Quem não ama um bom suspense? Um enredo que te prenda na pontinha da cadeira, em desespero para saber o desfecho? Erased é exatamente assim, um anime que entrega um bom enredo, bom suspense e uma conclusão doce e esperançosa.

Boku Dake ga Inai Machi, ou Erased em seu nome em inglês, é um mangá seinen que foi lançado no ano de 2012, pela revista Young Ace, e em 2016 seu material original foi adaptado para um anime de 12 episódios, transmitido pela Fuji TV. O anime é escrito por Kei Sanbe, que apesar de ter outras obras no currículo, acabou conhecido por Erased.

Sinopse
O anime nos conta a história de Satoru Fujinuma, um mangaká fracassado de 29 anos, que trabalha como pizzaiolo para se sustentar, ao não conseguir êxito perseguindo seu sonho. Apesar de levar uma vida maçante, Satoru carrega um segredo consigo, ele é detentor de um poder chamado Revival, uma habilidade que o permite voltar no tempo entre um e cinco minutos e evitar que algo de ruim aconteça. E já no primeiro episódio de Erased nós observamos Satoru utilizando sua habilidade para salvar a vida de um garoto em perigo.

Super Poder – Revival
Revival funciona como um déjà-vu , Satoru sente um incômodo, uma sensação de que algo não está indo de acordo com o planejado, e usualmente esse momento é marcado por uma borboleta azul cruzando seu caminho. Se você é como eu e enxerga alegorias e simbologias em tudo, já te adianto que a borboleta é símbolo de transformação, de renascimento, metamorfose. Por essa razão acredito que sua utilização como gatilho dos momentos de déjà-vu vu do Satoru em Erased cai como uma luva.

Com grandes poderes vem grandes responsabilidades, ou no caso do Satoru várias dores e problemas. Calma, eu explico. Apesar de possuir a habilidade de ajudar os outros, o Satoru acaba sempre se envolvendo em enrascadas ao fazê-lo, já que o mesmo não é nenhum super herói. Ao salvar o menino que atravessava a rua no primeiro episódio, ele se envolve num acidente de moto e vai parar no hospital. E é lá que nós somos apresentados a primeira conexão importante do Satoru: Airi Katagiri.

Enredo
Airi é uma colega de trabalho com quem o Satoru não possui tanta proximidade, porém é a primeira pessoa que ele vê ao acordar do seu acidente. Airi é jovem, bonita e despreocupada, ela exala tudo aquilo que o Satoru não tem, frescor, e de cara podemos perceber que a conexão que se estabelece entre eles deve ser valorizada. Após sair do hospital, Satoru vai para casa, onde nós somos apresentados a personagem mais bonita e complexa de toda a trama em minha opinião, sua mãe. Sachiko Fujinuma é uma mulher de 52 anos, extremamente perspicaz e inteligente, que possui um humor seco e olhos de águia.

A relação de Sachiko e Satoru não é das melhores, ele se refere inúmeras vezes a ela como monstra/maldita em sua cabeça, o que me fez antipatizar bastante com ele. Tudo bem que jeito mordaz e um tanto espaçoso de sua mãe provavelmente significa que nem tudo foi flores entre eles sempre. Satoru e sua mãe acabam fazendo compras e ele tem um revival, e por não conseguir identificar o que estava para acontecer, Satoru pede ajuda a Sachiko. Por sua vez, ela percebe que um homem tentava entrar num carro com uma criança. Sua perspicácia impede o sequestro, deixando ela com a pulga atrás da orelha, por crer que o sequestrador havia lhe reconhecido.

Por causa deste momento, Sachiko acaba por se recordar dos assassinatos/sequestros que aconteceram quando seu filho era jovem em sua terra natal, e acaba por recobrar quem era o homem no estacionamento do mercado. E por essa razão, ela é esfaqueada na sala da casa de Satoru. E é aí que Erased fica interessante. Ao chegar em casa Satoru cruza com o assassino na escada, porém adentra o apartamento sem perceber o que acontece, e obviamente cai como um pato na cena montada para que ele seja tido como culpado pela morte da mãe.
Ao fugir dos policiais, Satoru é remetido ao passado num revival novamente, para 1988, quando ele ainda era apenas uma criança, antes que os assassinatos de Kayo Hinazuki, Ana Nakanishi e Hiromi Sujita aconteçam. Decidido a mudar o passado, na tentativa de alterar o futuro, Satoru se compromete em salvá-los.

O que torna Erased atrativo?
Durante os 12 episódios de Erased, nós somos confrontados com um conceito simples, porém aterrador. Se a vida de alguém dependesse de você até onde você iria para salvar essas pessoas? Mais importante, se essa pessoa não fosse um ente querido, se fosse apenas um estranho, ainda sim você se empenharia para mudar o mundo, para transformá-lo, ainda que você pudesse se prejudicar por isso?

Por ser uma obra multifacetada, existem vários temas que são plano de fundo para Erased, desde o abuso infantil sofrido por uma das personagens da série, da pedofilia e psicopatia do vilão, da apatia que nos domina diante das situações corriqueiras, oportunidades perdidas, da solidão… Em maior ou menor quantidade todos estes temas fazem parte da obra e são tratados com o devido respeito e importância, todavia o que me tocou em Erased foi a esperança e o altruísmo.

Personagens
Começando por Satoru, a obra nos apresenta um herói comum e provável, alguém que em face do perigo decide sempre se arriscar pelos outros. Apesar de inerentemente bom, Satoru não é um personagem carismático, ele é essencialmente simples e sem grandes destaques, o que o separa dos outros é aprender os ensinamentos dos que o rodeiam. Satoru é despretensioso, sem grandes aspirações, e talvez por isso proteger aos seus com tudo que ele possui seja sua grande qualidade. Existe um certo momento no anime em que Satoru é confrontado com o passado, e com tudo que lhe foi roubado, e o sentimento de perda nunca está lá. Pelo contrário, ele é forte e feliz porque foi capaz de salvar os outros e isso é o suficiente para ele.

Sachiko, mãe de Satoru, acabou sendo a menina dos meus olhos no anime. Desde o começo de Erased sua personalidade forte e perspicácia desconcertam seu filho, pois ela está sempre um passo à frente. Mãe solo, pois o pai de Satoru morreu quando este ainda era muito jovem, ela trabalha e cuida da casa, enquanto cria o filho com bons valores. Em momento algum ela recrimina, impede ou freia os comportamentos de Satoru, ela o encoraja e o ajuda, mesmo quando ele acredita não precisar dela, aparecendo providencialmente quando ele menos imagina. Sachiko se dedica a criá-lo como a coisa mais importante de sua vida, e fica claro que Satoru só é quem é por causa dela.

Airi Katagiri é o frescor adolescente de Erased, é a menina cheia de sonhos, que acredita em acreditar. Parece bobo quando dito assim, todavia, nós optamos pela descrença nas pessoas todos os dias, nos tornamos mais e mais cínicos e céticos, imóveis e descrentes. Airi se permite acreditar no Satoru quando todos lhe viram as costas, decide lhe fazer companhia quando não há ninguém para interceder por ele, e ajudá-lo quando ele nem ao menos pediu. Ela não faz isso apenas porque o Satoru precisa, Airi age como age porque ela também precisa se agarrar a algo na vida, porque ela também precisa de um sentimento bom para poder seguir em frente. Seu movimento de crença e altruísmo é uma forma de dar e receber na mesma medida.
Conclusão

Talvez por causa do Revival, sua ida ao passado e a doçura infantil, coragem e altruísmo são um marco forte de Erased, algo que permeia a obra e me proporciona uma saudade grande da minha própria visão infantil. Crescer nos abre os olhos e proporciona amadurecimento, mas também tira de nós certa impetuosidade, e esse potencial para acreditar e nos dedicar ao outro apenas para que ele também possa ser feliz. Por essa razão, apesar de ser uma obra de suspense com um plano de fundo policial, Erased para mim é uma obra sobre altruísmo e esperança, sobre o quanto é importante manter laços com a sua criança interior.

Erased para mim foi uma experiência diferente no mundo dos animes, que me levou a conclusões e sentimentos importantes. Espero que vocês tenham gostado, continuem lendo meus outros textos, críticas e sugestões são sempre aceitas! Um beijão e até o próximo!
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