Midsommar – não vá que é barril

Midsommar – não vá que é barril

Olha… eu tô meio… sei lá. Bem, o que dá pra dizer é: que bom, um filme sobre rituais tribais “selvagens” cuja sociedade mostrada não é nem africana, nem americana nativa, nem asiática. Midsommar: O Mal Não Espera a Noite (Midsommar, 2019)

Poster oficial. Num close que pega apenas metade do rosto de Dani, aparece a mesma usando uma coroa de flores, e chorando do olho esquerdo. No centro, lê-se "Let the festivities begin. July 3", e abaixo, "from Ari Aster director of Hereditary, Midsommar"

SINOPSE

Passando por problemas familiares seríssimos, Dani (Florence Pugh) “se convida” para se juntar ao grupo do namorado, Christian (Jack Reynor). Eles estão de passagens compradas para a Suécia, onde vão para o vilarejo de Pelle (Vilhelm Blomgren), conferir um ritual de solstício muito antigo.

da esquerda para direita: Dani, Pelle (Vilhelm Blomgren) e Christian, chegando no vilarejo com suas mochilas e roupas ocidentais. A câmera está fechada neles, então não é possível ver completamente o arco pelo qual passaram (é um arco de madeira em forma de sol). Ao fundo, vegetação de árvores com copas vastas.
Chegueeeei…..

IMPORTANTE

Temos que dar um aviso logo no começo: Midsommar pode te despertar gatilhos, caso você tenha um histórico de depressão ou ansiedade. Algumas cenas são verdadeiros tutoriais de como acabar com a vida de alguém (inclusive a sua própria). O Maratona recomenda cautela a todo espectador que se achar suscetível a tais estímulos. 

Mark, em primeiro plano, com o corpo virado para a esquerda do leitor, olhando para a direita do leitor. ao fundo, o templo em forma triangular, amarelo com suas portas azuis abertas.
O que o Bill Cypher tá fazendo aqui?

SOBRE HEREDITÁRIO

Hereditário (Hereditary, 2018) é o tipo de filme que te faz lembrar o nome do diretor, Ari Aster. Esperamos curiosos os novos trabalhos. É um ótimo exemplo de horror bem executado.

Mas, quando consumimos alguma coisa de autoria conhecida, por mais que a gente não espere uma repetição, é normal que se queira reconhecer elementos ali.

Da esquerda para direita, Christian, Josh e Mark, sentados em mesas de madeira de jardim, com cálices servidos a sua frente.
Cuidado…

ESQUISITO

Midsommar é bem diferente. Não estou dizendo que é original. Mas a estrutura de terror que estamos acostumados… você não vai ver ali. Você ficará tenso o tempo todo, quase sem momentos de alívio. Mas tenso de uma forma quase linear. Tem poucos picos, e também poucos vales, nesse “gráfico da angústia”. Poucos (diria nenhum) momentos catárticos. Como boa parte dos filmes de terror, acontecem mortes, é claro. Mas algumas delas nem são mostradas, são no máximo mencionadas.

a imagem cobre quase todo o pé direito da construção dormitório. ao centro e abaixo da imagem, Vilhelm Blomgren, Florence Pugh e  Ari Aster conversam (os dois primeiros sentados numa cama, o ultimo encostado num pilar de madeira). várias camas aparecem lado a lado, e nas paredes do dormitório, várias ilustrações e runas estão grafadas.
Diretor conversando com atores

QUE NERVOSO…

Mas já que falamos da angústia, vamos a ela. Pois afinal, é a grande qualidade do filme: te deixar nervoso o tempo todo. A estranheza acompanha a percepção de Dani, e de todos os forasteiros que estão em Hårga. O que inclui você. Esse sentimento é conduzido com maestria pela trilha sonora, que sempre remete a algo sagrado, ao mesmo tempo que te mantém nervoso. Porém, é contrabalanceado pela fotografia, com suas cores vivas e sólidas. Além dos ícones e artes que aparecem o tempo inteiro. São ilustrações tão belas, que se você estiver desatento, não vai perceber os rituais macabros que elas revelam.

do centro para direita da imagem, vemos uma mesa de madeira, coberta, com pratos e copos servidos. em pé, próximos a ela, várias mulheres em pé. na ponta da mesa (centro da imagem), está posicionado um sino pequeno, numa estrutura de madeira. um garotinho está tocando-o.
OLHA A BÓÓÓÓIA!!!

MODO TUTORIAL

Essa é uma coisa importante: o filme te diz, o tempo todo, o que vai acontecer. É como se ele viesse com manual de instruções, como se te desse, sempre, um tutorial sobre o que esperar das próximas cenas. Isso, no geral, ocorre através de imagens. Mas algumas falas também são reveladoras. Midsommar exige atenção. Se possível, não cheguem atrasados na sala.

uma ilustração pintada em madeira, mostra várias garotas, usando túnicas brancas com estampas de flores e laços, dançando ao redor de um pilar de madeira
Olha a dica!

SECO.

Eu falei sobre poucos picos de tensão e de medo. De fato, são escassos, mas quando acontecem… Aster tem um gosto para o gore inacreditável. Já vimos isso no seu trabalho do ano passado, mas aqui é ainda mais explorado. Mortes secas, mutilações, paralisia… diversas vezes, sua angústia será testada. E quando você achar que o momento passou, calma… Tem mais um pouco. É difícil descansar em Midsommar.

Vemos vários habitantes do vilarejo, com suas túnicas brancas. em primeiro plano, um senhor segura uma marreta de madeira, que tem quase sua altura. a cabeça da marreta tem o tamanho do seu antebraço.
Esperem…

EXPECTATIVA – SEMPRE ELA

Mas talvez (e isso é um talvez) você deixe a sessão de Midsommar um pouco… Decepcionado. Porque é ruim? Não! Porque estamos tão acostumados a outro tipo de terror, que esse aqui será surpreendente, de uma forma que talvez não lhe agrade. Não se deixe enganar, a culpa não é da película. Por outro lado, em diversos momentos, me senti vendo não um filme narrativo, mas sim um “documentário narrativo” (?), onde vamos sendo apresentados às pessoas, aos costumes, a comida, os rituais, os valores. Talvez seja até mais interessante que os personagens. 

em primeiro plano, uma mulher, andando, de costas, borrada. ao centro (e ao fundo) vemos Maja, olhando para você
Olhar de sereia… ou medusa

CONCLUINDO

Midsommar é um filme angustiante que pode não agradar todos os públicos, mas que ainda assim, vale a pena ser visto. Eu só cheguei nesse veredito agora, porque a verdade é que eu saí da cabine extremamente confuso com relação ao que eu sentia. Não vão assistir com o espírito de quem vai ver um slasher, ou irão se decepcionar. No mais, aproveitem!

uma pessoa está abaixada, ajoelhada. só enxergamos da parte de cima das costas para cima. sua cabeça está abaixada. suas mãos, ensanguentadas, se apoiam numa pedra lisa, onde estão gravadas diversas runas.

MINI-CAST

Tá na mão! Lembrem de nos seguir no Deezer, no Spotify, e de assinar nosso feed.

<iframe width=”100%” height=”195″ src=”https://www.megafono.host/podcast/maratona-de-sofa/e/minicast-midsommar-o-mal-nao-espera-a-noite” frameborder=”0″ allowtransparency=”true”></iframe>

MOMENTO P.S. (PODE SPOILER)

Ok, vocês já sabem, daqui pra frente eu vou falar cenas do filme, então por favor, voltem aqui depois de terem assistido.

RACISMOS

Começar falando de uma curiosidade que eu achei divertida (e já pincelei na introdução): depois de tanto tempo vendo filmes sobre cultos tribais nas Américas, na África, e na Ásia, é muito divertido que Midsommar seja sobre um “ritual” e uma “tribo” na Europa (por mais que seja, também, isolada). É bom mudar um pouco, pra variar.
Ainda sobre preconceitos, nesse filme eu não vi o(s) personagem(ns) negro(s) morrendo por simples preguiça do diretor. São dois negros, uma “marrom” (é difícil afirmar a ascendência da Connie (Ellora Torchia)), e todos morrem de acordo com suas ações, de forma coerente. Por outro lado (e essa reflexão não é minha), é uma sociedade muito branca que elimina os diferentes primeiro, se vale dos mais parecidos, e integra apenas um dos estrangeiros. Então… talvez ainda existam questões aí.

Josh, ao lado de um ancião do vilarejo. o velho segura um livro em mãos, e olha para Josh. o segundo olha na direção do leitor. estão numa sala fechada, escura.
Leiam o livro…

RELACIONAMENTOS

Midsommar trata muito um relacionamento quebrado, mantido apenas pelos medos e conveniências. Então, dica do tio: não faça isso. Seja honesto com seu parceiro/a, conversem sobre seus problemas, suas angústias, suas necessidades… estejam prontos para se sacrificar pelo outro, MAS SE VOCÊ ESTIVER DISPOSTO A TAL. Se não for esse o caso, talvez seja melhor que vocês não fiquem juntos. Até porque, é melhor não acabar parando num vilarejo que tem uns rituais macabros.

no dormitório, sentados numa cama, está Dani, mãos nos joelhos, chorando. na sua direita (esquerda do leitor) está Pelle, com a mão em suas costas, consolando-a
Ombro “amigo”

FODA-SE

Sobre o grupo de forasteiros: todo mundo se dá mal, e na boa? Ainda bem. Eu não sou muito a favor de Hårga, não. Pelo contrário, eu achei muito esquisita a dança feita para ofender o Escuro, e a forma como deliberadamente enganam forasteiros. Mas na real, eu só gostava do Josh (William Jackson Harper) e da Dani. O primeiro, com ressalvas.

visão de cima de um circulo de mulheres dançando ao redor de um poste de madeira. à esquerda, um grupo de pessoas toca instrumentos musicais. no topo esquerdo da imagem, uma mulher, que controla os passos da dança e dos músicos
Só parar de dançar quando começar a me importar

É O DEMÔNIO…

Outra coisa: Aster tem um lance pesado com rituais ocultistas. Em Hereditário, uma influência forte da goétia. Nesse, runas aparecem o tempo inteiro. Quero ler o máximo que puder (com o tempo que eu tenho) sobre os mistérios do filme, e quando for possível, quero assistir ele com a possibilidade de ir pausando a cada cena, para decifrar mistérios. Claro, já saíram textos muito bons sobre as referências.
Seria o templo amarelo uma referência ao Rei de Amarelo?

mais uma ilustração sobre a madeira. mulheres estão representadas dentro da água, segurando tochas. ao fundo, uma bola está pegando fogo (provavelmente, representando o por do sol)
eita porra…

MONALISA

Por fim, o sorriso do final levou a longos debates entre quem saiu da cabine. Era o sorriso de quem teve sua vingança; de quem está profundamente envolvida com o ritual; de quem reconhece que foi aceita pela comunidade; ou de quem surtou de vez? Note que a Dani só demonstra real alegria em dois momentos: na dança da Rainha de Maio, e no ritual final de cremação. Na dança, essa alegria demora a vir, e ainda é interrompida nos momentos em que ela para pra observar Christian. Ou seja, pode ter vindo apenas da euforia da atividade física (minha teoria), ou da aceitação que ela encontrou no momento. Seja lá o que for, entra para o hall de sorrisos enigmáticos da história da arte.

Dani, vestida de flores, coroada por flores, e com flores ao fundo.
Sorria!

Falando de algum lugar no universo - Fernando Medeiros

Graduado em Ciência da Computação, pai de dois cachorros, sommelier de memes. Criador do (então) falecido Cinenerd.

Deixe um Comentário