BrightBurn – Precisamos falar sobre Brandon

BrightBurn – Precisamos falar sobre Brandon

Eu pensei num monte de coisa pra escrever aqui, mas não veio na cabeça. Enfim, sempre legal ver releituras de heróis. Foda é só quando tem muito filme desse tipo em pouco tempo. Brightburn – Filho das Trevas (Brightburn, 2019).

SINOPSE

Kansas, 2006. Um jovem casal (Elizabeth Banks e David Denman) sem filhos vê um meteoro cair do céu. Dentro dele, uma criança. Os pais ficam felizes, e o criam com todo amor e carinho. Você já viu essa história, certo? Tá, agora imagina que a criança é sociopata. Não é Superman, é BrightBurn.

SENDO UM POUCO PESSOAL

E isso sou só eu, tá? Não é crítica ao filme. Depois de toda saga MCU, mais entrada da DC, mais outros heróis periféricos chegando e saindo, eu… dei uma cansada de filmes de herói. Não que eu não goste, mas certamente não era o que eu estava esperando ver hoje. Ainda mais por ser outro filme de introdução. Mas tô pondo o carro na frente dos bois

FILME DE… ANTI-HERÓI?

O exercício de imaginar os heróis deslocados de suas origens não é novo. Ainda mais quando se pega o mais icônico deles, o superman. Inclusive, alguns heróis surgiram como homenagem/paródia DELE, como o Shazam por exemplo (não é piada). O kryptoniano já foi parodiado pela turma da Mônica, é mascote do Esporte Clube Bahia, é uma expressão popular em si mesmo, tá no nosso folclore em resumo. Suas bases são simples: um bebê órfão que cai dos céus para um casal de fazendeiros, que o criam com amor, amor esse que, mesmo quando ele se descobre superpoderoso, lhe faz usar os poderes somente para o bem.

Na verdade, já houve paródias do superman com o próprio superman, como no caso do Red Sun (Entre a Foice e o Martelo), onde ele não cairia no Kansas, mas na União Soviética.

No caso aqui a premissa não é apenas o local da queda, mas sim uma predisposição do personagem: e se o Superman, ao invés de ser bom, fosse mal?

INTRODUÇÃO

E aqui a gente precisa dizer: é um filme introdutório. Haverá uma continuação? Eu não sei, eu espero que sim. Mas é um filme de origem (um pouco do meu cansaço no começo do texto). A ideia desse filme é mostrar o pequeno Brandon Breyer (Jackson A. Dunn) descobrindo não só seus poderes e sua relação com as pessoas. Está descobrindo também o seu gosto pela dominação e pela morte. Não é só uma paródia, é um diálogo e um contraponto também. Porque veja, o superman é um dos aspectos do sonho americano, a ideia de alguém com habilidades além das humanas, mas de coração bom, e mente justa, capaz de dizer o que é certo e o que é errado; de proteger as pessoas, e de punir os maus.

Mas quem diz o que é bom?

Melhor ainda: E se ele NÃO quiser fazer o bem?

MALDADE

A gente não pode se enganar, aqui: no filme, fica claro que Brandon cresce como humano normal, até que a nave o “chama”, e a partir daí ele desperta suas habilidades e desejos. Mas na verdade, ele já dava indícios de suas compulsões o tempo todo, os pais apenas não percebiam. A forma como ele desenha no caderno, ou seus interesses escusos são exemplos. Por outro lado, a relação dos pais também é problemática. A ideia de amar o filho incondicionalmente nos faz não querer ver quando ele está agindo estranho. “Ele é só um adolescente”. De fato, é uma fase muito miserável e cruel para os pais, de ver seus “bebês” crescerem e responderem por si. Mas também, deliberadamente ignorar indícios de problemas com suas crianças é terrível.

PRÉ-DISPOSIÇÃO

Por outro lado, se o filme é uma metáfora, ele se baseia numa tese que me preocupa: a predisposição para a maldade. Pessoas podem simplesmente nascer ruins e pronto. É claro que existem os psicopatas e os sociopatas, “todo mundo” já ouviu falar sobre eles. Mas fico me perguntando, e aqui eu admito minha falta de conhecimento, o quanto de tais transtornos são “congênitos”, e o quanto são ocasionados pelo desenvolvimento. Esta matéria do ano passado aponta que é uma consequência do amadurecimento, eu tendo a ir mais para essa área. Por que isso é importante? Porque, se o filme é uma metáfora, com base nessa informação, ele se torna uma metáfora falha. Crianças não nasceriam “más”. Até porque (e isso é importante), o mal é uma construção social. Vikings não viam como maldade ir para a guerra. Certas populações nativas não viam como maldade comer os adversários derrotados. Nossa sociedade não vê como maldade que pessoas deem o pouco dinheiro que tem para instituições religiosas. O conceito de bem e mal varia com o tempo, com o local, e com as pessoas.

VOLTANDO

Foi mal, divaguei de novo. Voltando ao filme: ele é muito bom. Não só como contraponto ao superman ele é interessante, é um filme muito bom mesmo. A direção de som é impecável, e a de fotografia é igualmente excelente. Inclusive, o diretor David Yarovesky está de parabéns pela composição da obra. O roteiro escorrega em alguns momentos, mas não afeta a qualidade final da narrativa.

Menção especial aos 3 atores principais, principalmente Tori (Elizabeth Banks) e Brandon (Jackson A. Dunn). Inclusive esse moleque me causou muito medo, e eu não passaria perto dele na rua.

GORE

Caralho, isso tá caprichado. Nos trailers dá pra ver algumas cenas de puro horror com sangue, mutilação e tal. Pois é, tudo isso você vai encontrar aqui. Muito mais, até. NÃO É UM FILME PARA PESSOAS SENSÍVEIS. Tem mutilações, perfurações, partes do corpo que desencaixam quando não deveriam. Tá tudo MUITO bem feito, a produção é incrível. Mas assim… não é todo mundo que vai aguentar ver.

Se você acha que pode segurar, eu recomendo que vá em frente, e não vai se arrepender. É mais um excelente filme do gênero “seres superpoderosos”.

PARA FECHAR

Faltou apenas falar: apesar de ter suas 1:31hs, ele ainda é um filme de introdução. Ou seja: tem MUITA construção de personagem. Talvez por isso ele seja um filme de cadência lenta. Ele tem cenas de ação que estão espalhadas entre muitas cenas de conversa e observação. E talvez tenha faltado explorar um pouco além das próprias capacidades. Imagino o quanto dessa limitação não veio por medo de receber processos da Warner. Não sei dizer.

É possível que não seja uma série. Que ele acabe só nesse e pronto. Mas parece evidente que haverão mais.

Vou ficando por aqui. Abraços a todos, e até logo!

Falando de algum lugar no universo - Fernando Medeiros

Graduado em Ciência da Computação, pai de dois cachorros, sommelier de memes. Criador do (então) falecido Cinenerd.

Deixe um Comentário