Verão – Como se fala “Punk Rock” em russo?

Verão – Como se fala “Punk Rock” em russo?

Às vezes as chamadas de divulgação nos pegam de surpresa. Tipo, como assim um filme sobre uma banda de punk rock russa? Hoje a cabine foi sobre Verão (Leto, 2018).

SINOPSE

Em Leningrado, década de 1980, o rock e o punk floresciam, com a influência das bandas britânicas e americanas superando a guerra fria. Nesse ínterim, o jovem Viktor (Teo Yoo) conhece Mayk (Roman Bilyk), seu ídolo que se torna seu mentor.

Viktor e companheiro de banda, com violões em riste, esperando para se apresentar. Estão parados em frente a uma parede de concreto
“Cê tá nervoso?” “Não, imagina…”

CONTEXTO

Dava pra falar mais na sinopse, mas vou comentando por aqui. Esse filme tem muitos aspectos a se abordar. Porém, o que mais me causou choque foi:

Como assim punk rock na Rússia?

E é louco pensar nisso, mas de certa forma, porque não? Se você pensar no punk como uma reação a um sistema (e uma geração anterior) opressor e sufocante, faz todo sentido que o Punk apareça com força por lá no final do Regime Soviético. O problema, claro, está na Guerra Fria ainda em vigor. Tudo o que vinha do lado de cá (a música inclusive) era visto como comportamento do inimigo. Porém, já vinha ocorrendo uma abertura gradativa para essas influências culturais e, mesmo quando não dava certo por aí, o mercado paralelo de cultura já rolava [1].

JUVENTUDE

Mas jovens o são em qualquer lugar, e a galera na Rússia também queria encontrar os amigos sem problemas, encher a cara, puxar um, e curtir um som. Talvez seja esse o aspecto mais interessante de Verão. Retratar como eram os hábitos da época, as roupas, as modas, os comportamentos. Porque, pare pra pensar: a gente só conhece a juventude dos países anglófonos, EUA e Inglaterra. Pare pra pensar um pouco mais: POR QUE a gente sabe disso? Digo, as pessoas só deveriam conhecer a juventude do próprio país. Por que conhecemos as deles? E, já que é assim, porque não de outros lugares, também? Como foi a década de 80 no Japão, no Marrocos, ou na Índia? Esse filme nos dá um pouco desse período russo.

“É preciso amaaaAAArr…”

MÚSICAS

Não só isso. As músicas que os personagens usam como referência, tanto para ouvir entre si como de inspiração para compor, são fantásticas. Se você curte The Doors, Sex Pistols, Beatles, e (muito) T-Rex, vai adorar esse filme. E ver canções nesse mesmíssimo estilo, sem tirar nem pôr, mas numa língua completamente “estranha” é uma viagem muito interessante.

RELAÇÕES

O filme é baseado na história real do surgimento da banda Kino, que pode ser desconhecida por aqui mas é lendária no leste europeu. Ele mostra a forma como seus integrantes originais conheceram Myke, o ídolo que se torna mentor. Como perdem um membro para o exército. O que usam para compor. E, principalmente, como Natalia – ou seria Natasha (Irina Starshenbaum) – esposa de Myke, começa a se interessar por Viktor. Verão, inclusive, é baseado no livro em que ela conta as memória desse período.

TECNICIDADES

Toda a dinâmica é muito rica, e muito bela. Verão lembra muito os estilos europeus de direção. Todo ele é filmado em preto e branco, trazendo cores apenas em memórias, gravações, e… em momentos de que falo já já. É muito uma brincadeira do Real ser em P/B, e o Imaginário ter cores. Também, os cenários são muito ricos, e bem ambientados com o período histórico.

FANTASIA

Talvez a parte mais interessante de Verão seja quando o Cético aparece. É um personagem que… revela coisas, digamos assim. E sempre acompanhado de momentos musicais, com figurantes interagindo com canções, e intervenções desenhadas na cena, a la Scott Pilgrim (só que mais “feito a mão”). É quando se permite que as cores apareçam, inclusive. São momentos explosivos de pura sutileza. E que podem confundir bastante.

E essa é a intenção (imagino).

Como assim “Nada disso aconteceu”, criatura????

CONCLUSÃO

Essa viagem no tempo e no espaço foi, talvez muito longa, mas ainda assim, encantadora. Verão é um filme para poucos, mas ainda assim, fica a recomendação. Se deixe levar por esse Verão russo de 1980.

MINI-CAST

Quase esquecia, mas teve sim! Ouça clicando aqui.

[1] Eu tive que estudar um pouco antes de escrever, não vou mentir. Não deu tempo de fazer uma busca aprofundada, mas dois textos que li foram Fim da URSS e a Crise Russa e Como era a vida na União Soviética?

Falando de algum lugar no universo - Fernando Medeiros

Graduado em Ciência da Computação, pai de dois cachorros, sommelier de memes. Criador do (então) falecido Cinenerd.

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