No dia 29 de julho deste ano, um galpão da Cinemateca Brasileira sofreu um incêndio que destruiu grande parte do acervo de filmes, documentos e equipamentos relativos à preservação da história do cinema brasileiro. Enfim, esta não é a primeira vez que algo do tipo ocorre no Brasil e nada indica que será a última.
Anteriormente, este mesmo galpão já havia sofrido com um alagamento em fevereiro de 2020 que havia danificado diversos materiais, equipamentos e mobílias. Além disso, diversas polêmicas vêm se sucedendo em uma crise que afeta a própria existência da cinemateca, desde abandono, falta de pagamento aos funcionários e descaso com o acervo.

Apoio de cineastas
Nesse ínterim, em novembro de 2020, o cineasta americano Martin Scorsese escreveu uma carta relatando sua preocupação com o futuro da cinemateca. Primordialmente, um profundo admirador de Glauber Rocha, ele é um dos idealizadores da World Cinema Foundation (Fundação Mundial do Cinema), que ajudou na restauração de “Limite” (1931), um clássico do cinema brasileiro, dirigido por Mário Peixoto.

Em seguida, nove festivais de cinema europeus também manifestaram suas preocupações com a situação da Cinemateca brasileira. Dessa forma, os organizadores redigiram uma carta pública em apoio a instituição com críticas ao abandono e descaso do governo brasileiro com seu acervo audiovisual.
Cultura é resistência
Cinema é cultura, e cultura é resistência. Resistência à opressão e a censura. Em síntese, governos opressores tendem a buscar a destruição inexorável de manifestações culturais de um povo. Assim, um país que investe pouco na educação patrimonial, é preocupante perceber uma crescente perda de opinião crítica e discernimento sobre a importância de valorização da cultura nacional.
No mês de agosto, o Talibã voltou ao poder no Afeganistão, depois de anos afastado. O “Rolo proibido” é um documentário que relata como os funcionários da Cinemateca afegã conseguiram salvar diversos filmes do acervo de serem incendiados pelo Talibã em seu primeiro regime. Em suma, o Talibã é totalmente contra o cinema, um importante meio de preservar o passado e de permanência da identidade de um povo.

Em suma é inevitável pensar em uma comparação com as constantes perseguições e descasos que a Cinemateca brasileira vem sofrendo nos últimos anos. Não há interesse em preservar a cultura ou sequer propagar a noção da importância da preservação pois um povo sem cultura e sem história é mais fácil de ser manipulado.
Descaso com o patrimônio cultural
A Cinemateca brasileira foi fundada em 1940, onde outrora funcionava um matadouro municipal. De lá para hoje, sofreu 5 incêndios: Em 1957, 1969, 1982, 2016 e este ano. A cada tragédia dessas, perdemos uma parte significativa da história e do patrimônio brasileiro para sempre.
Recentemente, outras instituições culturais também sofreram com incêndio, entre elas o Museu Nacional em setembro de 2018. Na época, a UNESCO comparou o incêndio do museu a destruição do sítio arqueológico de Palmira pelo grupo terrorista Estado Islâmico na Síria.
Preservação da história
Infelizmente, no Brasil ainda se perpetua uma cultura de valorizar apenas o que é novo. Não se valoriza a preservação da história e da cultura. Os governos em geral investem apenas em obras novas, pois elas que serão mais vistosas e darão mais visibilidade a suas administrações. Dessa forma, eles buscam suas reeleições. Preservação e restauração não rendem votos.

O próprio Museu Nacional, que tinha um acervo de 20 milhões de itens e é a instituição científica mais antiga do país, recebeu a visita de um presidente da república pela última vez há 63 anos, quando Juscelino Kubitschek esteve lá em 1958. Recentemente no Rio de Janeiro, a prefeitura tentou vender uma escola municipal quase centenária e uma biblioteca, enquanto o governo federal cogitou vender o prédio do MEC na cidade, o Palácio Gustavo Capanema.
Desta forma, aos poucos o povo brasileiro e suas diferentes culturas, vai perdendo sua identidade. Vai perdendo sua memória. “Um povo sem memória é um povo sem história. E um povo sem história está fadado a cometer, no presente e no futuro, os mesmos erros do passado” (Emília Viotti da Costa).

Descaso com a preservação da história
O Chile, assim como o Brasil, sofreu com uma ditadura militar, entre 1973 e 1990. Em Santiago, capital do país, existe o Museu da Memória e dos Direitos Humanos. Uma instituição moderna e ampla, que homenageia as vítimas do regime militar e também preserva a história para que futuras gerações tenham conhecimento do passado.
No Brasil temos o Memorial da Resistência de São Paulo, porém há poucos esforços para preservar a memória e a história da ditadura militar no país. O resultado é diversas pessoas questionando se de fato existiu uma ditadura aqui.
O futuro da Cinemateca
Achar arquivos audiovisuais de registro da história do Brasil é difícil. Ainda mais em bom estado. Muitos filmes de arquivo com boa qualidade dos primórdios do cinejornal e do cinema no Brasil normalmente são de fontes estrangeiras.
Grande parte da história do cinema nacional também já foi perdida para sempre, desde o primeiro filme de animação “O kaiser” (1917) a filmes do Cinema Novo e Cinema Marginal.
Cada vez vamos perdendo um pouco de nossa história audiovisual. É importante cada vez mais que se busque o investimento na educação patrimonial para conscientização da população acerca da importância da preservação da cultura.
Recentemente na cidade do Rio de Janeiro, o movimento Cine Guaraci Vive realizou um abaixo-assinado para impedir que o prédio do antigo Cine Guaraci seja transformado em uma loja de departamentos no bairro de Rocha Miranda. O espaço sofreu um destombamento parcial, e pessoas preocupadas com a preservação do local exigem que o mesmo seja transformado em um centro cultural.
Assim preserva-se a história e ainda se oferece cultura em uma parte da cidade, onde há poucas ofertas deste tipo. O movimento segue na luta.
Ainda existe esperança?
