Lembra que eu falei que ia começar a aparecer um monte de filme com cara de Oscar? Toma aqui mais um. Adoráveis Mulheres (Little Women, 2019)

SINOPSE
Adaptação do livro de 1868, escrito por Louisa May Alcott. Tivemos uma versão cinematográfica em 1994, e essa agora dirigida por Greta Gerwig. No contexto da guerra civil americana, uma família com uma mãe, uma ama, e 4 meninas, que tem que aprender a lidar com a pobreza, a solidão, os novos sentimentos, a vida como um todo.

PROBLEMAS PESSOAIS
Eu tenho dois problemas com Adoráveis Mulheres. O primeiro é que eu já tô um pouco cansado de drama de gente branca. Desculpa, são palavras duras, eu sei. Mas é verdade. Era a guerra civil, era uma luta não só por domínios de território e reunificação nacional, mas também pelo fim da barbárie que é a escravidão! Tem muito mais nesse período que poderia me interessar, do que essa história. Então eu peço desculpas de antemão, talvez eu não seja a pessoa indicada para fazer essa resenha.
O segundo problema é que a via de acesso que eu uso para chegar ao cinema onde aconteceu a cabine está em reforma, e o trânsito está um caos. Eu cheguei nele com meia hora de atraso. Perdão pelo vacilo.

TÍTULO
Fazendo pesquisa para escrever esse texto, uma cooisa fica clara: Little Women… Tá, eu preciso fazer um desvio antes. O filme teve o titulo nacional de Adoráveis Mulheres, o que é uma valorização ENORME ao nome em inglês, “pequens mulheres” ou “mulherzinhas”. Esse último, inclusive, é o título para o português, mesmo. A Wikipédia em inglês da obra lista duas possíveis epxlicações para o título. A primeira, dada por Sarah Elbert em A Hunger for Home: Louisa May Alcott’s Place in American Culture, indicaria que elas são mulheres pequenas ainda saindo da inocencia, entrando na idade adulta. A segunda, indicaria a necessidade de mostrar a posição inferior das mulheres na sociedade da época. É curioso que o título em português, apesar de valorisar as personagens, perde essas pequenas dimensões possiveis.

CONTEXTO
Bom, voltando. Fazendo a pesquisa, fica claro que Little Women é um livro americano clássico, um romance auto-biográfico, no qual Alcott se inspira na própria história, e na das irmãs. Porque isso é importante: nessa filme, percebem-se duas linhas temporais que se alternam. A priori, mostram passado e futuro, mas com um pouco mais de tempo nota-se que são as linhas da ficção e da realidade. Um pouco de pesquisa mostra que a “linha da realidade” ainda é romanceada. Ainda assim, é um dos pontos altos da narrativa, com o passado sendo marcado pelas cores puxando para o amarelo / dourado, quente e confortável como as lembranças de infância costumam ser. E o presente frio, azul e cinzento, como a vida adulta é. Verão e inverno.

ELENCO
Outra coisa fascinante em Adoráveis Mulheres é seu elenco. Saoirse Ronan (Jo), Emma Watson (Meg), Florence Pugh (Amy), Eliza Scanlen (Beth), Laura Dern (Marmee), Bob Odenkirk (o pai), Meryl Streep (Tia March), Chris Cooper (Sr. Laurence). São todos maravilhosos. Isto, somado às paletas de cores, e ao cenário bucólico do interior, torna o ato de assistir Adoráveis Mulheres muito prazeroso.

CONCLUINDO
Adoráveis Mulheres é outro filme lançado no período de premiações. Não a toa, recebeu diversas nomeações por vários festivais. A lista do Oscar sai na semana que vem, vamos ver se Little Women estará lá, também. De qualquer forma, se a narrativa sobre mulheres numa sociedade patriarcal nos Estados Unidos do século 19 lhe atrai, esse filme é para você. Sendo bem honesto, outros tipos de narrativa me atraem mais, porém no mínimo você vai ter uma experiência gostosa no cinema.

MOMENTO P.S.
Adoráveis Mulheres mostra a vida de jovens no século 19 dos Estados Unidos. De fato é uma narrativa interessante, mas um dos motores da história, o pai ter saido de casa para participar da Guerra Civil fica deixado de lado. Não deveria ser importante, mas tão pouco é falado sobre a escravidão, tão poucos negros aparecem em cena, que no final das contas eu me sinto deslocado da narrativa. O drama de pessoas brancas de classe média acaba me interessando muito pouco. E sim, eu sei que faz parte da história elas ficarem pobres devido às dificuldades. Só que mesmo durante o filme tem uma familia realmente pobre que nos dá um contraste real da situação: elas ainda tme uma casa grande, ainda conseguem ter uma ama, ainda tem uma tia rica a quem recorrer (o que não fazem, mas poderiam). Enfim…
Outras discussões no filme me atraem mais. A fala de Amy (Florence Pugh) sobre o casamento ser um contrato econômico é um dos pontos altos de Adoráveis Mulheres, e é um debate muito interssante. Outro momento já no fim, quando Jo debate o valor que receberá por sua obra, além dos direitos de cópia, demonstram sua sagacidade, e é um tapa na cara na industria editorial. Além de nos mostrar um fato inusitado: as cenas “douradas” não são lembranças do passado, são a versão idealizada das suas memórias impressas no livro. Genial.
