O filme “Maurice” de James Ivory acaba de estrear no serviço de streaming Petra Belas Artes à La Carte. O roteiro é uma adaptação do livro de E. M. Forster. Romance publicado de forma póstuma em 1971. A história acompanha o personagem Maurice Hall (James Wilby) enquanto descobre e reconhece sua própria homossexualidade ao se apaixonar pelo colega de faculdade, Clive Durham (Hugh Grant). Ambos vivem um amor subjugado pela sociedade.
Quando Clive declara seu amor a Maurice, este inicialmente reage de forma indiferente, mas se declarando também posteriormente. Porém, as ideias de amor que cada um tem são diferentes. Clive tem uma ideia mais platônica e acredita que a consumação pode estragar a harmonia da relação. Enquanto Maurice sente esse mesmo amor de forma mais romântica e intensa.

Um amor subjugado pela sociedade
Quando Forster escreveu o livro “Maurice”, em 1913, esta foi a forma como ele conseguiu lidar com a sua própria homossexualidade. Ele viveu em uma sociedade onde 20 anos antes, o escritor Oscar Wilde foi condenado à prisão por ser homossexual. Assim, ele optou pela publicação apenas depois de sua morte, pela obra conter características autobiográficas em uma época onde o simples fato de ser homossexual era considerado um crime na Inglaterra.

Assim, a figura de Oscar Wilde é evocada no personagem do Visconde Risley (Marc Tandy), colega de Maurice e Clive. Dessa forma, ele é preso ao se aproximar de um homem em um bar e condenado a 6 meses de prisão. Por fim o jornal anuncia que sua condenação foi por “imoralidade”.
Sentimentos a flor da pele
A princípio a forma como a sociedade condena a homossexualidade é apresentada na forma como Clive sente-se na obrigação de acabar com seu romance com Maurice. Ele não quer ser exposto e ter sua futura carreira política prejudicada. Bem como também nota-se na forma como Maurice procura ajuda médica, acreditando que sua sexualidade seja fruto de algum distúrbio.
Em suma a estrutura do filme constrói de forma natural e envolvente o progresso da descoberta da sexualidade de Maurice. A princípio de seu incômodo inicial ao ler sobre o ato físico do amor ao seu intenso desejo de consumir o amor que sente por outro homem. Em síntese, um amor subjugado pelas morais da época. Sentimos suas angústias quando surgem barreiras que impedem sua paixão e quando o mesmo sente-se culpado pelo que sente.

Diferença de classes
O filme também aborda a questão das diferenças entre classes sociais. Clive é da nobreza e tem aspirações políticas, enquanto Maurice é da classe média e trabalha na bolsa de valores. Sua segunda paixão, Alec Scudder (Rupert Graves) é da classe operária e funcionário da casa da família de Clive.
A divisão de classes era muito rígida na Inglaterra. O amor entre Maurice e Alec é duplamente ousado para época. Desta forma o filme aborda o tema da homofobia de forma duplamente questionadora, do ponto de vista social e cultural sobre uma sociedade intolerante, opressora e desigual.

Um amor subjugado conquista tudo?
A narrativa é permeada pela pergunta que guia qualquer relacionamento que enfrenta obstáculos: Um amor pode conquistar tudo? O filme mostra o trajeto do protagonista como uma busca pela felicidade. Uma busca ousada em um cenário excessivamente repressor e homofóbico.
Dessa forma, o filme constrói as relações afetivas entre os personagens de forma a mobilizar nossos sentimentos em relação às pressões que eles sentem em um ambiente, onde as paixões humanas e pelas artes são uma válvula de escape.
A luta do personagem para se aceitar e ser livre para viver sua vida como quer é sempre confrontada pelas morais cristãs que aparecem como obstáculos opressores a ele. Embora o filme seja de 1987 e baseado em um livro de 1913, sua história se mostra extremamente atual. O filme “Maurice” mostra o desespero de uma pessoa que luta contra sua própria essência. Maurice tem receio de ser julgado e condenado por padrões impostos pela sociedade.

Onde assistir
Enfim, o filme é um significativo libelo contra o preconceito e um incitador à luta pela liberdade. O Festival de Veneza aclamou-o. “Maurice” conquistou os prêmios de Leão de Prata (direção de James Ivory), melhor trilha sonora (Richard Robbins) e melhor ator aos protagonistas Wilby e Grant. Recentemente Ivory ganhou o Oscar de melhor roteiro adaptado por “Me chame pelo seu nome“. Ele é até agora o mais velho vencedor do Oscar.
Por fim, “Maurice” está disponível no serviço de streaming Petra Belas Artes à La Carte, que vai se mostrando cada vez mais, uma excelente escolha de serviço para qualquer cinéfilo, com uma ampla oferta de títulos.