Para os que desconhecem, a família Addams é uma franquia que data de 1938, quando começou como tirinha de jornal (de quadro único) e por anos recebeu diversas adaptações como série de TV, no cinema e também animações. Diferentemente dos Estados Unidos que tiveram uma relação mais íntima com a gênese dessa franquia, aqui no Brasil fomos apresentados (ou pelo menos EU fui) pelos filmes produzidos na década de 90, sendo o primeiro maravilhoso título de 1991, com Raul Julia interpretando Gomez e a voz do Marcio Seixas que eu jamais esquecerei de tão maravilhosa, e o brilhante Cristopher Lloyd como Fester Addams. E munido dessa carga afetiva fui animado para descobrir o que a animação poderia propor de novo, além do que seria capaz de evocar dessa memória. Então vamos ao que rolou.

Nota de esclarecimento
Por conta de um erro de comunicação com a agência que cuida dessas sessões não foi possível assistir o filme do início. Dessa forma as impressões aqui registradas se referem ao filme partindo do minuto 45. Lamentamos o ocorrido e reforçamos nossa seriedade e compromisso enquanto produtores de conteúdo para interessados em entretenimento de telas. Segue o barco.
O tema é de morte, mas há beleza nessa pós-vida
Se você conheceu a série animada, que passava no SBT irá perceber que se assemelha muito mais a representação cartunesca que pôde ser vista no cinema. Isso porque ambas derivam mais diretamente do material original (as tirinhas), mas de maneira alguma retiram a qualidade das produções já feitas com atores. A transição para o 3D pareceu natural, e o estúdio canadense Nitrogen foi o responsável pela adaptação. É preciso dizer que alcança um bom nível de qualidade, tratando bem as cenas com bons enquadramentos, pensando focos e luz, e realçando a anormalidade dos personagens do filme, o que nos leva ao tema principal.

Uma celebração aos esquisitos

Como não poderia deixar de ser, o tema central da família Addams costuma ser o conflito entre o conservadorismo e a aceitação do diferente. Se formos colocados num contexto em que entendemos o que é moral, certo ou errado por um prisma diferente, como nos sentimos com o julgamento do que é normal/normativo? Esse costuma ser o charme, e através de um bom humor e do absurdo, somos levados à situações conflitantes sobre com quem devemos estabelecer uma relação de empatia no filme. Afinal quem são os estranhos? Os Addams ou a sociedade “normal”? E de que parte existe uma relação mais rígida de aceitação com o fora do comum? É muito bom ver numa animação que tem foco infantil, o levantamento de questões que são tão profundamente transformadoras, e não apenas o humor sem direção que uns (cof!) e outros (cof! cof!) filmes de animação infantil fazem por aí. Mas e o humor? Funciona?
3 dentes e meio de 5

Olha, naturalmente não é uma obra prima do humor. Mas as piadas são frequentes, e dizem muito mais sobre situações e expressividade dos personagens. E eu admito que ri frequentemente de cenas até mesmo inócuas. A demonstração de lucidez, e construção de argumento é bastante envolvente, e o texto flui muito bem. O apelo ao bizarro é estranhamente mais sutil do que outros filmes (cof! cof! cof!) sem recorrer a cenas muito nojentas pelo prazer de provocar a risada pelo nojo, mas eventualmente, sim, uma cena mais “nojinho”. O destaque do filme vai para Wanda, que parece assumir o protagonismo por boa parte do filme, e que garante boas cenas com sua inexpressividade e rispidez. Seu nome, no original é Wednesday (quarta-feira), e aponta para uma questão que ocorre em diversos filmes (especialmente nos de humor e infantis) onde uma série de piadas se perde na tradução (consigo numerar uma sobre matar tempo, que foi traduzida como “dar um tempo no shopping” ao que Wanda responde “faz tempo que não vejo uma matança” e não faz sentido nenhum em português). Mas isso infelizmente é o padrão, e a gente só pode lamentar pelas barreiras linguísticas. De toda forma o impacto é pequeno, dado que não se perdem as questões centrais.
Vale o investimento?

Se você tá procurando um filme pra se divertir, e ainda tirar algumas lições, com temática perfeita para o Halloween no cinema, pode ir sem medo. Não sei se esse é o melhor conselho pra quem quer ver filme no Halloween (acredito que faremos listas pra quem QUER ter medo), mas pra quem quer diversão leve eu recomendo que assistam! É um filme previsível em quase todos os aspectos, mas ainda muito interessante e capaz de arrancar sorrisos bobos e risadas boas. Eu particularmente não tenho muito a criticar não, mas e você? Tá interessado em ver? Já assistiu o clássico de 1991? Manda aí seu comentário e como tá sua hype pra ver essa nova animação no cinema!