Eu não sei vocês, ilustres leitores(as). Mas eu evito ter acesso a muitas informações sobre um filme ou jogo, antes de experimentá-lo, caso já tenha algum interesse. Isso normalmente significa evitar trailers, ficha técnica, e selecionar com bastante cuidado as leituras que faço sobre a obra. No entanto, existe uma categoria que pode subverter essa noção, que é quando o filme se trata de uma história “baseada em fatos reais”. Muitas vezes não se pode evitar conhecer o final de uma história, quando ela já é história. Há uma grande chance de que os aficionados pela Le Mans, por carros e corridas, conhecerão os personagens retratados neste filme, cheios de detalhes, características, fatos obscuros, e buscarão reconhecer cenas emblemáticas que esses personagens históricos viveram. A mim, que não pertenço ao grupo, foi a possibilidade de conhecer uma história sobre a relação entre homens e máquinas, sobre sonhos e dedicação, sobre limites e brio. O desconhecimento da história factual me permitiu conhecer os personagens projetados no filme, e de torcer por eles, celebrar com eles e lamentar com e por eles, sem que eventuais “erros” históricos me impedissem de aproveitar a história contada. Levando isso em consideração, farei o possível pra dizer como Ford x Ferrari constrói uma história bonita e gloriosa de heróis americanos num cenário de corrida dominado por outros países. E Christian Bale (Ken Miles) e Matt Damon (Carrol Shelby) fazem isso de maneira espetacular. Então vamos ao filme.

A raposa de vinte séculos e um cheque em branco

Eu já dei o tom dos atores que estarão no centro da história, mas posso garantir que todo o elenco foi cuidadosamente pensado e construído. Tracy Letts vive Henry Ford II (recorrentemente taxado de “The deuce” ou “o segundo”), um homem já velho e buscando superar uma crise que a empresa enfrentava. John Bernthal e Josh Lucas ajudam a compor esse núcleo Ford como executivos que terão papéis importantes, e é incrível como se percebe o alto nível de atores que muitas vezes exercem papéis de menor importância neste filme. Infelizmente apenas uma mulher ganhou destaque na história. Mollie Miles, interpretada por Caitriona Balfe, faz um trabalho excelente com algumas cenas maravilhosas. Ela, Christian Bale e Noah Jupe (Peter Miles, filho de Ken) compõem o núcleo principal do filme, a família Miles. Todos os personagens que exercem uma influência na história são retratados com bastante cuidado, e são habilmente interpretados pelos atores escolhidos. Mérito do diretor James Mongold, que recentemente fez Logan (2017), e também algo que o cinema americano de grandes produtoras como 20th Century Fox nos acostumaram e conseguem manter o tom ao longo dos anos. Como se um cheque em branco tivesse ditado toda a produção, que atingiu a bagatela de 97,6 milhões de dólares (Quase meio bilhão de reais hoje. Só). E é claro que nem sempre um filme caro significa um bom filme, mas pode ter certeza que é muito difícil que seja um filme feio, e Ford x Ferrari com certeza é um filme bonito.

Carros, pistas, luzes e principalmente velocidade!

E haverá tempo para pontuar uma outra lamentação a respeito do filme, mas o visual é impressionante. As cores em cenas abertas tem uma característica de tons de cores um pouco mais lavados, o que parece ser bastante comum em filmes que representam cidades estadunidenses na década de 40-60, reservando tons mais saturados para retratar década de 70-80, e o período mais soturno para os anos 90-2000 com filmes carregados em preto e tons terrosos. Num filme de carros, nas cenas em que as cores precisam saltar, elas estão lá chocantes e vivas, mas em geral o tom branco prevalece e nos oferece uma paleta bastante coesa do início ao final do filme. O cromado, o vermelho o amarelo e o verde serão as cores mais buscadas, e irão se complementar ricamente. A escuderia italiana será a principal responsável por pintar a tela de vermelho, quando for convocada, e a ford contará com uma paleta mais esbranquiçada.

A representação das cidades, da vida cotidiana aparece de maneira secundária, mas quando acontece é um prazer de ver as cenas de subúrbio e também na cidade. O escritório de Henry Ford II traduz a opulência de uma das maiores empresas de automotores, que enfrentava uma queda na preferência nacional, mas ainda era uma powerhouse. Em contraponto a casa de Ken Miles, localizada no subúrbio, é de uma simplicidade icônica e reconhecível nos mais diversos filmes em que vemos um subúrbio estadunidense da época. Somando a oficinas e pistas, temos uma vaga ideia de como o filme explora os espaços, e faz isso muito bem, construindo uma bela harmonia entre locações.

Mas são nas corridas que vemos o esforço fílmico, composto de efeitos visuais, sonoros e planejamento audiovisual geral! As corridas são sempre um espetáculo de se assistir, emocionando em cada pequeno pedaço muito bem elaborado, com câmeras que seguem o piloto, e as mais variadas tomadas externas mostrando a ação e coreografia que os carros são capazes de realizar. Algumas cenas de acidentes também são bastante convincentes, e a todo momento é difícil se desligar da atmosfera do filme.
Mas não é um filme sobre corridas?

É claro que quando a gente pensa num filme que, desde o título (Ford vs Ferrari) estabelece uma relação muito próxima com as montadoras, e vê que o filme se trata especificamente do início da participação da Ford na competição da Le Mans, dominada pela Ferrari (Na europa o título ficou como Le Mans 66), é possível que a expectativa seja de um filme muito concentrado na corrida. E embora haja muita, e ela seja o objetivo final, a história que dá suporte a essas participações é o que irá criar nossa relação de intimidade com os personagens e dará razão pela qual nos importaremos com o destino deles. Pesa ainda mais que em Ford vs Ferrari os personagens tenham sido trabalhados quase que idealisticamente. Ken Miles é um pai amoroso, um marido apaixonado, mas um homem cortante e direto. O que move a narrativa é que sua personalidade não o permite ser considerado um material promocional dos melhores, e isso causa uma disputa interna sobre pilotos escolhidos.

Dessa forma temos acesso apenas as evidências que tornam os personagens que admiramos durante o filme como pessoas de índole inquestionável, e quando demonstram agressividade existe uma justificativa “plausível”. De forma alguma isso estraga o filme, que é feito com aquela camada de uma realidade romantizada para que fique claro o lado bom e o lado mal do filme. Isso serve a um propósito funcional, mas é sempre bom que se atente para que não se absorva uma admiração indevida, e é aqui que eu faço minhas ressalvas. Nesse texto eu tentei ser justo ao filme que sinceramente me pareceu muito bem feito, e bastante bonito, mas é preciso que se diga que existe uma propaganda muito forte da cultura estadunidense, uma exaltação a seu papel na guerra, e claro, existe um heroísmo de personagens que reforçam o estereótipo da clássica família estado-unidense. A curiosidade é que o filme, ao mesmo tempo, faz críticas ao corporativismo, mas sem estender isso ao dono da(s) companhia(s) que são representados como pessoas admiráveis, ainda que rígidas e de grande ego.

E aqui podemos voltar ao verdadeiro motivo do filme. Se eu pudesse resumi-lo em uma palavra seria ego. Em duas, seria ego masculino. E isso certamente afastará uma boa parte de possíveis leitores(as), mas ainda assim é um filme que eu gostei bastante de assistir. E não posso deixar de dizer que o fato de ser homem, mesmo que não me encare como uma extensão estereotipada do gênero, tem sua dose de influência no que eu considero emocionante, no que considero interessante, e no que me causa incômodo. Se para você assistir filmes que estão centrados em universos masculinizados não é um problema, então acho que esse pode ser um filme bom. Mas lembre-se! Década de 60 nos USA!
Bandeira Quadriculada
Eu tentei nesse texto expor como me senti ao ir assistir o filme Ford vs Ferrari, e fazê-lo sem expor muito da trama. Eu reforço que foi um grande prazer assistí-lo e que me remeteu a tardes de domingo assistindo tv com a família. O típico filme de temperatura máxima que a gente assiste depois do almoço e fica ligeiramente comovido, e sente que as coisas têm um senso de propósito. Se você curte esse tempo em família com filmes que podem ter lá sua dose de controvérsia, acho que vai gostar desse. Em tempo, neste encerramento gostaria de dar um breve destaque pra trilha! É SENSACIONAL! Fui enganado pelo spotify que reúne uma lista de músicas que não estão no filme (mesmo sendo muito boas!), mas mal posso esperar pra escutar a trilha. Mas e você? Curte corrida e tava afim de saber mais sobre o filme? Sabe tudo sobre os personagens? Empolgou? Deixe seu recado na caixa postal! Abração!
