Olha, só digo uma coisa: nunca mais usar um corretor ortográfico vai ser uma coisa tranquila. Segredos Oficiais (Official Secrets, 2019), baseado no livro “The Spy Who Tried to Stop a War: Katharine Gun and the Secret Plot to Sanction the Iraq Invasion”.

SINOPSE
Katherine Gun (Keira Knightley) é uma agente que trabalha com… inteligência… na Government Communications Headquarters (GCHQ) do Reino Unido. Lá, ela descobre uma operação ilegal envolvendo não só a terra da rainha, como a NSA americana. Ela decide então vazar essa informação. E o resto é história.

HISTÓRIA
Tem alguns filmes que te impressionam pela fotografia, corte, trilha sonora. Já outros, a história é tão envolvente e presente, que todo o resto fica em segundo plano. O importante, agora, é ver a narrativa se desenrolar. Segredos Oficiais tem um ponto a mais nisso: é baseado em fatos reais. Muito reais, e muito presentes. Na verdade, nem é tão longe no tempo, tem 15 anos. É muito pouco.
No episódio que gravamos sobre nostalgia (em breve no feed) comentamos sobre onde estávamos no 11/09/2001 (eu tinha 10 anos). A guerra do Iraque vem logo após a guerra do Afeganistão, e é muito menos coerente do que esta (a guerra do iraque começa em 2003 – eu tinha 12). Ainda me lembro o circo midiático que foi, com a maior empresa televisiva do brasil fazendo chamadas especiais, tinha até um mapa holográfico no meio do jornal da noite, onde o apresentador mostrava os esquemas de batalha (Nada contra a equipe de gráficos do canal, tenho até amigos que são). Não tem como esquecer a sensação de que, ao mesmo tempo era muito concreto, e muito esquisito… Umas acusações de coisas que ninguém provou que existia, umas ameaças que não eram comprovadas. E nem era necessário muito conhecimento em história para perceber essas coisas.
Segredos Oficiais vem contar uma parte da história que eu não conhecia. A de que tentaram impedir essa guerra por meios legais, e fracassaram miseravelmente. Iraque IRIA acontecer, com aprovação da ONU ou não.

ATUAÇÕES
Keira interpreta Katherine, a corajosa ex-funcionária que não conseguiu simplesmente ignorar o fato de sua agência ser conivente com interesses ilegais do governo Bush. não acompanhamos apenas o seu ponto de vista, como também o de Martin Bright (Matt Smith),o repórter que publicou a matéria revelando o e-mail vazado. Dentre sua equipe, seu chefe Roger certamente lhe chamará atenção. É interpretado por Conleth Hill, o (já) eterno Lord Varys. Ralph Fiennes interpreta Ben Emmerson, advogado que aceita pegar o caso impossível de Katherine. Por fim, temos também Yasar Gun (Adam Bakri), marido de Katherine, que tem a peculiaridade de ser um imigrante curdo.
FOCO
Pela sinopse, pode parecer que Segredos Oficiais é sobre o tal vazamento. Mas não. É sobre como o estado burguês é capaz de perseguir e tentar destruir a vida de um dos seus cidadãos das piores formas possíveis. E se não for capaz de atingi-lo diretamente, vai atrás de um dos seus. E por sorte, ela não era uma pessoa não-branca vivendo no Brasil…
CONCLUINDO
Gente, tem pouco a ser dito sobre aspectos técnicos. Está tudo dentro de um alto padrão de qualidade. O que interessa em Segredos Oficiais é ter acesso a uma história que não é muito popular, e que PROVA (ou chega muito perto) como os Estados Unidos não tem pudor ao se lançar em guerras ilegais para interesses escusos próprios. Quem tem interesse por história contemporânea, não pode deixar de ver. (E Ouçam o Xadrez Verbal, e o Pod Explica América).

SÓ UMA COISA
Já ia me esquecendo: Segredos Oficiais mostra a diferença que faz uma pessoa inteligente, preparada, e ciente dos seus objetivos e ideais, quando se põe numa luta contra um inimigo muito maior. Então, amigos militantes, a dica: estudem. Se preparem. Tenham a cabeça no lugar. Fiquem atentos.
MOMENTO P.S. (Pode Spoiler)

VAZA-JATOS OFICIAIS
Quando se trata de vazamento de informações, não tem como não lembrar das divulgações feitas pelo The Intercept Brasil, popularmente conhecida como Vaza Jato, a cerca da famosa operação Lava Jato. Esta que prometia ser um grande inimigo da corrupção mas, a história nos mostrou, era mais uma forma de atender a interesses pessoais, e antipetismo.
A comparação é muito justa, mas precisamos nos lembrar que Segredos Oficiais não tem, como protagonista, os jornalistas, e sim sua fonte. Notem que, em nenhum momento da película, cogitam processar ou denunciar o The Guardian ou os seus repórteres. Fizeram campanhas de desinformação, perseguições, buscas, mas contra Katherine, contra a fonte. O que nos leva à fala de Ed Vulliamy (Rhys Ifans), “Esse jornal tem que parar de ser relações públicas do governo”. Defender pautas que não agridem as estruturas, apenas para manter boas relações, não é o papel da imprensa. Ao menos, não deveria ser. Quando vemos grandes produtoras de mídia escondendo as denúncias, ou tentando defender os envolvidos, podemos perceber que tem algo de muito errado sobre como notícias estão sendo produzidas no brasil.

MAS E O PT, HEIN?
Claro, se vc ouviu falar de vazamento de informações, sendo citado de maneira positiva, e você é contra o governo eleito anterior, certamente você se lembrou de quando as gravações de diálogos entre Lula e Dilma aconteceram. Na sua cabeça, são situações semelhantes, mas não são, e eu explico:
Em Segredos Oficiais, Katherine Gun tem acesso a informação e, pela própria vontade, decide pegar uma informação (um email) apenas, e tenta divulgá-lo.
No Brasil, uma escuta solicitada por um juiz foi feita, que tinha prazo de duração, e esse prazo foi ignorado. Ao final, os áudios foram divulgadas informações contendo não só “interesse público”, como também dados pessoais.
É completamente diferente. Eu poderia concordar que são a mesma narrativa SE, um agente a ABIN (ou correlato) tivesse recebido um e-mail sobre a tentativa de Dilma de dar um ministério ao Lula, e ele entrasse em contato com algum jornal para divulgar essa informação. Não foi o que aconteceu. Segredos Oficiais tem muito pouco a ver com o vazamento de Dilma/Lula, e muito mais com as matérias do The Intercept.