E ai rapaziada, como é que tão? Só no coronga? E esse Coronavírus aí?
Bom, vamos deixar a brincadeira de lado. O período é muito sério: no momento da escrita desse texto (01:50 de 23/03/2020), são 336.004 casos de Coronavírus, com 14.641 mortes, e 98.334 recuperações. São números alarmantes, e com poucas novidades boas. A primeira delas, é que diversos serviços de Streaming, de jogos, livrarias e de cursos online estão disponibilizando parte dos seus acervos de graça, ou a baixo custo, para estimular as pessoas a não saírem de casa. A segunda, essa sim animadora, é que a China conseguiu reduzir o número de casos a quase zero. Mas isso após 3 meses de contágio, e aproximadamente 2 de isolamento individual completo. No Brasil, está só começando. Nosso primeiro caso foi apenas agora em Março e, por mais que o chefe do executivo continue insistindo que a pandemia não é nada demais, os estados começaram a tomar atitudes, e campanhas com origem popular já estão na boca do povo: lavem as mãos, não toquem nos rostos, fiquem em casa.
Quem acompanha o mundo do cinema, viu essa “onda” chegar mais cedo. 007 – Um Novo Dia Para Morrer foi um dos primeiros a serem adiados em decorrência do Coronavírus. No momento, ainda soava alarmista e exagerado. Podemos inclusive ver um motivo mais pragmático para o seu adiamento: se a China estava em lockdown, o filme perderia um dos seus maiores mercados, o que faria mal para o bolso dos estúdios. É claro, a retórica sempre foi: pensamos nos nossos espectadores, e eles devem evitar aglomerações. No final das contas, se provou um fato. O Sars-CoV-2 ignora vontade humanas, ele contagia quem estiver pela frente. Prezar pela vida se tornou prioridade em diversos lugares, inclusive para grandes empresas, que nunca parecem ligar muito para isso.
Nem sempre é verdade, é claro. Se por um lado, empresas como a Globo suspende a produção, e estúdios e parques de Hollywood suspendem suas produções para a contingência da pandemia, são comuns os relatos de empresas que pedem que os funcionários continuem trabalhando presencialmente. Note que estamos falando de indivíduos que têm a possibilidade de trabalhar de casa. Também, não estamos mencionando pessoas que trabalham em serviços essenciais. Mas sim, daqueles cuja presença física é dispensável, e ainda assim seus empregadores insistem na retórica velha de que as pessoas precisam comparecer ao trabalho, independente da situação.
Em alguns momentos, isso sequer é possível. Cinemas, teatros e shopping centers foram fechados por todo o país, de modo a conter a contaminação por aglomerações e, é claro, essas empresas terão prejuízos. Não era um prejuízo esperado, pois ninguém imagina que, dentro de um mês, o mundo entre numa pandemia. Mas ainda assim, não se espera que medidas cruéis sejam tomadas como o que o Cinemark do Rio tomou: Demissões voluntárias, ou redução do salário somado à treinamento. Nós, do Maratona, repudiamos tal atitude, e explicamos: Trabalhadores no Brasil já são, em sua maioria, desvalorizados. O salário mínimo atual é de 1039 reais, quando estimativas do DIEESI apontam que deveria ser de R$ 4.342,57. De 80% a 90% da população recebe menos de 5000 reais mensais, e quase metade até aprox. 1000 reais. Nesse panorama, e entendendo que, nos meses que se seguirão, esse trabalhadores não poderão exercer suas funções, retirar o pagamento destes é uma atitude horrenda. Pois, obviamente, essas pessoas continuam tendo suas necessidades: comer, alimentar os filhos, cuidar de parentes, pagar contas da casa. Sem sua fonte de renda, como isso será feito? Se não morrerem em decorrência do coronavírus, nem tiverem uma boa rede social de proteção (parentes, amigos) que lhe suportem, o destino desses indivíduos será, também, drástico.
É claro, temos que pesar que as empresas também passarão por momentos muito sérios. Uma rede de cinemas, que precisa diretamente do público pagante frequentando seu espaço para se manter, terá prejuízos graves. Não perdemos isso de perspectiva. Porém, uma empresa de tal porte, e com tais rendimentos, é capaz de sustentar salário de seus funcionários por alguns meses, mesmo de portas fechadas. Podemos imaginar alguma críticas a essa posição. A primeira, claro, de que uma decisão como essa seria um corte pesado para a empresa. De fato, será. Porém, uma empresa não é NADA sem seus funcionários. Não faz sentido não tomar conta deles. A empresa, como instituição, sobreviverá a esse período novo e estranho que estamos vivendo. Pessoas não são tão resilientes. Outra crítica seria ao fato de que nem toda empresa tem capacidade de ter tantos gastos sem ter entrada de capital. Igualmente correto. Porém, não estamos falando de empresas pequenas, aqui. O Cinemark é uma rede internacional de cinemas. Sabemos que a realidade do nosso país é muito agressiva aos negócios, principalmente contra os pequenos, e os novatos. Mais, que manter empresas saudáveis e funcionando fará com que a recuperação social pós Coronavírus seja muito mais rápida. Mas não será vitimando o lado mais fraco dessa corda, os trabalhadores, que a situação será resolvida. Deve-se olhar, e estender a mão, para outro lado.
Cabe aos governos, nesse momento, dar auxílio aos indivíduos e às instituições. Provendo uma renda que sustente as pessoas, reforçando o sistema de saúde, bloqueando contas, congelando preços, segurando as pontas de indústrias. Não, não estamos falando de ditaduras comunistas: países como a França e Coréia do Sul estão sendo muito firmes no combate à propagação do Coronavírus, bem como no auxílio popular. Esse não é o momento de pensar em grandes rendimentos. Esse é, isso sim, o momento de se endividar, para salvar vidas.
Mais: Se ater a um plano (neo) liberal de pensar mais no bem estar da economia do que na população, com medidas ineficazes, é criminoso. Mais: Tentar minimizar os efeitos de tal contaminação, tendo exemplos muito claros ao redor do mundo (China, Coreia, Alemanha, e principalmente Itália), inclusive tentando reduzir medidas de contingência é, igualmente, criminoso. Ver que somos liderados, tanto a nível de política representativa, quanto numa visão realpolitik (de que grandes lobbies controlam a federação), por pessoas que não se importam com a população de forma consistente, é assustador.
Vou um pouco mais além: vivemos num país de desigualdades e contradições. Temos diversos casos de descaso, que podemos enumerar (sabendo que tal lista será incompleta): saneamento básico, educação de qualidade, saúde pública, sistema de transportes, polarização do país no eixo Rio – São Paulo, distribuição de renda na população, dentre muitas outras coisas. Tudo isso, se mais bem preparado e melhor distribuído, nos ajudaria, e muito, a combater a pandemia. A conta desse descaso acabou de chegar nas nossas portas.
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