Neste mês da consciência negra, nada mais que justo do que celebrarmos pessoas que contribuem tanto para intensificar cada vez mais a importância do protagonismo negro na formação da cultura e identidade brasileiras. Certamente, em todos os meses e dias do ano pode-se, e deve-se acontecer isso. Mas, a criação do dia específico de 20 de novembro torna extremamente importante para garantirmos o não esquecimento e o não apagamento de figuras essenciais de nossa história. Dentre tantos nomes importantes do passado, podemos citar o de Valentim da Fonseca e Silva, mais conhecido como Mestre Valentim
Nascido em Serro do Frio, Minas Gerais (hoje apenas Serro) por volta de 1744-1745, ele era filho de Manoel da Fonseca e Silva, um explorador de diamantes português, e Amatilde da Fonseca, uma escrava alforriada.Posteriormente, em 1748, Valentim foi com seus pais para Portugal. Ao passo que, lá ele estudou a arte da escultura e do entalhe. Logo depois a morte do pai, voltou por volta dos 25 anos com sua mãe para o Brasil. Mestre Valentim é um mais conhecidos e celebrados artistas do período colonial e do Barroco brasileiro, ao lado de Aleijadinho e Mestre Ataíde. Porém, diferencia-se de seus contemporâneos por ter realizado obras de arquitetura civil, enquanto os outros realizavam somente obras de arquitetura religiosa.
O primeiro parque público do Brasil
Nos países europeus o conceito de parques públicos era muito comum na época. Em suma existia lá uma concepção iluminista de oferecer às pessoas da cidade um lugar onde elas pudessem ter contato com a natureza e ar puro e relaxar. Em contrapartida o Brasil desconhecia isso.
Mestre Valentim elaborou o projeto do primeiro parque público do Rio de Janeiro e do Brasil: O passeio público. A princípio o local era uma lagoa, conhecida por Lagoa Boqueirão da Ajuda. que havia sido aterrada por decisão de saúde pública. Ainda mais que lá a população jogava todo seu lixo.
Mestre Valentim elaborou e desenhou todo o planejamento urbano do parque. Nesse ínterim ele também projetou e realizou as esculturas, chafarizes e jardins do parque. Enfim a construção iniciou em 1779. Inauguraram o parque em 1783.


Parques urbanos e áreas verdes nas cidades
Existe uma relação direta entre a qualidade de vida das pessoas e a presença de parques urbanos e áreas verdes. Afinal as cidades estão cada vez mais verticalizadas. Atualmente as pessoas têm cotidianos cada vez mais frenéticos. Simultaneamente o trânsito está sempre caótico. Ao passo que a deterioração de espaços urbanos traz insegurança. Assim é fundamental que a população tenha acesso a espaços de contato com a natureza.
Definitivamente precisamos de lugares onde as pessoas podem relaxar. Dessa forma elas podem diminuir um pouco o ritmo. Logo escapar do sedentarismo. E por fim esquecer um pouco do estresse da vida na cidade grande e seus problemas cada vez mais graves. Porém vemos crescer mais o descaso do poder público com os parques urbanos públicos. Assim muitos parques são abandonados e transformados em verdadeiros lixões a céu aberto. Logo tornam-se áreas de potencial violência e decadência urbana e perdendo-se um potencial socializante. O próprio Passeio Público, que existe até hoje no centro do Rio de Janeiro, é um retrato do abandono que o poder público tem com obras de patrimônio nacional. Atualmente o parque encontra-se totalmente abandonado, com várias peças e obras furtadas, depredadas e em estado de deterioração. Em síntese uma desonra enorme com a memória da cidade, do país, e de um grande artista como Mestre Valentim.


Valorização do moderno em detrimento do antigo
Políticos no Brasil têm uma tendência a chamar atenção para seus feitos através de construções modernas, grandiosas e chamativas. Eles não se preocupam em conservar construções antigas. Eles devem achar uma perda de tempo investir no reparo de obras não realizadas em seus governos.
Por isso investe-se milhões em um Museu do Amanhã e quase nada na preservação de monumentos e construções históricas. Todavia não me levem a mal. Eu não tenho nada contra o Museu do Amanhã. Além disso nem qualquer outro tipo de construção moderna. Porém como podemos valorizar o futuro e esquecer do passado? Em outras palavras um povo sem memória e sem história é um povo sem futuro.
Outras obras de Mestre Valentim
Podemos ver muitas delas hoje em dia pelas ruas do Rio de Janeiro, embora muitas estejam bastante abandonadas. O Chafariz da Pirâmide é um destes exemplares. Por um bom tempo foi o maior ponto de fornecimento de água da cidade do Rio de Janeiro, além de servir também para abastecimento dos navios que aportavam no cais da Praça XV, centro da cidade. Também pode-se conferir o Chafariz das Saracuras no bairro de Ipanema, e as igrejas da Ordem Terceira do Carmo, Santa Cruz dos Militares e Mosteiro de São Bento. Em suma todas contém obras de sua autoria.

Mestre Valentim – Artesão e artista
Antes de mais nada, Mestre Valentim pode ser considerado como um dos nomes mais importantes da história da arte brasileira. Nesse sentido, a maior contribuição dele foi conseguir fazer com que o seu ofício do artesão fosse admirado com o reconhecimento artístico que qualquer outro artista visual teria. Na época artesãos não tinham o mesmo prestígio que artistas e tinham de certa forma relegada a importância de seus trabalhos.
Mestre Valentim superou isso unindo inovações técnicas com inspiração nas tradições e muitas vezes fundindo simbologia cristã e pagã nas mesmas obras, além de realizar obras laicas com o mesmo rigor que se realizavam obras religiosas. Poucos artistas, na época, deram tanto esmero e qualidadea obras de arquitetura civil e de urbanismo como ele.

Descaso com a memória e a história
Em 2011, durante obras de revitalização da zona portuária que visavam a construção de um veículo leve sobre trilhos (VLT) e do já citado Museu do Amanhã, descobriu-se os restos de dois ancoradouros que serviam como local de recebimentos de escravos oriundos do continente africano durante o período colonial. Lá também foram encontrados diversos objetos de importância cultural e histórica de cultos religiosos de países como Moçambique, Congo e Angola. O local foi reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO: O cais do Valongo.
Porém, hoje ele também sofre com descaso do poder público. Totalmente abandonado, repleto de lixo, mato alto e deterioração. É importante que lugares de importância histórica não se percam no tempo. Devemos cobrar de nossos governantes o respeito e a preservação de nossa história e identidade.

Busto e memorial
Mestre Valentim faleceu em 1813 no Rio de Janeiro. Realizou grandes obras e foi bem reconhecido na época. Porém, morreu com poucas posses em uma casa muito simples. Valentim teve uma filha chamada Joana Maria, que não foi criada por ele nem pela mãe, e de quem pouco se sabe hoje em dia.
Joaquim Rodrigues Moreira Júnior criou um busto de Mestre Valentim em sua homenagem no ano de 1913. O busto está até hoje no Passeio Público. O Jardim Botânico inaugurou um memorial em 1997, com algumas de suas esculturas. Uma comissão de restauradores retirou-as do Passeio Público para uma completa recuperação. Mestre Valentim está sepultado na Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito na rua Uruguaiana, no Centro do Rio de Janeiro.


Patrimônio, história e identidade no legado de Mestre Valentim
Precisamos valorizar a importância dos patrimônios de nossas cidades e de nosso país. Apesar disso, o descaso que o legado de Mestre Valentim enfrenta há tempos enfatiza o que já disse anteriormente: Um povo sem história é um povo sem identidade.
Ou seja, olhar para a frente é importante, mas sempre sem esquecer de olhar para o passado. Pode-se, com ele, aprender, melhorar ou corrigir. Sob o mesmo ponto de vista, acontecimentos, como por exemplo o incêndio no Museu Nacional em 2018, não podem ser esquecidos e que nós lembremos de termos mais cuidado com nossos patrimônios.
Nota: A foto de destaque no começo do post é de autoria do fotógrafo Alexandre Araújo de Siqueira.
Bom dia, Ótimo e importante artigo sobre Mestre Valentim! Gostaria somente de solicitar o crédito da primeira foto, que abre o texto, do busto do Mestre no Passeio Público. A foto é minha, com a marca d'água e tudo. Obrigado. Atenciosamente, Alexandre Siqueira Fotógrafo
Olá Alexandre. Primeiramente obrigado pelo elogio ao texto. Em segundo lugar gostaria de lhe pedir desculpas por qualquer inconveniente que possa ter lhe causado. Sempre faço questão de colocar a fonte das imagens que utilizo em meu texto, porém as configurações do wordpress não permitem que a imagem de destaque apareça com uma legenda, muito embora eu tenha colocado seu crédito no campo da legenda. Por este motivo escolhi sua foto como imagem de destaque pois visto a impossibilidade da imagem de destaque ter uma legenda embutida, pelo menos a marca d´água com seu nome estaria aparecendo. De qualquer forma adicionei uma nota explicitando a sua autoria da foto. Por fim, parabenizo-o pelo seu excelente trabalho fotográfico. Aproveite que gostou do texto e dê uma olhada em outros aqui do site. Acho que irá gostar. Qualquer coisa mande mensagem. Abc!