Natal é provavelmente minha época preferida do ano. Mesmo depois do ateismo, eu continuo gostando muito. Filmes de Natal nem sempre acompanham bem esse desejo de boa vontade e de paz entre os povos, mas tudo bem, de vez em quando vale a pena. Comédia, também, é um gênero de filme que eu costumo gostar muito. Eu rio com qualquer coisa, mesmo. O que sobra é a parte “romântica”. Que no geral, eu não tenho muito saco. Mas de boas, sempre tem alguma que acaba pegando a gente quando a gente não espera. Em que categoria Uma Segunda Chance para Amar (Last Christmas, 2019), o novo filme da Daenerys se enquadra?
(Essa vai ser a única referência à Game of Thrones esse texto)

SINOPSE
Kate (Emilia Clarke) era uma cantora prodigio na sua terra natal, mas agora em Londres, ela vive de audição em audição, de casa de amigo em casa de amigo, de cama em cama. Um estranho aparece, e faz ela olhar pra cima. E depois de tomar cocô de passarinho no olho, ela começa a enxergar as coisas de outras formas.

WHAM!
Pra gostar de Uma Segunda Chance, você precisa gostar de George Michael. Mas se você não gosta, você já tá errado a partir daí.
O nome original, Last Christmas, se baseia na música de George Michael (na época da Wham!), e todo Uma Segunda Chance é, de certa forma, uma homenagem ao cantor. As músicas dele embalam a trilha, e adaptações instrumentais dela são usadas como trilhas incidentais. Além de, claro, ter função prática na trama: Kate é uma cantora frustrada, cujo grande idolo é, justamente, George (desde a infância).

MÚSICA
Uma Segunda Chance não é um musical, mas música embala toda a narrativa. Kate sempre foi vista como cantora prodigio, e precisa conseguir a sua grande chance que vai fazê-la mudar de vida. Essa eterna espectativa, seguindo de audiencia em audiencia, como se fosse a unica coisa importante, é fundamental pra que a gente entenda quem Kate é: uma pessoa ao mesmo tempo, egoista e perdida. Alguem que não sabe muito bem o que quer pra vida, e pra sí. Não tem certeza de como resolver os proprios problemas. E que precisa de alguem que faça com que ela olhe um pouco pra cima de vez em quando. Aí que vem

TOM
(Henry Golding) não é estranho aos leitores do site. Ele esteve em Um Pequeno Favor e em Podres de Ricos. Aqui ele repete o papel de… Bom, cara perfeito. Bonito pra caramba, tem o coração no lugar, sabe ver o que é importante na vida das pessoas. Prestativo. Sabe reconhecer quando precisam de ajuda. Ja falei bonito pra caramba? A função dele é mostrar pra Kate que a vida, de vez em quando, pode ser mais saudável.
Isso é bem bacana em Uma Segunda Chance: você acompanha a evolução da personagem, e acredita na evolução dela. Não é dificil encontrar filmes em que a evolução da personagem seja muito brusca (Frozen, tô olhando pra você). E mesmo sendo uma mudança meio conservadora, ainda é bem feita, e você acaba concordando: O destino de Kate, realmente, era precisar de outra intervenção.
Só um detalhe antes de terminar de falar do Golding: Michelle Yeoh, que fez a mãe dele em Podres de Ricos, aparece de novo como Noel, a patroa de Kate. Curioso esse reencontro. O que me leva ao tópico que mais me agradou no filme (fora piadas. Eu rio de qualquer coisa)

– …Não.
DIVERSIDADE
Uma Segunda Chance é um filme MUITO diverso. A patroa de Kate, Santa, é chinesa. Tom não tem nacionalidade definida, mas claramente tem ascendencia asiática. Os amigos de Kate são variados, dentre negros, indianos e afins. Alba é negra. A própria familia de Kate, por mais que sejam brancos, não são londrinos: são emigrantes da iugoslávia, fugidos da guerra (que não fica clara, mas deve ser a do Kosovo). Essa mistureba é temperada com duas coisas que eu adoro: normalização, e denuncias. Todos os personagens tem suas etinias, e pronto. Isso não é questionado. Mas as denuncias ocorrem, quando por exemplo, Petra (Emma Thompson), mãe de Kate, se vê horrorizada com os movimentos separatistas que começam a aflorar em Londres. “Eles vão nos expulsar de novo!”. Tem tambem a cena do onibus, que eu não vou descrever. Enfim, o racismo existe, e o filme denuncia. E, discretamente, mostra como as coisas podem ser diferentes.

CONCLUINDO
Comédias romanticas são um gênero tão explorado, que acho que todas as histórias possíveis já foram contadas. É um genero que está em baixa, inclusive. Porém, não quer dizer que você não possa se surpreender com uma quebra de clichê aqui, uma cara nova alí, uma temática diferente acolá. Se você já é fã do gênero, NÃO DEIXE de conferir! E se você está curioso pela protagonista, saiba que a Emilia Clarke manda muito bem! Eu não sei muito bem porque tem gente que não gosta da atuação dela. Mas o casal principal é todo ótimo. Vale a pena dar essa chance.
Vou ficando pro aqui. Abraços!

MOMENTO P.S.
Vocês também não acharam o final do filme meio conservador demais? No final ela meio que vira boa moça, e só… Sei lá, me incomoda.
Uma das cenas mais interessantes de Uma Segunda Chance é quando Kate vai conversar com a mãe, sobre o medo que ela tem de ser expulsa da Inglaterra também. Em meio ao pavor, ela menciona “eu culpo os Poloneses”, e Kate olha para a câmera, quebrando a quarta parede. A mensagem é clara: não adianta usar o preconceito que você sofre contra outras pessoas.
Última coisa: olha, eu não disgosto de comédias romanticas. Não é meu estilo, mas eu fico na boa com elas. O que me ferra é como elas criam imaginário, e são nocivas pela criação de expectativas, sabe? Eu acho que comédias românticas deviam ser consideradas como se fosse alcool: Só são seguras de consumir (e com moderação) a partir dos 21 anos.
