Duas Rainhas – não importa quanto poder se tem.

Duas Rainhas – não importa quanto poder se tem.

Quando eu li o título de Duas Rainhas (Mary Queen of Scots, 2019), eu fiquei “oxi, já não teve esse filme? Nove Rainhas, argentino?” Falando no grupo sobre essa estreia, Iza diz “ah, queria ver pela Margot Robbie”, e eu fiquei pensando “ah, a Rey, né…?”.

Eu sou muito ruim de gravar nomes.

SINOPSE

No século XVI, a rainha Elizabeth I (Margot Robbie) reinava a Inglaterra. Nesse tempo, Mary (Saoirse Ronan) retornava da França para governar a Escócia. As intrigas políticas, e brigas entre católicos e protestantes, põem em risco o governo de ambas.

SISTEMA

Olha, vou começar pelo final. Mais do que tudo, uma das mensagens de Duas Rainhas é: não importa ter cargos de poder somente. Se o sistema é todo contra você, você TERÁ PROBLEMAS. E essa é uma das críticas do identitarismo. Num resumo grosseiro, é a crença de que resolvendo o problema de identidade / representatividade, os problemas sociais e explorações vão acabar. Muito comum no feminismo liberal, impulso da geração tombamento etc. E…

Assim, não vai rolar. Pessoas “estranhas” serão aceitas enquanto for conveniente. Para ela permanecer, ou se tolhe (frase dita no filme, “eu prefiro ser homem”), ou o sistema vai expulsá-la. Sem mudança completa no sistema, as coisas não vão funcionar de maneira igualitária.

Enquanto eu assistia, uma frase que sempre vinha à mente era “ela só queria ficar de boa…”

Não existe ficar de boa.

APROVEITANDO O ENSEJO

Já que eu comecei pelo final, hoje, vou já trazer um debate que eu costumo trazer nos finais do texto: a presença de negros (dois) e asiáticos (uma) em Duas Rainhas. “Ué, não é o que você sempre quis? Está reclamando?”. Primeiro que sim, e continuo querendo. Mas meu ponto é um que já trouxe no meu antigo texto “Não é RACISMO. É que a RAÇA dela…”. É muito estranho que no século XVI (Ele termina em 1587, e sua história se desenrola 25 anos antes) um negro retinto tivesse um lugar de destaque tão alto quanto embaixador (a exploração africana pelos portugueses começa em meados do XV, para referência). Marco Polo entra em contato com a China no século XIII, mas também duvido que tivesse uma descendente de honcongueses na corte inglesa. (O personagem de Gemma Chen, em particular, eu consegui pesquisar. É Bess de Hardwick. Que não tem origem asiática).

Acho que não deveriam estar lá? Não não, gosto bastante inclusive. Mas quando se trata de peças históricas, no geral, eu prefiro fidelidade. Quero nossas histórias sendo contadas, mas não pretendo interferir na de outrem.

ANACRONISMO

Continuando a sessão anterior, Duas Rainhas é carregado de um discurso progressista que beira o anacronismo, tanto por possuir negros e asiáticos em seus quadros, como pela homossexualidade de certos personagens. Que para surpresa, é tratada com respeito. E como já deixei claro lá em cima, de certa forma é todo pautado em cima do sexismo.

Por outro lado, não quer dizer também que esse debate é sempre bem executado. Diversas vezes, durante a sessão, me perguntei “esse filme é dirigido por um homem?”, pois parecia trazer uma visão masculina sobre causas diversas. E não. Sua diretora é sra. Josie Rourke. Porém, o roteirista sim, sr. Beau Willimon.

IMPRESSÕES GERAIS

Duas Rainhas me lembrou uma versão inferior de A Favorita. A forma como mulheres poderosas tinha que lidar com a corte e com o poder. Claro que não estou acusando uma equipe de tentar plagiar, ou seguir a onda da outra. Deve ter rolado um problema de sincronia. Mas não dá pra negar as semelhanças.

E nesse sentido ele sofre. Porque a fotografía de A Favorita é mais criativa e inteligente que a de Duas Rainhas, por exemplo. Os diálogos são melhores, também. De certa forma, a direção é mais competente.

Mas isso é injusto. Pois, se você desconsidera a existência dele, Duas Rainhas é um filme muito interessante. Ainda mais por se basear na obra de um historiador, então vemos muita informação e detalhes todo o tempo. Às vezes, inclusive, mais do que conseguimos processar. Imagino que os nativos da Grã-Bretanha, por estudarem todo esse período na escola, vão absorver o conteúdo muito melhor.

Destaque principal para as duas rainhas (risos) Margot Robbie e Saoirse Ronan, que estão estupendas em seus papéis.

Deixa só eu rasgar um pouco de seda para Robbie: eu adoro quando um ator/atriz tem que fazer, na sua carreira, personagens muito distintos, e é capaz de entregar todos eles bem. Ela fez a Naomi em O Lobo de Wall Street, Harley Quinn em Esquadrão Suicida, Jane em A Lenda de Tarzan, e agora a rainha Elizabeth I. É de aplaudir.

CONCLUINDO

Se você gosta de romances históricos, Duas Rainhas é mais um filme para colocar na agenda. Eu recomendaria que depois, você começasse a estudar mais sobre os personagens. Até porque, Duas Rainhas claramente toma partido (foi o que eu indiretamente comecei a fazer pra escrever esse texto). Mas é um excelente começo.

Abraços a todos, até a próxima!

Falando de algum lugar no universo - Fernando Medeiros

Graduado em Ciência da Computação, pai de dois cachorros, sommelier de memes. Criador do (então) falecido Cinenerd.

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