitas coisas novas. É sobre isso que vamos falar, sem spoiler, aqui.

Sinopse

Belmont e Sypha chegam em um vilarejo com segredos sinistros. Alucard aconselha um grupo de admiradores, enquanto Isaac embarca em uma missão para localizar Hector.

O trágico Alucard

Essa terceira temporada é dividida em núcleos/arcos narrativos muito claros e distintos. Vamos começar pelo menos interessante, Alucard.

No fim a temporada anterior temos Alucard colocado como guardião do castelo de seu pai e do arsenal dos Belmont. Aqui temos o personagem extremamente melancólico e solitário,  tão isolado a ponto de flertar com a insanidade, vide as versões homemade de Trevor e Sypha que o fazem companhia. 

Taka e Sumi são uma das melhores expanções desse mundo.


Nesse contexto de solidão ele conhece os caçadores de vampiro, Taka e Sumi, vindos do Japão, com intuito de aprender ainda mais sobre matar sugadores de sangue. E diga-se de passagem, eles foram pro lugar certo. Alucard finalmente não está mais só, e agora tem propósito de instruir esses jovens.

Alucard naturalmente já é bem trágico. Mãe assassinada pela inquisição, pai diabo na terra, personificação do mal. Solidão, não lugar no mundo. Em essência esse é Alucard. Mas aqui eles levam isso à um nível acima, pois ele havia feito amizade com humanos, recebeu algo bom. Era um laço não só pessoal com Trevor e Sypha, mas de forma simbólica um elo catártico com a humanidade. E aqui isso é destruído. A impressão que nos dá esse arco narrativo é de que está se construindo um possível vilão. Alucard finda essa temporada com uma visão de mundo, e percepção de humanidade, bem mais próxima da de seu pai, do que a de sua mãe, que o guiou até aquele ponto de ruptura.  

As aventuras de Trevor e Sypha no vilarejo bizarro

A dinâmica entre esses dois é hilária

Temos aqui um arco razoavelmente divertido. Trevor e Sypha agora são assumidamente um casal, bem namoradinhos mesmo, e é uma dinâmica bem legal., Isso é muito bom e engraçado. Eles estão vagando meio errantes pela Valáquia, e acabam chegando em um clássico vilarejo medievo, meia dúzia de casas e  uma igreja. Nessa linha narrativa temos algumas cenas de ação, lutas bem legais. Sypha tá muito poderosa aqui, quando elas usa os poderes é sempre bem performático e impressionante. Mas o que move a narrativa do vilarejo é alguma coisa bem misteriosa/sinistra que monges cristãos estão fazendo no interior da igreja. E como sabemos, aqui nessa série, o grande vilão da história não é nem Drácula, mas sim o cristianismo/igreja católica. Então já temos o que esperar.

The Judge é, possivelmente, o personagem mais incognito dessa temporada.


Ainda sobre esse arco do vilarejo, vale destacar dois personagens. Primeiro The Judge, que é a autoridade máxima do local, uma espécie de administrador, brilhantemente interpretado pelo Jason Isaac (que você provavelmente conhece como Lúcio Malfoy por Harry Potter). É um personagem que tem uma dualidade muito grande, porque parece um vilão, mas a fala dele é muito doce, ponderada e benevolente. Ele chega a ser acolhedor, mas a forma como o personagem olha  pessoas e reage às coisas é bem bizarra. O segundo personagem muito bom que nos é introduzido aqui é o Conde Saint Germain, interpretado pelo maravilhoso Bill Nighy. Esse é um personagem oriundo dos jogos, então já se sabia que ele seria um viajante do tempo. Aqui ele aparentemente é um mago, e está buscando algo que lhe permita encontrar sua amada que se perdeu em um túnel temporal. Saint Germain é um cara muito querido, e a introdução de viagem no tempo abre muitas possibilidades nesse universo série. 

Hector e a grande conspiração das irmãs vampiras

Maior potencial narrativo para o futuro da série está nesse arco riquissimo.

No fim da segunda temporada temos o plano de Carmilla fracassado, suas tropas acabam derrotadas e ela foge levando Hector consigo. O que não imaginamos é que existe todo um universo muito particular por traz dessa personagem. Somos levado a seu reino, onde governa com outras três vampiras. O grupo se trata como irmãs, mas de fato não o são. Lenor, Morana e Striga são personagens muito interessantes e encantadoras. Cada uma tem uma personalidade muito marcante e complexa, existe muita coisa em cada uma delas. Queremos saber mais sobre essas personagens, suas origens, como se conheceram. Esse arco é extremamente instigante. Sabemos que está acontecendo algo, cada uma delas está agindo para que algo grande aconteça. Única coisa que me incomoda é Hector. O personagem é ruim. Acredito que escreveram ele dessas forma justamente para que o odiemos, não existe outra explicação. Sobre esse núcleo não há muito o que comentar, é muito bom e só vendo pra se deleitar com as conspirações desse grupo de mulheres incríveis. 

A jornada de retorno de Isaac é a melhor coisa da série

Nessa temporada tudo que envolve esse personagem é simplesmenrte fantástico. Só amor por esse homem e seus monstrinhos.

Na segunda temporada fomos apresentados a esse ex-escravo que perdeu a fé na humanidade e se tornou braço direito de Drácula. Na temporada anterior Isaac, foi um bom coadjuvante, personagem inteligente e que cumpria ótima função narrativa. Agora ele é simplesmente o melhor personagem da série, sem contestação. Os escritores dessa temporada estão de parabéns pelo que fizeram com ele. Após ser salvo por Drácula, jogado por um portal o livrando do combate, Isaac entra em uma jornada de regresso a Valáquia. Aparentemente o que move o personagem nesse momento é o sentimento de vingança, por acreditar que seu antigo mestre e amigo foi assassinado por Carmilla, tendo sido auxiliada por Hector. Então ele está montando um exército.

Finalmente uma cena de ação que faz frente a batalha no Arsenal Belmont da primeira temporada.

Esse arco narrativo que acompanha o regresso de Isaac tem ótimas cenas de ação, em especial a melhor cena de ação dessa temporada, onde ele enfrenta um mago que manipula o corpo de milhares de pessoas. Mas o grande destaque aqui é a dimensão filosófica e contemplativa que o texto carrega em torno desse personagem. Isaac está redescobrindo uma nuance de beleza e bondade nas pessoas, ele se dispõe a ouvi-las, e é nesse ato passivo e receptivo de ouvir que somos brindados com os melhores diálogos da série. Cada pessoa que ele conhece, lhe ensina algo diferente, e nós aprendemos junto com ele, ou no mínimo somos instigados. Em termos de texto, vale destacar o diálogo no deserto com um  de seus “soldados”, criatura revivida do inferno, que traz ótimas reflexões sobre valor da vida, a simplicidade das coisas, intolerância, preconceito, solidão, arrependimento… É realmente maravilhoso, profundo e encantador. 

Por fim

A terceira temporada de Castlevania é tão boa quanto as anteriores. O universo se expande aqui, temos muitos vislumbres do além Valáquia e isso é muito bom. Além disso temos aqui uma dimensão filosófica que até então era bem rasa, maniqueísta, e agora é complexa e profunda. Em termos de narrativa essa temporada parece muito com um jogo de estratégia, um tabuleiro onde as peças têm de ser posicionadas com inteligência. Elas de fato foram posicionadas, aparentemente essa é uma temporada de preparação. E temos a sensação de que algo maior está por vir. Aguardaremos ansiosos. 

Castlevia está disponível na Netflix.

Falando de algum lugar no universo - Natiel Silveira

Gaúcho, cozinheiro e ciclista. Dois amores na vida, Chelsea FC e Cinema.

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