Cowboy Bebop e o andar solitário por entre a gente

Cowboy Bebop e o andar solitário por entre a gente

Quando entrei nessa jornada de compreender o mundo dos animes, vários títulos me foram indicados. E para separar o joio do trigo, resolvi começar pelos animes mais conhecidos, os ditos clássicos. Aqueles que trouxeram maior público para o gênero tornando-o famoso, ou os que são mais aclamados pela crítica; Cowboy Bebop se enquadra perfeitamente nos dois requisitos.

Tripulantes da nave Bebop: Spike, Jet, Fae, Ed e Ein aparecem colados na foto sorrindo. Cowboy Bebop, Maratona de Sofá.
Foto de família.

Sinopse

É importante destacar que Cowboy Bebop não é um anime do velho oeste, ou sequer um anime de Cowboy.  Primeiro porque ele se passa no espaço, numa realidade futurística e de certa forma distópica, mais precisamente no ano de 2071. Acompanhamos a história do Spike, um caçador de recompensas, que na companhia dos seus amigos Jet, Faye, Ed e Ein, vive se metendo em confusão. Após uma grande catástrofe, a maior parte da população da Terra migrou para outros planetas e constelações, formando colônias, construindo novas culturas, povos e tecnologias. Dada essa expansão cresce também o índice de criminalidade, e a insuficiência do sistema policial de controlar a onda criminosa, o que os leva utilizar caçadores de recompensa. É aí que entra o Spike e sua turma. O enredo do anime é adulto, e como tal é pautado por cenas de luta, crimes, tédio, melancolia, tragédia e morte.

Fae, Jet, Spike e Ed examinam um tabuleiro de xadrez. Cowboy Bebop, Maratona de Sofá.
O xadrez é a chave.

Cowboy Bebop me agrada!

Muitos são os destaques importantes pra mim em Cowboy Bebop, sendo a trilha sonora o mais importante deles. Desde a abertura você se sente preso pelo ritmo envolvente e dançante, que é característico de uma das correntes mais influentes do Jazz: o Bebop, daí o nome do anime. É possível perceber que a trilha não foi pensada para ser coadjuvante no anime, e sim um dos atores principais, dando o tom e mudando em cadência e volume de acordo com cada um dos episódios. Quando me indicaram Cowboy Bebop, me disseram que o diretor do anime Shinichiro Watanabe, também dirigiu outros animes muito aclamados pela crítica (Samurai Champloo e Zankyou no Terror) além de duas animações que fizeram parte da série Animatrix de 2003; e a Yôko Kanno, que faz a composição das músicas deste e outros animes famosos como Ghost in the Shell, Sakura Card Captors e Wolf’s Rain.

Fae com as mãos para o alto, certada, com sete armas sendo apontadas para ela. Cowboy Bebop, Maratona de Sofá.
De novo Faye?

Outra coisa que me chamou muito atenção sobre Cowboy Bebop é a presença de pessoas negras, e não-brancas (todas as outras etnias possíveis) durante os episódios do anime. Pode parecer um detalhe pequeno, entretanto sendo uma mulher negra, este é um ponto relevante para mim. Principalmente porque a presença de pessoas não asiáticas/não brancas é muito pequena em animes. E quando ocorre, existe apenas um personagem na trama, o famoso “Token Character”: aquele personagem incluído numa trama apenas com o intuito de aplacar a insatisfação com a falta de representatividade de determinada minoria. Também conhecido como a melhor amiga negra da protagonista branca naquele filme adolescente, esse mesmo. Cowboy Bebop vai além disso. É visível que representatividade foi uma das preocupações da produção. O que é algo muito além do seu tempo, já que o anime data do ano de 1998. Tem até personagens brasileiros!

Ed tomando sol e relaxando deitadinha em algum lugar do Brasil. Cowboy Bebop, Maratona de Sofá.
Um bebê brasileiro lindo desse!

E as bugingangas, Bel?

Como todo conteúdo produzido que se passa no futuro, muitos são os inventos que nos deixam com desejo de alcançar essa realidade. Óculos com poder de leitura facial tão grande que supera até as cirurgias plásticas, cachorros que armazenam dados, realidade virtual de ponta, e portais interplanetários que permitem a viagem rápida e segura (engulam essa teóricos da terra plana). Há também um sistema interativo de notícias, que pode não funcionar com precisão, mas que sempre reporta notícias dos criminosos mais procurados com muito humor. Mérito dos apresentadores Punch e Judy, que apresentam o programa vestidos de Cowboys.

Spike em azul, Fae em vermelho, Jet em verde, Ed em amarelo, compondo uma imagem pop art da gang. Cowboy Bebop, Maratona de Sofá.
Don’t touch, it’s art!

A melancolia que é ser adulto

Para quem desconhece anime, o gênero soa como algo infantil, coisa para crianças. Meus amigos, em verdade vos digo que Cowboy Bebop é tudo, menos conteúdo infantil. Todos os personagens são muito humanos e muito adultos, com dramas, medos, alegrias, e sofrimento que marcaram suas vidas. Ao assistir o anime, seus sentimentos mudam de acordo com a narrativa contada, e existe um certo tom de melancolia sobre o que é viver. As narrativas de Ed, Faye, Jet e Spike são permeados pelos obstáculos da vida, conflitos que variam entre sentimentos de abandono, traição, desilusão e perda. Aí você deve estar pensando “Nossa Bel, pra que eu vou assistir esse bagulho depressivo?”. E sendo muito honesta com vocês, meus pequenos padawans, você deveria assistir Cowboy Bebop exatamente por isso. Calma, eu explico.

Fae, Spike, Ed e Jet reunidos a bordo da Bebop, todos devidamente sentados conversando. Cowboy Bebop, Maratona de Sofá.
Largados no sofá.

Existem várias frases na cultura ocidental que falam sobre a solidão. Talvez a que eu mais goste seja “o andar solitário por entre a gente”, que na verdade fala sobre o amor. Amor não é necessariamente correspondido, não é necessariamente feliz, mas é um sentimento que pauta toda nossa vida, cerca as nossas relações. Sejam elas familiares, românticas ou de amizade. Todavia, o amor não pode existir sem perda, sem dissabor, sem desencanto, sem alguma dose de tristeza e cinismo. Cowboy Bebop é sobre isso, amor e suas várias formas. Sobre ansiar por algo perdido, pela tristeza das relações desfeitas, seguir em frente apesar da solidão. Talvez por causa dela. Acima de tudo, Cowboy Bebop é sobre a vida, sua transitoriedade, adversidades, se descobrir e redescobrir, sobre realmente estar vivo, sobre a “dor e delícia de ser o que é”.

Jet e Spike conversando sobre a vida a bordo da bebop. Cowboy Bebop, Maratona de Sofá.
Mais que amigas, friends!

E se nada do que eu disse te convencer,

Eu tenho dois últimos (ótimos) argumentos: Keanu Reeves, também conhecido vastamente pelos meus amigos como “O único homem branco que nunca me decepcionou” é tão fã, mas tão fã de Cowboy Bebop, que é louco pra fazer uma live action do anime protagonizando o Spike. Ele chegou até ser anunciado para o papel no ano de 2009, mas o projeto acabou engavetado (Igualzinho Constantine 2 *chora*).

Imagens paralelas de Keanu Reeves e Spike. Relacionadas ao ator ter desejado um dia poder interpretar o personagem caso um live action ocorresse. Cowboy Bebop, Maratona de Sofá.
Seria meu sonho?

Uma das maiores conclusões que Cowboy Bebop te proporciona é que sim, a vida é difícil e sofrida. As relações se desfazem com frequência. As coisas e pessoas mudam. Nada permanece igual. Contudo, apesar de tudo isso (ou talvez por causa de tudo isso) a vida também é maravilhosa. É colorida. Movimentada. Cheia de conexões. Lugares e pessoas novas para conhecer. Segredos para descobrir. Pessoas para amar. Boas risadas. E algumas lágrimas pelo caminho (mesmo que seja assistindo anime). Viver é tão complexo quanto amar, e ambos, como Cowboy Bebop são agridoces. E quem é que não gosta dessa mistura?

Falando de algum lugar no universo - Isabel Barbosa

Estudante de Ciências (sensuais) Sociais na UFBA. Feminista negra e capricorniana impaciente. Louca por séries, super-heróis, gatos, comida e recentemente anime.

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