Você adorou Midsommar, mas ainda não assistiu A Montanha Sagrada?
Chega aqui que vou te falar sobre.

O que me despertou vontade de escrever sobre esse filme foi justamente assistir Midsommar. Assistindo o trailer fiquei com a sensação de que o filme de Ari Aster tinha uma aura muito jodorowskyana que permeava tudo ali. Assistindo ao filme essa sensação se dissipou um pouco. Midsommar é um filme de terror, bem voltado para o suspense, e Jodorowsky não costuma trabalhar dentro desses gêneros. Mas ainda assim os dois filmes tem algumas coisas bem parecidas. A principal convergência entre as duas obras é a estética. Ambos os filmes são muito iluminados e coloridos. Além disso as duas obras estão carregadas de simbolismo, e de um forte conteúdo magista. E isso é bem interessante, porque pessoas que são iniciadas de alguma forma em magia, seja em runas (Midsommar) ou tarot (A Montanha Sagrada), e outras, tem toda uma camada a mais de significações. Certamente alguém que entende essa linguagem mística verá coisas que passam despercebidas por outras, e isso é muito significativo quando estamos tratando de filmes tão simbolistas.

Outro aspecto interessante sobre esses filmes são os sentimentos que nos despertam. Tensão é o que conduz Midsommar por grande parte da história, principalmente a segunda metade. A Montanha Sagrada não tem nenhum momento tenso. Mas ainda assim as duas obras compartilham de muita estranheza, bizarrice e total desconforto. Existe uma angústia com aquele mundo e as situações mostradas na tela, que permeia as duas obras do início ao fim. Midsommar é um filme mais linear, enquanto A Montanha Sagrada flerta com a abstração. Mas tendo tudo isso em mente, as distinções e convergências, acredito que possivelmente, alguém que curtiu o filme de Aster vai sentir o mesmo pelo filme de Jodorowsky.
Sinopse
Jodorowsky interpreta o papel do “alquimista”, que reúne um grupo de pessoas que representam os planetas do Sistema Solar. Sua intenção é submeter o grupo a uma série de ritos de natureza mística para que se desprendam da bagagem “mundana”, antes de embarcar numa viagem em direção à misteriosa Ilha de Loto. Uma vez na ínsula, iniciam a ascensão à Montanha Sagrada, para substituir os Deuses imortais que em segredo dominam o mundo.
Jodorowsky

Alejandro Jodorowsky é um cara que faz muitas coisas, muitas mesmo. Nesse filme ele escreve, atua, dirige, produz e faz a trilha sonora. Na vida, além de cineasta, Jodorowsky é romancista, psicólogo, dramaturgo, diretor de teatro, poeta, quadrinista e mago. Ele é Chileno, e está com 90 anos na data de publicação deste texto (10/2019). Acho que isso é o que você precisa sabe dele. Mas é uma figura realmente interessante. Recomendo documentário Duna de Jodorowsky, de Frank Pavich, que mostra boa parte do desenvolvimento do filme que iria adaptar a obra clássica de Frank Herbert, além dos desdobramentos que culminaram com o fim do mesmo projeto.
O Filme

É muito desafiador tentar falar desse filme sem entrar em muitos detalhes da trama, embora essa obra seja muito mais uma experiência do que uma história, uma narrativa cinematográfica. É um filme surrealista totalmente carregado de símbolos e alegorias. É muito estranho e bizarro, tem cenas muito angustiantes, escatologicas. Não sei como descrever melhor, é como se fosse uma mistura de sonho e pesadelo. Em muitos momentos o filme deixa o espectador perdido, a gente não sabe o que tá vendo, se é “real” ou não.
Para além dessas questões estéticas, das sensações que a obra nos proporciona, outro ponto bem relevante são as críticas que faz. Muito sobre consumismo, religiões, guerras, armamentismo, vaidade exacerbada, imperialismo e certamente outras coisas que não percebi. Não consigo fazer um julgamento de “bom” ou “ruim”, A Montanha Sagrada me parece estar além desses conceitos. Realmente é uma experiência estética, e você pode gostar ou não. Eu gostei.
Espero ter te convencido a assistir esse filme. Se for assistir, vá tendo em mente que esse é, possivelmente, um dos filmes mais malucos e doentes que você verá.
P.S
Teve uma coisa no filme que me incomodou muito. A violência com animais. O filme inteiro tem muitos animais, é parte da construção surrealista. Mas em duas cenas os animais estão sendo violentados. Isso é triste e faz parte de obra.