Steven Universe – Uma lição sobre amor

Steven Universe – Uma lição sobre amor

Algum tempo atrás, meu editor me pediu para moderar meus sentimentos e me distanciar um pouco dos meus textos. Peço perdão de antemão, Fernando, queridos leitores, mas não existe um plano de realidade no qual eu possa falar sobre Steven Universe, sem derramar muito de mim sobre o papel.

Enredo

Steven Universe conta a história do personagem homônimo, Steven, um menino de 14 anos, que mora com as Crystal Gems, três seres alienígenas com jóias emolduradas em seus corpos e superpoderes, na cidade de Beach City, localizada em algum lugar da Costa Leste americana. Começamos a acompanhar a história de Steven, que em conjunto com Garnet, Ametista e Pérola, lutam para defender o mundo de outras Gems que desejam torná-lo uma colônia de exploração. 

Em meio a músicas incríveis, cenas de ação, uma fotografia adorável e personagens apaixonantes Steven se tornou um sucesso, entre crianças e adultos. A série foi criada por Rebecca Sugar, e passava no Cartoon Network, digo passava, pois no dia 27 de Março, o último episódio do epílogo, Steven Universe Future foi ao ar, me deixando assim, completamente órfã, pela segunda vez esse ano. (The good Place eu to olhando pra você!) 

Do que se trata Steven Universe?

Steve e Connie, ou Stevonnie <3

Caso você tenha lido meus outros textos, irá perceber que eu sempre falo sobre sentimentos e conexões. Priorizo, inclusive, estes temas sob outros, que poderiam ser abordados nesta ou naquela obra. Compreender o que nos leva a nos conectar, o que nos repele, nos motiva e toca enquanto seres humanos sempre me interessou, talvez por esta razão em específico, Steven Universe seja uma obra tão cara para mim, talvez por isso, eu lhes escrevi este texto com o rosto inchado e lágrimas nos olhos. 

Durante os episódios de Steven Universe, ele aprende a lidar com a ausência de um parente, sua mãe, Rose Quartz, que para concebê-lo, deixou de existir. A atitude de Rose trouxe inúmeros reflexos, não só o nascimento de Steven, mas também criou inúmeros problemas para todos a sua volta, e infelizmente, Steven é quem tem que lidar com as consequências do que ela fez. Todos os personagens precisam lidar com as consequências dos atos pregressos de Rose, mas de todos o mais abalado é seu filho.

No decorrer das temporadas de Steven, assistimos seu crescimento, uma força motriz que motiva e multiplica o amor e a aceitação por onde ele passa. Enquanto Steven cresce e aprende a lidar com a vida,  nós aprendemos com ele, e isso provavelmente é o ponto mais rico da série inteira. Os dilemas filosóficos variam desde travar uma guerra da qual você não deseja fazer parte, respeitar o espaço das pessoas e entendê-las, compreender que não adianta fugir dos seus sentimentos e problemas, pois eles sempre estarão com você, aprender a se comunicar com os outros, mesmo quando estamos magoados… 

Lidar com todos estes sentimentos e situações parece ser o plano de fundo de uma invasão alienígena, mas na realidade, em Steven Universe, a luta, a possível guerra, é o plano de fundo para lidar com seus sentimentos. Steven é um garoto que tem o poder de curar, e ele se sente extremamente responsável por lidar com os sentimentos, e problemas de todos ao seu redor. Extremamente altruísta, o melhor amigo que se pode ter, sempre disponível e feliz em poder ajudar, Steven é o herói quase perfeito. Todavia, perfeição não existe, e isso fica provado quando a história gira num círculo completo, e Steven necessita a ajuda de todos os seus amigos, para seguir em frente.

Steven Universe Future, mas qual?

O epílogo mais agridoce de todos

Por cinco temporadas, Steven se dedica a salvar o mundo, resolver os problemas dos amigos, e consertar os erros de sua falecida mãe. Steven Universe Future acaba sendo o epílogo perfeito por tratar de responder a pergunta que todo mundo se faz: Se você cuida de todo mundo, quem cuida de você? 

Em 20 episódios, Rebecca Sugar nos ensina mais uma lição valiosa: Ninguém é indestrutível, ninguém é inquebrável. Não é possível que alguém passe por tanto trauma, tanta dor, tenha o coração partido, de novo e de novo, e simplesmente viva como se nada houvesse acontecido no fim do dia. Steven Universe Future mais uma vez nos toma pela mão para uma constatação simples: Não é possível seguir sem lidar com nossas próprias questões, nossos medos, incertezas, traumas. Até o maior herói de todos precisa de suporte, descanso, amor, de terapia. 

Ametista, a jornada de descoberta mais bonita.

De uma forma poética e dolorida, revisitamos maior parte dos personagens das cinco temporadas, e tal qual Steven, eles cresceram, possuem objetivos, desejos, carreiras. Existe uma beleza inominável em acompanhar uma história se desenrolar, perceber o desenvolvimento, o florescimento de um personagem, e Steven Universe Future te proporciona exatamente isso, um momento para rever velhos amigos, notar seu progresso e matar um pouquinho da saudade.

E é aí que Steven Universe Future brilha mais uma vez. Não sei se vocês já experienciaram isso, porém acompanhar o crescimento das pessoas ao seu redor, quando você se sente preso num ponto imutável da vida é doloroso. Existe uma pitada de inveja, um punhado de tristeza, uma colherada de inquietação, o resultado é muita mágoa, tristeza, dor e inconformismo. Se perguntar “porque você não?”, inclusive em situações que você nem desejaria estar, apenas para quebrar a inércia, pela sensação, ainda que efêmera de sucesso.

E porque é pessoal?

Pérola, eu fico tão feliz que você possa finalmente ser você!

Sendo muito honesta, por inúmeras razões eu me vi no Steven. Tentando cuidar de todos ao meu redor e me sobrecarregando, tendo dificuldades para respeitar o espaço e o tempo dos outros, o abandono parental que deixou marcas na minha constituição pessoal, o auto ódio e os problemas de auto estima, a necessidade de ser desejada, de ser necessária… Tantos e tantos momentos. 

Por seis temporadas, um desenho bobo me traduziu. Um menino de 14 anos, meio humano, meio joia alienígena, me ensinou mais do que muita gente real de carne e osso. Steven Universe me pegou pela mão e caminhou comigo por muitos dos meus traumas, pelas dores da minha depressão, pelas lágrimas que a rejeição e a manipulação me causou. Revisitou os cantos escuros da inaceitação, sacudiu a poeira dos móveis, abriu janelas no meu coração e fez a luz entrar. 

O pai mais estranho, mal vestido e amável de todos!

Eu pude refletir de novo e de novo, sobre como olhar para os outros com doçura, e em troca me olhar como doçura, porque mais ninguém poderá fazer isso por mim. Steven Universe me ensinou que mesmo nos momentos mais tristes e desesperados, eu ainda vou estar lá, e que ninguém além de mim pode catar os caquinhos. Decerto que os amigos, a família, podem ser a rede que oferece suporte, e para isso é necessário que se busque ajuda, mas que a responsabilidade sobre mim, sobre meus sentimentos é minha. 

Steven Universe é muito mais do que apenas a jornada de uma criança crescendo e lutando para lidar com as bolas curvas que a vida lhe deu. O show trata de abandono parental, auto ódio, depressão, inadequação, desapontamento, morte, solidão, ansiedade, raiva e tantos, tantos outros sentimentos. Uma longa jornada que se iniciou em 2013, e levantou questionamentos sobre gênero, preservação da natureza e utilização dos recursos, amadurecimento, vida no espaço, aceitação e amor. 

Adeus, e muito, muito obrigada!

Acima de tudo, Steven Universe é sobre amor. Vou correr o risco de ser brega e boba, entretanto, poucas coisas na vida me ensinaram mais sobre como amar e perdoar a mim mesma, do que esse desenho. Um desenho bobo de criança, me ensinou que eu não preciso carregar o mundo nas costas. Que eu vou sim cometer erros, me decepcionar com as pessoas, e decepcionar elas, que as coisas nem sempre vão caminhar como desejo, e que ainda sim, tudo bem. Steven me ensinou que eu posso recomeçar, que eu posso mudar, que não é tarde pra tentar outra vez. Steven me ensinou que eu posso e mereço seguir em frente.

Steven Universe me ensinou amor, compaixão, aceitação e respeito, pelos outros, mas acima de tudo por mim, e apenas por isso, eu sou imensamente grata e completamente apaixonada pela obra. 

Peço desculpas pelo derramamento de sentimentos, agradeço a companhia de sempre, desejo que vocês estejam seguros, sejam amados, e que #FiquemEmCasa nesses tempos de pandemia. Um beijo imenso e até a próxima.

Falando de algum lugar no universo - Isabel Barbosa

Estudante de Ciências (sensuais) Sociais na UFBA. Feminista negra e capricorniana impaciente. Louca por séries, super-heróis, gatos, comida e recentemente anime.

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