Glitter, drama, plumas e hits bafônicos. Os anos 80 são sinônimo de tudo isso e mais um pouco no nosso imaginário, todavia nem só de beleza viveu a comunidade negra e Lgbt+ nesta época. Sem medo de nos apresentar um pouco da realidade Nova Yorkina, Pose é uma obra com uma mescla genial de momentos tristes e felizes, embebido em pompa, circunstância e um sentimento gostoso de acolhimento que poucas séries conseguem passar.

Nova York, 1987, os Bailes são o ponto de encontro da comunidade Lgbt+, um espaço onde Walking the Runaway, é mais do que apenas desfilar looks e estilos. É um espaço de afirmação, onde homens e mulheres vão para conquistar a glória. Em meio a plumas e paetês, Pose nos apresenta a vida de cinco personagens: Blanca, Elektra, Angel, Damon e Pray Tell.

A série começa nos apresentando um grupo de pessoas que fazem parte de uma casa, The House of Abundance, comandada por Elektra Abundance – interpretada por Dominique Jackson, uma mulher transgênero negra que se denomina Mãe do grupo. Em troca de um lugar para ficar e um espaço para desfilar nos bailes, os participantes da casa são tratados como lacaios por Elektra, o que varia de fazer seus drinks, a ter suas ideias e conceitos roubados por ela. Somos então introduzidos a Blanca, personagem principal de Pose, interpretada por Mj Rodrigues.

Blanca é uma mulher transgênero latina, que de cara transparece aquilo que é, forte, determinada, dona de um coração gigante e cheia de vontade de viver. Ainda no primeiro episódio de Pose, Blanca realiza o teste de HIV e recebe um resultado positivo. Não sei o quanto vocês conhecem da história do HIV ao longo dos anos, mas um resultado positivo nos anos 80 era uma sentença de morte certa. Todavia, para Blanca, o que acontece é justamente o contrário.
Impulsionada pela rasteira que a vida acabara de lhe dar, ela decide abandonar The House of Abundance e montar sua própria casa. Chega a pedir a benção de sua mãe Elektra, que não só nega, mas declara guerra imediata a ela. Tendo em vista que determinação é seu nome do meio, isso não pára Blanca, ela aluga uma casa, e começa a recrutar pessoas, leva Angel, ex- companheira da antiga casa, recruta Damon, Papi e Ricky das ruas, onde ambos estavam vivendo, e aos poucos eles constroem uma pequena família.

Todos os personagens que nós acompanhamos em Pose são multifacetados, e apesar de que a primeira temporada não efetivamente se dedique a nos apresentar todos por completo, nós temos vislumbres constantes do quão reais estas histórias são, e da importância gigante delas serem contadas.
Ao acompanhar a história de Blanca, uma mulher transgênero que foi expulsa de casa e alienada de seus familiares, mas que ainda sim tem tanto amor no seu coração, que não só recebe esse grupo de pessoas em sua casa, mas dá a eles um lar, amor e oportunidade para que possam seguir em frente com destinos dignos. A aspiração dela em ser líder de uma casa e ganhar troféus nos bailes, é ofuscada pelo feroz desejo materno que ela possui em seu peito, pela vontade de cuidar, de amar e ser amada por uma família que lhe foi negada.

Enxergar Elektra, uma mulher que no momento vivia em opulência, às custas de um homem que lhe dava tudo que ela desejava financeiramente, mas que recusava dela seu único sonho, a operação de readequação sexual. O homem com quem ela dividiu uma vida por dez anos se recusou a permitir que ela conquistasse seu único desejo, um nível de egoísmo absurdo, mas que provavelmente já aconteceu e acontece com inúmeras mulheres em situações similares por aí. Assistir aquela mulher escolher a si mesmo, lutar e florescer enquanto ser humano por isso, foi uma experiência tão recompensadora que eu não tenho palavras para descrever.

O mesmo pode ser dito da jornada de Angel, retratada por Indya Moore. Outra mulher transgênero, que por não possuir educação ou meios acaba na prostituição, mais uma pessoa Lgbt+ rejeitada pela família por ser quem era, que acaba encontrando migalhas de amor em homens problemáticos e confusos. Ou ainda de Damon, vivido por Ryan Jamaal Swain, o menino gay que após descoberto pelos pais é humilhado, chutado de casa e confrontado com o discurso de que seu caminho não é natural, e desagrada os olhos de Deus. Quantos de nós não ouvimos que o fogo do inferno é o único caminho que nos aguarda?

Ao abordar as mazelas do HIV, e provavelmente um dos maiores choques de realidade e tristezas na série, seguimos Pray-Tell – o maravilhoso Billy Porter, o locutor dos bailes, aquele ser humano com a personalidade mais extrovertida do universo, ser confrontado de novo e de novo com o preconceito existente, mesmo dentro dos hospitais, pelas pessoas na ala de HIV. Apesar de não se aprofundar, e melhor ainda, não fazer de palco uma das piores epidemias que já assolou o mundo, existem momentos tão crus e doloridos em Pose, que você se pergunta como aguentamos tanto até aqui. Quando o mundo inteiro vira as costas para você pelo que você é, quando mesmo dentro da sua própria comunidade você enfrenta preconceito, quando a sua família não te entende e te rejeita, como você segue?

A resposta que Pose dá pra isso é uma que as “minorias” descobriram a muito tempo. Família. Comunidade. Um sistema de suporte. Laços tão importantes e, em minha humilde opinião, muito, muito mais valorosos do que sangue. Pessoas que escolhem você todos os dias, não por motivos ou interesses ulteriores, e sim por crer que precisar dos outros não é uma vergonha. Que oferecer suporte é o caminho, que dar e receber amor num mundo cínico e tão, tão duro, é um ato de bravura, de coragem, é necessário. A série se constitui inteiramente nisso, um grupo de pessoas que decidem formar uma família, um sistema de suporte que lhes foi negado, mas que no fim do dia vai estar lá para você.

Blanca Evangelista é a incorporação de tudo isso em Pose, e posso ser extremamente tendenciosa aqui, mas um dos melhores personagens que eu descobri neste ano. Acredito piamente que laços amorosos, principalmente os fraternos são o que te seguram na vida, pois só quem já bateu no fundo do poço, entende a importância de uma mão estendida para te ajudar a subir. A escalada ainda é sua, os problemas da vida ainda são seus e você ainda precisa amadurecer e se virar sozinho, mas ter alguém genuinamente disposto a te oferecer amor e suporte faz toda a diferença.

Se toda a minha verborragia sentimental não te convencer a assistir Pose, aqui algumas informações técnicas sobre a série: Pose debutou pelo FX em 3 de junho de 2018, foi renovada para a segunda temporada que estreou em 11 de junho de 2019 e sua terceira temporada já está confirmada para 2020. A série é produzida pelo Ryan Murphy, aquele mesmo que ficou famoso por produzir Glee e vem fazendo um trabalho espetacular com American Crime Story.

Seu cast é o primeiro a ser composto por mais de 50% de atores transgênero interpretando personagens transgênero, o que é um avanço e uma lufada de vento fresco na indústria hollywoodiana. Como se isso não fosse suficiente, nós temos um total de 4 personagens brancos recorrentes na série inteira, deixando um leque de diversidade necessário e a muito gostoso de se assistir. Com uma média maravilhosa de 96% no Rotten Tomatoes e críticas extremamente positivas, Pose conta com seis indicações ao Emmy de 2019 e fez história ao ser o primeiro seriado com elenco de maioria trans a ser indicado ao Globo de Ouro.

Como sempre espero que vocês tenham gostado, que vocês assistam Pose e se apaixonem como eu, e que continuem acompanhando meus outros textos aqui no Maratona! Beijão e até o próximo.