Druk foi o vencedor da categoria filme estrangeiro do Oscar 2021
Há que se dizer que filmes em que a bebida tem uma papel central não são novidade no cinema. Até mesmo o cinema hollywoodiano (aquele que conhecemos melhor até que o nosso) tem lá sua dose de álcool enquanto tema principal. Eu diria que o exemplo mais famoso é “Se beber não case”(The Hangover, 2009), que é um filme que eu tenho lá minhas reservas, mas não deixa de ser uma referência forte para o padrão sobre adultos que bebem. E em geral, mesmo quando os filmes trazem uma pequena vírgula de crítica, em geral são filmes de comédia regados a euforia, e todas as fantasias de sucesso que o álcool vende. Com esse preâmbulo quero dizer que Druk parece flertar com essa ideia de álcool como elixir mágico, e especialmente em seu início parece que quer conduzir o espectador a esse mesmo lugar, mas é um pouco verossímil demais para sustentar essa euforia até o final.
UMA BREVE SINOPSE

O roteiro de Thomas Vinterberg & Tobias Lindholm trata de Martin (Mads Mikkelsen) um professor de história que está desolado. Sua vida parece sem sentido. Oca. Os alunos não o respeitam. Ele mesmo parece desligado. Sua vida em casa não está bem. Sua esposa e seus filhos o evitam. No aniversário de um de seus 3 melhores amigos, todos professores da mesma escola: educação física (Tommy, Thomas Bo Larsen), música (Peter, Lars Ranthe), filosofia (Nikolaj, Magnus Millang); se encontram em um restaurante e ele desaba emocionalmente. Isso marca o início da ideia, trazida por Nikolaj, de que um filósofo Norueguês havia teorizado que é necessário manter um nível alcoólico de 0,05% no sangue para uma melhor performance em todos os sentidos (mental, profissional, social, etc). [Antes de continuar é importante dizer que eu acho que há um erro de tradução e que a porcentagem desejada era de 0,5%, voltamos a nossa programação]. Eles riem nessa noite. Todos parecem bem. No dia seguinte Martin põe à prova essa teoria, e pouco tempo depois todos os quatro se juntam nessa experiência nem um pouco científica!
UMA COMÉDIA? UM DRAMA? UMA PROPAGANDA? DE QUÊ?
Retomo um pouco a discussão levantada na introdução para dizer que até um pouco mais da metade do filme, o humor parece estar um pouco mais à frente. Temos a euforia trazida pela inclusão do mais novo remédio para os problemas dos personagens. Aqui o álcool é o elixir mágico que resolve tudo. Todos os problemas que aparecem em maior ou menor grau, e até mesmo problemas que não existiam até aqui (mas que você poderia supor que existiam) são resolvidos com algumas doses da fórmula mágica. Até mesmo quando os personagens parecem ter ido além da dose, o tratamento ainda parece ser positivo, ou cômico. A questão é que, da mesma forma que acontece na vida, a solução rápida e mágica é uma solução ruim. Eventualmente é preciso enfrentar as consequências disso.

OS PONTOS FORTES
Antes de tratar do que eu achei problemático em Druk, eu queria aproveitar para destacar o que eu gostei no filme. Existem 3 aspectos que eu acho que foram bastante notáveis durante o filme inteiro.
A BUSCA PELO REALISMO
O primeiro é algo que eu já sugeri, que é o fato de parecer muito real. Os personagens não parecem viver apenas em função da história do que acontece no filme. Eles têm vidas, interesses, ambições, enfim, de fato parecem ter suas próprias preocupações. Esse universo parece muito factível, muito embora eu jamais tenha passado perto de uma cidade Dinamarquesa. Pontos para o diretor Thomas Vinterberg.
Não apenas isso, mas as atuações são realmente muito convincentes. Os personagens quando inebriados conseguem transmitir muito bem as dificuldades de coordenação, o linguajar, as atitudes. Tanto os aspectos positivos quanto os mais vergonhosos da bebida aparecem em muitos detalhes e camadas no decorrer do filme.
UM PASSEIO POR UMA PEQUENA CIDADE DINAMARQUESA
O aspecto visual será um pouco mais complicado, e aqui eu preciso fazer uma ressalva uma vez que naturalmente assisti Druk em casa (Pois é, lembra que o Corona matou o cinema? No Brasil por mais tempo inclusive). Ainda assim existe uma certa riqueza de locações nessa pequena cidade portuária, incluindo cenas externas na cidade, nos bares, nas casas dos professores, na escola. Uma das locações principais é um lago que inclusive é palco da cena de abertura do filme. Explora-se muito bem essas paisagens, dando um ar de naturalidade para o espectador, ainda que este seja um soteropolitano que nunca saiu do país.
Mesmo uma geografia bastante estranha a um soteropolitano com pouca experiência fora do Brasil, um lugar muito bonito e foi muito bem explorado pelo filme.
ESSE SOM VEIO DE ONDE?

Por fim, algo que me marcou em Druk inteiro foi o fato de quase 99% da trilha do filme se passar digeticamente. Se você não conhece o termo, eu explico: é usado para dizer quando algo faz parte do contexto do universo ficcional ao qual está relacionado. Então, por exemplo, quando alguém liga um som e a música sai do som é a que ouvimos enquanto audiência, som diegético. Sons extra-diegéticos (que não fazem parte do contexto da cena) são muito comuns no cinema, e via de regra ajudam a intensificar as sensações que se desejam provocar com as cenas. Pouquíssimas vezes em Druk se escuta um som extra-diegeticamente, e normalmente em pouco tempo esse som é revelado na cena seguinte de maneira diegética (isso é usado em uma cena com o coro do professor de música, em que se escuta a música do coro antes de introduzir a cena em que esse coro está cantando). Parece um pequeno detalhe, mas é uma forma muito marcante de pesar os aspectos realistas do filme, dando uma nova camada de peso para essa pequena cidade muito bem explorada na passagem do filme.
BEBIDAS, CIÊNCIA E PROBLEMAS
Agora que cantamos os louros devidos a Druk, podemos nos concentrar em algumas questões que eu acho importante chamar a atenção. E sem falsos moralismos.
Parte 01: Bebida enquanto solução

Bebida é excelente, mas também deve ser usada com responsabilidade. Dessa forma, a ideia de que se deve usar a bebida (ou qualquer outra coisa diga-se de passagem) como uma solução rápida para os problemas que qualquer um tem é uma mensagem perigosa. E digo que o filme apresenta algumas consequências, e umas mais pesadas para uns do que para outros. Talvez isso também seja um aspecto realista já que nem todo mundo sofre igual pelas m*rdas que faz. Mas eu acredito que o dever de uma mídia é sempre o de conscientizar. Sugerir, e sustentar em uma boa porção do filme, que a bebida vai DE FATO melhorar alguns aspectos de sua vida é uma ilusão que não precisa de nenhuma ajuda do cinema.
Por fim, não recomendo a ideia de que menores devem beber em hipótese alguma. Sim, isso acontece no filme. Me chamem de careta, mas definitivamente não é algo que eu acho que influencia positivamente um adolescente. Ninguém vai deixar de viver porque evitou a bebida até a maioridade. Existem outras formas de combater o nervosismo, a inibição, a desatenção, ou qualquer problema. Mais uma vez, o álcool não é um elixir mágico.
Parte 02: A (falta de) ciência

Outro incômodo é a forma como se passa uma ideia de ciência completamente equivocada. A maneira como se estabelece o que deveria ser um estudo científico é completamente errada. E os personagens são TODOS professores. E o suposto estudo que eles iniciam não faz sentido nenhum. Nenhum. Chega a ser uma piada de mal gosto sobre como se procede um estudo. Fomenta, mais uma vez, uma ideia muito forte no imaginário popular de que experimentos e ciência se faz de qualquer jeito. Especialmente quando se trata de ciências humanas. E esse desserviço, no ano 2 dessa pandemia, eu preferia não ter que ver.
FECHA A CONTA E PASSA A RÉGUA

Mesmo com as ressalvas feitas, eu acho que o filme foi uma experiência positiva para mim. Mesmo pesando as críticas (e não tive poucas), há uma discussão mais aprofundada da bebida nesse filme do que nos filmes americanos mais comuns que sugeri no início desse texto. Gosto do tratamento um pouco mais humano que os personagens têm, em comparação às caricaturas exageradas que são personagens de comédia escrachada. E para coroar tem uma cena incrível do Mads Mikkelsen dançando, e isso definitivamente pagou o filme. Se você curte um filme que puxa pro lado mais realista, tem interesse no cinema europeu, ou gostaria de ver o Mads Mikkelsen dançando Jazz Ballet, então melhor aproveitar para assistir Druk. O filme estreia nos cinemas de cidades que estiverem abertas, no dia 25 de março – e entra no streaming: NOW, Vivo Play, Sky Play, iTunes/Apple TV, Google Play e YouTube, dia 16 de abril.