E fomos presenteados com um dos filmes mais divertidos do mês, quiçá do ano, LEGO Batman: O Filme.
Eu espero sinceramente que você não tenha visto os trailers. Tipo, ainda tem muito do filme a ser aproveitado, mas você já vai ter visto várias (boas) piadas.
SINOPSE: Batman é o herói mais legal do mundo (talvez menos do que o chato do Superman, mas quem gosta dele?), e passa seus dias enfrentando o crime, sendo adorado pelos cidadãos, e.. Sozinho, na batcaverna. E isso é um problema?
Aparentemente ele é o único órfão que gosta de ficar sem uma família do mundo. Então agora ele tem que não só lidar com vilões incríveis (ou só… absurdos e ridículos), como cuidar de seu eu-não-sei-como-ele-apareceu-aqui filho adotivo.
COMENTÁRIOS (sem spoiler):
Provavelmente você não vai rir com esse filme. O que mostra que você é uma pessoa muito chata e sem graça. Todo o resto do mundo vai se divertir DEMAIS. Sim, é um filme infantil, sim, LEGO é um brinquedo e sim, não é o “Batman de verdade”. É uma releitura tanto dele, como dos elementos que compõem sua mitologia. Mas vocês vão ver, é tudo muito divertido.
Inclusive, o fato de não ser fiel aos quadrinhos e filmes não é algo ruim. Na verdade, esse filme talvez seja uma das melhores críticas já feita ao Morcego de todos os tempos (e olha que ele já tem 75 anos, MUITAS críticas já foram feitas a ele).
Outro assunto muito legal de se ver é que a LEGO tem direito de uso de quase todos os grandes nomes da cultura pop ultimamente (estou exagerando, óbvio. Mas olhe o catálogo deles). Isso explica a quantidade absurda de jogos da marca e que na verdade são de outras franquias (Batman, Star Wars, Vingadores, Senhor dos Anéis). No primeiro filme (Uma Aventura LEGO / LEGO: The Movie) isso já foi bastante utilizado (quem lembra da sala dos Mestres Construtores??), e apesar desse filme ser focado no morcegão, todo esse poderio de marcas volta, e muito bem feito! E nessa parte eu tenho que agradecer à Lego, eles não deixam isso transparecer nos traillers (mesmo que tenha um monte de piadas legais em todos os milhões de vídeos anteriores. Sério gente, não assistam). E eu não vou estragar a surpresa mais do que já fiz, vá assistir o filme!
E voltando a falar da própria, é incrível como a Lego tem domínio sobre os próprios produtos, e sabe passar a sensação de brincar com as pecinhas nesses filmes de animação. Quem viu Uma Aventura Lego notou como não só o enredo é muito legal (e divertido),como também que os efeitos foram bem construídos. E a forma com que o filme lida com o fato de tudo ser feito de peças é muito bacana. Não só de forma explícita, mas também implícita, e o exemplo disso são as piadas feitas com peças se soltando, montadas de forma errada e interagindo de várias formas. Nesse filme, tudo volta. Fogo feito de peças, prédios de peças sendo destruídos, lasers de peças, nuvens, explosões, tudo. Inclusive, nem o recurso de objetos do “mundo real” usados no primeiro filme voltam nesse (eu vou parar de chamar de “Primeiro filme”. Apesar de terem coisas em comum, não é uma continuação. Vou me referir a ele como UAL ou LTM, a partir de agora). Eu fico imaginando o trabalho que deu de animar essas cenas, e só posso dizer… Parabéns, sério. Não tem falhas nisso (ou tem e não vi).
Aliás, tem uma, que vem desde o UAL: há momentos em que a ação na tela fica caótica DEMAIS! É realmente incrível o fato de conseguirem colocar emoções em bonequinhos de Lego, e animá-los de forma que a ação fique interessante (e FICA!), mas putz, tem horas que parece que você está assistindo Transformers, de tanta coisa se movendo na tela ao mesmo tempo. Sem contar que estamos falando do Batman, então é tudo isso, só que mais escuro. Pode confundir bastante em alguns momentos.
E acho que só falta falar do enredo. Resumindo: Não tem nada de novo. Isso é ruim? Depende. Você esperava que fosse diferente? O roteiro força algumas situações, mas em geral a trama anda bem, sem muitas falhas de escrita nem andamento (apesar de que, no final, pra mim, tem um erro grave). E bom, querendo ou não, é um filme para crianças. Sinceramente acho que os pequenos não vão entender o filme muito além do visual, e muitas das piadas e comentários são feitos pros adultos que assistem. Mas sério, não espere nada requintado demais. Apesar de sacadas geniais, é um roteiro raso e previsível, e por vezes corrido demais. Ponto.
É isso, eu acho. Gostei BASTANTE do filme, e quem gosta de Lego (eu brinquei muito quando criança) vai adorar. Quem gosta de Batman vai adorar. Quem tem uma criança interior vai adorar. Quem for criança vai adorar também. O resto… sei lá, você tem formas melhores para aproveitar seu tempo. Eu daria uma nota 8 pro filme, mesmo que meu coração dê 9,5.
COMENTÁRIOS (Com spoiler):
Referências. Referências para todo lugar. O lance dos vilões É VERDADE, pode procurar no Google (como o Coringa manda), estão todos lá. Inclusive eu achava que Homem Calendário era zoado o bastante até ver o cara dos condimentos. Referência aos outros filmes do Batman, MUITAS referências à série dos anos 70 (inclusive, melhor uso de repelente de tubarões de todos os tempos). Referências aos quadrinhos. Referências a outros super heróis (vários deles aparecem no filme, inclusive). Referências à Esquadrão Suicida (“Usar vilões para prender outros vilões? Que ideia idiota!”). Referências à COMÉDIAS ROMÂNTICAS!!! Referências às próprias estruturas dos filmes. E os vilões, claro! Harry Potter não veio para festa, mas Voldemort está aqui. Sauron também. E Godzilla, King Kong,Gremlins… é um deleite para os olhos. Como sempre, você não precisa conhecer essas referências, mas se você conhece, vai se divertir muito mais.
Mas deixa eu pular logo pro que interessa: a representação do Batman. Esse Bruce Wayne não é visto em nenhum dos filmes. Sério. Nenhum Batman já foi tão babaca, arrogante, exibido, pouco consciente de si quanto a versão Lego. “Mas será?”. Certamente, nenhuma versão cinematográfica dele foi tão exibido (na forma de Batman) e nem tão convencido. Isso pra mim foi muito mais uma alusão à forma como os fãs, principalmente os mais novos, vêem o personagem. Por outro lado, talvez essa seja a representação mais precisa do morcego. O “bloco com luzes falantes”, da zona fantasma, faz uma análise muito interessante dele: “Você pode não ser um vilão, mas você não é uma boa pessoa”. O que é verdade. Bruce/Batman está o tempo todo focado em salvar Gothan (ou o mundo) mas, na prática, ele está mesmo preocupado? Com as pessoas, com as (poucas) pessoas de quem gosta? Barbara Gordon, no seu discurso de posse, fala outra coisa igualmente interessante: “O Batman já está a muitos anos na ativa, mas nunca prende os bandidos”. E é VERDADE! Ou melhor, ele até os prende, mas aparentemente nem Arkham nem Blackgate estão realmente preparados para isolar essas pessoas. O Coringa praticamente tem a chave das celas, é absurdo! “Precisamos fazer com que a polícia e o Batman trabalhem juntos, dentro da lei”, ela também diz. Por mais bonito e glamourizado seja o vigilantismo nos quadrinhos, a verdade é que se queremos que ele seja realmente a favor do estado, ele precisa estar dentro da lei. E se o objetivo de ambos (herói e polícia) é proteger a cidade e os cidadãos, nada mais justo do que trabalharem juntos. É claro, se tornar um peão do estado não é uma coisa boa e também deve entrar na balança e ser considerado, mas não faz sentido não trabalhar em conjunto com a polícia.
Ainda no tema, mas mudando o foco, Alfred fala em mais de um momento do filme: “Está na hora de você encarar o seu maior medo: Montar uma família”. Lego Batman acerta de novo, Bruce nunca superou a perda dos pais, e teme que o mesmo volte a ocorrer com ele e com os seus. Por isso sempre se esforça tanto em continuar sozinho. Nesse filme, tanto em piadas quanto sendo direto, isso é abordado o tempo todo. Mesmo que desde Velozes e Furiosos acho um saco esse negócio de filmes tratarem grupos de amigos como família, não posso ignorar a força da mensagem. Mas eu não gostei muito de como o filme lidou com isso, é bom dizer.
E bom, tem a relação do Batman com o Coringa. Isso é posto até num trailer. Mas também é tema de sagas e histórias como Morte em Família (novos 52), The Dark Knight e The Killing Joke. O morcego e o palhaço tem um relacionamento doentio de ódio e dependência, que é mais presente do que a de qualquer outro herói/vilão. Isso é extremamente parodiado no filme (“Eu sou seu arquivilão”, “Você nunca disse que me odeia”), mas é uma crítica à mitologia que não pode ser ignorada.
Por essas e outras, essa é a representação mais caricata mas, talvez, a mais precisa, que esses personagens já receberam. Me refiro a todos eles. (Mesmo sabendo que a Bárbara não está numa cadeira de rodas, como seria de se esperar).
Só queria comentar mais duas coisas antes de fechar esse texto imenso: Ver o Voldemort, o Sauron, e as versões Lego dos pôsteres dos filmes anteriores foi ótimo, além das cenas de vídeos reais, como da série dos anos 70, do vídeo do cachorrinho no celular do policial, e… qual era aquela comédia romântica?
E, pra finalizar, a dublagem. Guilherme Briggs como diretor de dublagem sempre é sinal de qualidade, piadas bem adaptadas, e muitas referências brasileiras bem encaixadas nos filmes. Mesmo não tendo a Rosario Dawson (casa comigo!), a dublagem brasuca está excelente.
RESUMO: Se você gosta de animação, de comédia, de Lego, e do Batman, vai gostar desse filme. Na verdade, acho que você só não vai gostar se nada disso lhe agrada. É uma representação extremamente caricata do personagem e, talvez por isso, a mais interessante já feita. Ação alucinada (que as vezes incomoda, mas em geral é muito bom), e tantas piadas que em algum momento você vai cansar de rir. Não por ter ficado de saco cheio, mas porque você não tem mais condições de rir mais, mesmo. Vale a pena ver. E, se precisar de uma desculpa, leve uma criança. Faça um pequeno feliz esse mês.
Nota 8.


