Olha… eu tô meio… sei lá. Bem, o que dá pra dizer é: que bom, um filme sobre rituais tribais “selvagens” cuja sociedade mostrada não é nem africana, nem americana nativa, nem asiática. Midsommar: O Mal Não Espera a Noite (Midsommar, 2019)

SINOPSE
Passando por problemas familiares seríssimos, Dani (Florence Pugh) “se convida” para se juntar ao grupo do namorado, Christian (Jack Reynor). Eles estão de passagens compradas para a Suécia, onde vão para o vilarejo de Pelle (Vilhelm Blomgren), conferir um ritual de solstício muito antigo.

IMPORTANTE
Temos que dar um aviso logo no começo: Midsommar pode te despertar gatilhos, caso você tenha um histórico de depressão ou ansiedade. Algumas cenas são verdadeiros tutoriais de como acabar com a vida de alguém (inclusive a sua própria). O Maratona recomenda cautela a todo espectador que se achar suscetível a tais estímulos.

SOBRE HEREDITÁRIO
Hereditário (Hereditary, 2018) é o tipo de filme que te faz lembrar o nome do diretor, Ari Aster. Esperamos curiosos os novos trabalhos. É um ótimo exemplo de horror bem executado.
Mas, quando consumimos alguma coisa de autoria conhecida, por mais que a gente não espere uma repetição, é normal que se queira reconhecer elementos ali.

ESQUISITO
Midsommar é bem diferente. Não estou dizendo que é original. Mas a estrutura de terror que estamos acostumados… você não vai ver ali. Você ficará tenso o tempo todo, quase sem momentos de alívio. Mas tenso de uma forma quase linear. Tem poucos picos, e também poucos vales, nesse “gráfico da angústia”. Poucos (diria nenhum) momentos catárticos. Como boa parte dos filmes de terror, acontecem mortes, é claro. Mas algumas delas nem são mostradas, são no máximo mencionadas.

QUE NERVOSO…
Mas já que falamos da angústia, vamos a ela. Pois afinal, é a grande qualidade do filme: te deixar nervoso o tempo todo. A estranheza acompanha a percepção de Dani, e de todos os forasteiros que estão em Hårga. O que inclui você. Esse sentimento é conduzido com maestria pela trilha sonora, que sempre remete a algo sagrado, ao mesmo tempo que te mantém nervoso. Porém, é contrabalanceado pela fotografia, com suas cores vivas e sólidas. Além dos ícones e artes que aparecem o tempo inteiro. São ilustrações tão belas, que se você estiver desatento, não vai perceber os rituais macabros que elas revelam.

MODO TUTORIAL
Essa é uma coisa importante: o filme te diz, o tempo todo, o que vai acontecer. É como se ele viesse com manual de instruções, como se te desse, sempre, um tutorial sobre o que esperar das próximas cenas. Isso, no geral, ocorre através de imagens. Mas algumas falas também são reveladoras. Midsommar exige atenção. Se possível, não cheguem atrasados na sala.

SECO.
Eu falei sobre poucos picos de tensão e de medo. De fato, são escassos, mas quando acontecem… Aster tem um gosto para o gore inacreditável. Já vimos isso no seu trabalho do ano passado, mas aqui é ainda mais explorado. Mortes secas, mutilações, paralisia… diversas vezes, sua angústia será testada. E quando você achar que o momento passou, calma… Tem mais um pouco. É difícil descansar em Midsommar.

EXPECTATIVA – SEMPRE ELA
Mas talvez (e isso é um talvez) você deixe a sessão de Midsommar um pouco… Decepcionado. Porque é ruim? Não! Porque estamos tão acostumados a outro tipo de terror, que esse aqui será surpreendente, de uma forma que talvez não lhe agrade. Não se deixe enganar, a culpa não é da película. Por outro lado, em diversos momentos, me senti vendo não um filme narrativo, mas sim um “documentário narrativo” (?), onde vamos sendo apresentados às pessoas, aos costumes, a comida, os rituais, os valores. Talvez seja até mais interessante que os personagens.

CONCLUINDO
Midsommar é um filme angustiante que pode não agradar todos os públicos, mas que ainda assim, vale a pena ser visto. Eu só cheguei nesse veredito agora, porque a verdade é que eu saí da cabine extremamente confuso com relação ao que eu sentia. Não vão assistir com o espírito de quem vai ver um slasher, ou irão se decepcionar. No mais, aproveitem!

MINI-CAST
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MOMENTO P.S. (PODE SPOILER)
Ok, vocês já sabem, daqui pra frente eu vou falar cenas do filme, então por favor, voltem aqui depois de terem assistido.
RACISMOS
Começar falando de uma curiosidade que eu achei divertida (e já pincelei na introdução): depois de tanto tempo vendo filmes sobre cultos tribais nas Américas, na África, e na Ásia, é muito divertido que Midsommar seja sobre um “ritual” e uma “tribo” na Europa (por mais que seja, também, isolada). É bom mudar um pouco, pra variar.
Ainda sobre preconceitos, nesse filme eu não vi o(s) personagem(ns) negro(s) morrendo por simples preguiça do diretor. São dois negros, uma “marrom” (é difícil afirmar a ascendência da Connie (Ellora Torchia)), e todos morrem de acordo com suas ações, de forma coerente. Por outro lado (e essa reflexão não é minha), é uma sociedade muito branca que elimina os diferentes primeiro, se vale dos mais parecidos, e integra apenas um dos estrangeiros. Então… talvez ainda existam questões aí.

RELACIONAMENTOS
Midsommar trata muito um relacionamento quebrado, mantido apenas pelos medos e conveniências. Então, dica do tio: não faça isso. Seja honesto com seu parceiro/a, conversem sobre seus problemas, suas angústias, suas necessidades… estejam prontos para se sacrificar pelo outro, MAS SE VOCÊ ESTIVER DISPOSTO A TAL. Se não for esse o caso, talvez seja melhor que vocês não fiquem juntos. Até porque, é melhor não acabar parando num vilarejo que tem uns rituais macabros.

FODA-SE
Sobre o grupo de forasteiros: todo mundo se dá mal, e na boa? Ainda bem. Eu não sou muito a favor de Hårga, não. Pelo contrário, eu achei muito esquisita a dança feita para ofender o Escuro, e a forma como deliberadamente enganam forasteiros. Mas na real, eu só gostava do Josh (William Jackson Harper) e da Dani. O primeiro, com ressalvas.

É O DEMÔNIO…
Outra coisa: Aster tem um lance pesado com rituais ocultistas. Em Hereditário, uma influência forte da goétia. Nesse, runas aparecem o tempo inteiro. Quero ler o máximo que puder (com o tempo que eu tenho) sobre os mistérios do filme, e quando for possível, quero assistir ele com a possibilidade de ir pausando a cada cena, para decifrar mistérios. Claro, já saíram textos muito bons sobre as referências.
Seria o templo amarelo uma referência ao Rei de Amarelo?

MONALISA
Por fim, o sorriso do final levou a longos debates entre quem saiu da cabine. Era o sorriso de quem teve sua vingança; de quem está profundamente envolvida com o ritual; de quem reconhece que foi aceita pela comunidade; ou de quem surtou de vez? Note que a Dani só demonstra real alegria em dois momentos: na dança da Rainha de Maio, e no ritual final de cremação. Na dança, essa alegria demora a vir, e ainda é interrompida nos momentos em que ela para pra observar Christian. Ou seja, pode ter vindo apenas da euforia da atividade física (minha teoria), ou da aceitação que ela encontrou no momento. Seja lá o que for, entra para o hall de sorrisos enigmáticos da história da arte.
