Leila

Leila

Publicação da editora mineira Abacatte, Leila, de Tino Freitas (texto) e Thais Beltrame (arte), foi uma das mais difíceis e sensíveis leituras que já fiz ao longo desses anos. 

A história de Leila (que dá nome ao título do livro) é um retrato de uma vivência comum relatada diariamente por muitas mulheres, a do assédio, que amparada numa sociedade machista, procura silenciar suas vozes.

Leila

É uma baleia, leve, livre, confiante de si e apaixonada por seus cabelos pretos longos. Certo dia, como parece fazer corriqueiramente, ela decide ir nadar e encontrar seus amigos, mas algo de errado acontece. 

E lá vai ela nadar por aí…

No meio do caminho, Leila se depara com seu vizinho, o polvo, chamado Barão, que se aproxima dela de maneira estranha, com falas ainda mais estranhas, que a envolvem num verdadeiro momento de pavor e impotência diante de seus asquerosos tentáculos.

Impossível não se enojar com esse polvo desgraçado.

Leila ainda não entendia completamente naquele instante, apesar do medo que sentia, mas havia sido vítima de um assédio…

A trajetória até Leila 

A história de Leila chegou até mim, numa pilha de livros doados por uma simpática vizinha, que seriam originalmente comercializados em escolas da cidade, não fosse pelo cenário pandêmico. 

Outro detalhe curioso é que quem, de fato, se interessou num primeiro momento por Leila foi a Camila (a minha esposa), que generosamente me convidou para conhecer o livro com ela, numa leitura compartilhada. Ao final da leitura, estávamos os dois completamente sensibilizados por Leila e pelo que ela havia passado. 

O ódio que passamos a ter do Barão (e de seus comparsas no mundo real) ainda é latente, mas nos conforta saber que o maldito invertebrado foi colocado em seu devido lugar por ninguém menos do que a própria Leila!

Um mergulho difícil, porém recompensador

Seria a maneira mais justa, na minha opinião, de descrever a experiência de ler Leila, uma obra direcionada ao público infantil, que só reforça o cuidado e o olhar mais atento que devemos ter para com a literatura infantil no sentido de não menosprezá-la se comparada com outras. 

Os autores experimentam não só na prosa e na arte, o projeto gráfico do livro também é incrível.

A maneira com a qual Tino Freitas lida com a questão do assédio, um tema tão delicado, através da personagem Leila, até parece uma fábula moderna, com lições importantes e abertas para muitas reflexões, mas sem soar didático ou forçado. A mensagem é poderosa, bem como o mergulho, e se em parte do livro nos sentimos sufocados, em outra nos dirigimos à superfície e respiramos livres novamente.  

As ilustrações da artista Thais Beltrame desenhadas em nanquim aguado e aquarela, carregam o peso e a leveza necessária a cada momento ímpar da narrativa. O traço realista dos seres marinhos traz a seriedade necessária para tratar do tema e os seus ecos constantes na realidade das mulheres.

De volta à superfície 

Como havia dito anteriormente, antes de Leila chegar até mim, ela tinha outro destino, que era a escola. No próprio site da editora Abacatte, inclusive, é possível encontrar uma série de atividades sugeridas para professores e professoras utilizarem em sala de aula, a fim de fomentar um debate em torno das questões abordadas no livro ou que estão relacionadas, como a violência contra mulher, o feminicídio, a luta do movimento feminista, dentre outros.

O coração aperta e o ódio por esse polvo maldito só cresce…

Num país como o Brasil, em que os casos de agressão e assédio contra mulheres chegam a números exorbitantes, é urgente a necessidade de mudança e conscientização sobre essa situação. De acordo com uma matéria publicada pela BBC Brasil, em 2019, cerca de 22 milhões de brasileiras afirmam ter sido assediadas, num período de 12 meses. Essa realidade é tão “comum”, que não é difícil ouvir relatos de assédios sofridos por mulheres próximas do nosso convívio social no trabalho, no transporte público, na rua e, até mesmo, dentro de casa… E, não vamos nos esquecer das redes sociais e jogos online, não é mesmo? 

Por essa razão, acredito que leituras como as de Leila, mediadas no espaço da escola, e por quê não fora deste espaço também (meu exemplo) são muito importantes para elevar o debate em torno do assédio e temas relacionados. O silêncio nessa batalha travada diariamente por mulheres do mundo todo, é a maior  arma do inimigo e precisamos todos ciente disso fazer barulho, gerar incômodo e fazer mergulhos cada vez mais profundos e significativos na busca por mudanças. 

O retorno à superfície, fica a dica, é para todos aqueles que se permitirem, acompanhar Leila, de um delicado momento de sua vida, até o seu grande momento de virada.

Falando de algum lugar no universo - Pedro Corujeira

Salvo mundos fantásticos da iminente destruição desde os anos 90 e sigo nessa vida até hoje. Nos intervalos entre uma batalha e outra, escrevo para o Maratona de Sofá sobre joguinhos, filmes, desenhos, gibis e o que mais der na telha.

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