Fernando de Noronha é um arquipélago situado a 360 km da costa brasileira. Destino dos sonhos para muitos e patrimônio da humanidade. Composto por 21 ilhas, preserva intacto grande parte de sua flora e fauna. Um paraíso na terra?
O arquipélago já serviu como presídio e como base militar. Ao passo que, a partir dos anos 1940, começou a ser povoado por pessoas de diferentes culturas e origens. O arquipélago transformou-se em um lugar único, onde uma mistura de diferentes origens produziu uma cultura própria noronhense. Assim, muitas famílias se estabeleceram e foram vivendo de geração em geração, com todos nascendo e crescendo no local. Porém, desde 2004, apenas 4 crianças nasceram no paraíso.

Nascer no paraíso
Eventualmente, o único hospital do arquipélago, o hospital São Lucas, tinha orgulho de ter uma maternidade que prestava assistência completa para os recém-nascidos e suas mães. No ano de 2004, a maternidade foi desativada. As mulheres precisam ir para Recife (a 545 km de Fernando de Noronha) para poder dar à luz. O documentário “Proibido nascer no paraíso” procura entender essa realidade.
Em síntese, na teoria não existe uma proibição explícita, como se fala no filme. Porém é notório que o estado de Pernambuco impõe um tempo limite para a mulher grávida ir para Recife e se utiliza de diversas instituições para realizar esta pressão: conselho tutelar, Ministério Público, posto de saúde e até polícia.
Três mulheres no paraíso
“Proibido Nascer no Paraíso” acompanha a vida de 3 mulheres: Ana Carolina, Harlene e Ione. O filme apresenta-se como divulgador de um fato chocante e pouco divulgado. Apesar disso, a cineasta Joana Nin não segue a linha de documentário investigativo de denúncia, no estilo do cineasta Michael Moore. Não há muitos depoimentos de “especialistas” ou “autoridades”. A narrativa é guiada pelos depoimentos das três noronhenses, que nasceram em Fernando de Noronha, mas que são impedidas de terem seus filhos lá, embora o desejem muito.

O filme abre de forma bem didática, ao passo que compara a gravidez aos fenômenos naturais das ondas do mar. Afinal, Fernando de Noronha é um local que proporciona belíssimas imagens. Em suma, a beleza delas contrapõe-se de forma constante com a realidade perturbadora de que o estado impede as moradoras de lá decidirem onde ter, ou não, seus filhos.

Direitos no paraíso
A princípio, a narração do filme é econômica e não procura guiar o espectador. Primordialmente, são as 3 gestantes que conduzem o fio narrativo do filme. Ou seja, suas trajetórias, medos e frustrações são tudo o que se precisa para entender toda a história. Em outras palavras, não há uma tentativa do filme de apontar uma solução ou desvendar os reais motivos por trás da proibição dos direitos das mães noronhenses. Além disso, o filme denuncia um fato a partir de como as histórias apresentadas nos fazem refletir. Porque não se pode mais nascer no paraíso? Afinal, a quem interessa isso?
Eventualmente, o filme apresenta um passeio escolar de um grupo de crianças, vemos que todas nasceram em Recife. Uma historiadora explica para elas a história do arquipélago e a importância de eles conhecerem e reconhecerem sua terra, muito embora tenham sido negados seus direitos de nascer nela.
Obstinação no paraíso
Ana Carolina, também conhecida como Babalu, parece dedicada a quebrar este tabu. Ao passo que, ela quer dar à luz em Fernando de Noronha. Ela propõe para a diretora do hospital São Lucas trazer, sob seu próprio custo, uma equipe de profissionais para realizar seu parto. Porém, não é apenas uma UTI Neonatal que falta no hospital, não há banco de sangue, nem anestesista. Ou seja, mantém-se apenas o mínimo neste hospital.
Dona de um restaurante, Ana Carolina se nega a partir no prazo estipulado pelo estado de Pernambuco, pois não quer deixar seu estabelecimento sem sua supervisão. Porém, começa a ser pressionada para partir logo para Recife.

Empenho no paraíso
Se fôssemos tomar como regra, o empenho do estado em retirar as mulheres grávidas de Fernando de Noronha para dar à luz em Recife, logo pensaríamos que todos os serviços públicos de Pernambuco são 100% eficientes. Porém, segundo Ana Carolina, eles são eficientes apenas para expulsar as mães. Afinal, para necessidades básicas da população, esta eficiência passa longe.
Todo o enredo deste documentário poderia ser facilmente o enredo de uma ficção distópica, onde o ato de parir é considerado um ato de transgressão. Porém é uma realidade, que ocorre não há séculos atrás ou em uma terra muito distante. Mas sim, nos tempos atuais, e no Brasil.
Turismo: benção ou maldição?
Lugares com potencial para turismo ecológico costumam estar sempre em situações opostas: ou são destino de um grupo muito pequeno de turistas e mantêm-se rústico e preservado, ou é destino extremamente popular com um enorme número de turistas e prejudicam sua preservação. A cidade de Búzios (RJ) é um exemplo famoso, cujo enorme interesse turístico surgiu nos anos 1960, após visita da atriz francesa Brigitte Bardot.
Se por um lado, muitos lamentam que o alto fluxo de turistas ajuda a descaracterizar o charme de paraísos ecológicos, por outro, moradores celebram a possibilidade de modernização e melhoria da infraestrutura do lugar onde vivem.
Embora, Fernando de Noronha consiga se manter preservada, ao contrário de lugares que foram crescendo de forma desordenada, como por exemplo a cidade de Arraial do Cabo (RJ), parece que a vida dos moradores não tem sido impactada de forma tão positiva pelos constantes investimentos que entram no arquipélago.
Dinheiro do turismo
Ana Carolina questiona o motivo dado a ela para que não se mantenha uma UTI Neonatal no local. Para ela, não faz sentido alegar falta de dinheiro para financiar o custo, quando tem tanto dinheiro entrando na ilha por causa do turismo. Em média 100 mil turistas por ano vão para lá. Apenas de taxa de preservação ambiental se paga aproximadamente 76 reais por dia por pessoa, além dos altos custos de hospedagem, passeios e alimentação.
A quem interessa, que os moradores de Fernando de Noronha percam seus direitos sobre terras que são altamente especuladas e extremamente valorizadas? Visto o crescente turismo do local, é difícil não pensar nisto como uma questão política de grandes interesses obscuros. Tanto que, as crianças que nascem em Recife, ainda precisam de autorização para poder viver em Fernando de Noronha, depois de seu nascimento. Nem sempre essa autorização ocorre.
Filme necessário no paraíso
O filme “Proibidos de nascer no paraíso”, é um filme necessário e extremamente importante de ser visto e divulgado. Ano passado, a moradora, Alyne, ficou conhecida por tentar dar à luz em Fernando de Noronha, mesmo com intimações e policiais na porta de sua casa. Seu principal temor era a pandemia do Coronavírus. Na época, praticamente zero no arquipélago, estava em alta na capital pernambucana. Porém, de nada adiantou e ela teve seu filho em Recife.
O estado processou ela pelo “crime” de ser mãe e querer decidir onde ser mãe e ainda de querer se precaver de uma possível contaminação em uma pandemia mundial. No entanto, ainda há esperança por alguma mudança nesse panorama. No filme, uma das mães diz que conseguiu que a naturalidade de seu filho fosse reconhecida como de Fernando de Noronha. Em uma outra parte, Ana Carolina conversa com uma moça que teve um dos poucos filhos que nasceram no arquipélago. Segundo ela, um médico entendeu que sua condição exigia isso.
Se essas exceções positivas dizem alguma coisa, talvez seja de que mudanças podem acontecer. Desde que as pessoas que tem condições para mudar algo tomem uma atitude e não se acomodem.
