A frase batida acaba se provando válida repetidas vezes. “O cinema é uma máquina de empatia”. Mais que isso, nos permite conhecer histórias que passaram batidas. Kursk – A Última Missão (Kursk, 2019)

SINOPSE
Baseado no romance Kursk: A Time to Die, de Robert Moore . Em Agosto de 2000, durante um exercício militar, o submarino Kursk sofreu um acidente que o leva ao leito do mar e deixa os tripulantes que sobreviveram esperando por ajuda. Kursk, dirigido por Thomas Vinterberg, nos mostra os desdobramentos desse resgate.

MILITARISMO
Narrativas militares costumam chamar muita a atenção. São de fato muito interessantes, até pela perspectiva romântica que ainda temos de guerras. Kursk não é sobre grandes batalhas, é sobre o exército e politica. E não é sobre momentos gloriosos, mas sim, sobre um momento que deu errado.

CARECE DE FONTES
Como eu disse na introdução, o cinema nos ajuda a conhecer histórias que passariam batidas por nós. Em agosto de 2000 eu tinha 9 anos, e estava mais preocupado em brincar enquanto meu pai via tv. Ele estava vendo jornal, eu não podia ver desenho. Boris Casoy e William Bonner eram meus inimigos na infância. Hoje sinto falta de ter acompanhado melhor algumas coisas.
Por que sim, o caso Kursk teve uma repercussão internacional grande. Exercícios militares (como a universidade Xadrez Verbal nos ensina) mais do que um treinamento em grande escala, são também uma demonstração de poder. Não é de se estranhar que tais exercícios estejam sendo observados / espionados. Pelo contrário, isso é esperado. É uma forma de países demonstrarem seus poderios militares. Em 2000, pós Guerra Fria, com Vladmir Putin receém eleito, existia a necessidade de mostrar que a Rússia ainda era uma potência das artes da guerra.
Isso explica muita coisa que será abordada em Kursk, mas é um contexto que talvez falte ao filme. O nome de Putin não é citado, mesmo que essa crise tenha sido um dos grandes abalos à sua imagem. Também, tem uma visão muito ocidental da situação, onde os erros russos são potencializados, e as ofertas ocidentais são vistas como pura generosidade, ignorando a possibilidade (real) de espionagem.
Isso tudo é pra dizer que toda pesquisa que eu fiz sobre o Kursk foi posterior ao filme, e para escrever esse texto. Pra dizer, também, que ele está sujeito à visão das pessoas que escreveram o romance e o roteiro (Robert Rodat), que são ocidentais. Mas calma, que eu não vou passar pano.

OSCAR
Apesar de ser um filme sobre um submarino russo, com a marinha russa e tudo o mais; e de ter um elenco bem diverso com relação à países europeus; é curioso como existem poucos atores russos em Kursk, com destaque ao garontinho Misha (Artemiy Spiridonov). O que isso quer dizer? Um monte de coisas, mas sigamos.
Temos que lembrar que Janeiro é a temporada do Oscar, então um monte de filmes com “cara de Oscar” vão aparecer. E Kursk com certeza tem essa cara. Boas atuações dramáticas esperam o público no cinema, e são excelentes, sem questionamento. Se prepare, também, para sentir o desespero e a claustrofobia de um submarino a 100m de profundidade. Além, é claro, de momentos subaquáticos desesperadores. E se você, como eu, sofre de talassofobia, vai sentir muita agonia.

CONCLUINDO…?
Kursk é um caso histórico, é possível inclusive que você se lembre da repercussão e dos desdobramentos. Por isso, não seria exatamente um problema falar de alguns aspectos do mundo real aqui, mas vou deixar para fazê-lo na sessão P.S. É um filme muito recomendado, mas fica a dica: como máquina de empatia que é, o cinema não está isento de escolher lados. Não deixem de pesquisar um pouco quando se depararem com narrativas históricas. Abraços!

MOMENTO P.S.
Deixa eu começar logo com o pé na porta: o ocidente adora narrativas em que a Rússia / União Soviética não aceitaram ajuda, ocultaram seus problemas internos, e acabaram se ferrando no processo. Isso ajuda a explicar todo o hype que a série Chernobyl recebeu no ano passado. Leiam bem, eu não estou dizendo que a gigante oriental não cometeu erros, e poderiam ser solucionados muito antes. Meu ponto é: nós ainda sofremos com resquícios midiáticos pós guerra fria que vão nos levar a exacerbar os seus erros pontuais em detrimento a todo o contexto, como forma de minar a visão não só da rússia propriamente, mas como de todo regime socialista / comunista. Eu queria me estender mais nisso, mas enfim, fuga do tema tira ponto da redação.
Amelia Gentleman faz essa resenha comparativa entre dois livros que abordam o tema, A Time to Die: The Kursk Disaster (de Robert Moore, no qual o filme se baseia) e Kursk: Russia’s Lost Pride (de Peter Truscott). Fica claro, pela perspectiva de Gentleman, que apesar de ambos abordarem os erros e acertos da situação, Moore está mais inclinado a passar uma romantização da situação, sendo mais pró-ocidente. Isso fica claro no seu antepenúltimo capítulo, “Moore descreve os mergulhadores trazidos do exterior como socorristas heróicos, frustrados pela desonestidade e sigilo da marinha Russa. Truscott, que assistiu a crise com sua esposa russa de um chalé nos arredores de São Petersburgo, é mais sensível às pressões à marinha Russa […]”¹ (tradução própria).
Pare para pensar: sua nação é uma das potências militares do século, em estado de decadência. Você, leitor, já deve conhecer a ânsia de países como Estados Unidos e afins para levar “democracia” e “liberdade” à antigos inimigos, e onde eles tem interesses econômicos. Você tem uma arma de guerra com diversos segredos tecnológicos que não podem cair em mãos erradas. Faz todo sentido que essa nação deseje esconder seus dados de espiões², e vai desconfiar de toda ajuda que lhe é oferecida pelos seus potenciais inimigos do passado. Não é tão diferente do que aconteceu em Chernobyl.
Mas é claro, e isso é importante, pessoas morreram em nome da sua nação, o que não pode ser ignorado. “Eles conheciam os riscos quando se alistaram”, é dito no filme, mas ao mesmo tempo não estavam em período de guerra. Estavam em exercício. A Rússia, quase falida, teve que vender boa parte dos seus equipamentos de resgate, e sucatear os que ainda estavam presentes. Porém (aparentemente) novas tecnologias bélicas continuavam sendo desenvolvidas. Um país orgulhoso dos seus cidadãos, e posso estar sendo romântico, deveria prezar primeiramente no bem estar dos seus. Equipamentos de resgate e sobrevivência não deveriam ser prioridade? Não sei, não sou militar, mas me parece razoável.
Uma nação mais preocupada com a sua imagem internacional e com a proteção (e projeção) da sua soberania, do que com o bem estar de homens que, justamente, juraram morrer por esta mesma nação, não estaria faltando com o seu dever? Não é de estranhar a mentira e o ocultamento de informações para o exterior, mas não seria possível, pelo menos, informar as famílias para que elas tivessem o mínimo de tranquilidade? Para que servem governos, então, senão para servir aos seus? Enfim, com essas reflexões sem respostas, eu vou ficando por aqui.
TL;DR: achar que a Rússia deveria aceitar ajuda de estrangeiros sem pestanejar é ser ingênuo, e desprezar todo um passado de conflitos e política. Mas o sangue dos 118 tripulantes está nas mãos do governo e do alto escalão da marinha deste país.

¹ “Moore depicts the divers brought in from abroad as heroic rescuers, frustrated by the dishonesty and secrecy of the Russian navy. Truscott, who watched the crisis with his Russian wife from a dacha outside St Petersburg, is more sensitive to the pressures on the Russian navy […]”
² O texto de Gentleman mostra, mais uma vez, que esse medo não era sem justificativa. Citando Truscott, ela comenta “The British military divers who were finally allowed to assist with the abortive rescue attempt turned out to be members of the UK’s special forces.” (Os mergulhadores militares britânicos que finalmente foram permitidos auxiliar com as tentativas de resgate fracassadas se mostraram membros das forças especiais da Grã Bretanha).