The Midnight Gospel – Filosofia e animação numa jornada psicodélica

The Midnight Gospel – Filosofia e animação numa jornada psicodélica

É muito comum que textos e materiais filosóficos sejam restritos a um nicho muito particular de consumidores. Mas quando certos astros se alinham da maneira certa, alguma obra busca subverter os caminhos tradicionais e opera discussões mais profundas e pungentes do que seria possível esperar. É nesse lugar que mora The Midnight Gospel, uma animação que vai fazer você pensar muito na sua forma de viver e morrer, de maneira aberta e ligeiramente desconfortável, mas sem sombra de dúvidas de maneira interessante. Não sou um estudioso da área, então peço desculpas por qualquer besteira falada (antes e depois desse aviso), mas vou tentar repassar as impressões que tive durante a jornada que foi assistir esse incrível desenho de 8 episódios. Vem comigo!

PERA, PENDLETON? DO ADVENTURE TIME?

Pend meu garoto com seus maiores sucessos o menino Finn e o cachorro Jake

Isso. Pra quem não sabe, o idealizador do projeto “Pendleton Ward” é o criador de Hora de Aventura, desenho que estreou na Cartoon Network em 2010, e tomou de assalto toda uma geração de interessados pelo formato. Ward faz parte de uma série de animadores que iniciou a carreira na Cartoon e fez parte do que eu chamo de Núcleo Flapjack (outro desenho incrível), no qual ele participou como roteirista, produzindondo storyboards. De lá pra cá ele dedicou muito tempo ao projeto que criou, fazendo pequenas participações em outras séries que eram publicadas pela Cartoon (Over the Garden Wall, Uncle Grandpa, Steven Universe – checa esse texto nosso sobre a série) até que finalmente chegamos a Midnight Gospel. Então, quem acompanhou a trajetória das animações aqui referenciadas sabe que temas que falam sobre sentimentos, da coragem que é lidar com eles e tentar compreender a si e aos outros, são muito caros ao criador. Multiplique isso pelo maior número que conseguir pensar e vai ter uma ideia do que é Midnight Gospel.

AMP #44 - Reincarnation, End of Suffering, and The Awakening with ...
Duncan Trussell, o cara que dá voz a Clancy… Em mais de um sentido

Não obstante, é importante que também seja mencionado que o trabalho é uma criação conjunta com o comediante e dublador “Duncan Trussel”, que tinha um projeto de Podcast chamado “A hora da família Duncan Trussel” (TN: The Duncan Trussel Family Hour), no qual ele conversa livremente com um convidado por uma hora, e que servirá de base para a construção dos episódios da série animada.

THE MIDI-O QUÊ?

Vou aqui ouvir meu podcast suave e tomar café…

Acho que é possível entender mais ou menos o tom da obra baseado no que falamos até esse ponto, mas vamos tentar traçar em linhas gerais do que se trata. Midnight Gospel é um desenho sobre um personagem chamado Clancy Gilroy, que utiliza uma máquina de simulação de universos para visitar diferentes universos nos quais ele realiza entrevistas para o seu podcast espacial. Isso é um resumo muito objetivo do que acontece, (praticamente todos os episódios), mas é interessante que se observe que a animação na verdade serve como plano de fundo para as discussões que são adaptações de alguns dos episódios do podcast que serve de referência (TDTFH). É possível notar isso mesmo (o que é curioso) que a informação não seja consultada, especialmente porque muitas vezes a conversa tem pouco compromisso com o que de fato está acontecendo na tela. E isso leva a considerações importantes sobre  o efeito da animação.

Algum universo sem Losborano?

ANIMAÇÃO VS MENSAGEM VS MINHA CABEÇA

Como você está se sentindo senhor?

Aqui entra um tópico que talvez fomente algumas discussões sobre o desenho. Fique claro aqui que essa é minha interpretação, mas acredito que haja uma prevalência do material sonoro (do conteúdo das conversas) sobre o que será animado. Colocando em outras palavras, eu acho que a animação muitas vezes (muitas vezes mesmo) não parece ter nem uma relação direta com o que está sendo dito, nem uma relação simbólica. Algumas vezes parece sim ter uma relação simbólica, mas isso é no meio do que parece um vórtice de caos. Um caos colorido, com referências claras a estilos que podemos remontar principalmente de HdA, mas ainda mais vibrante e colorido.

Dona morte, sou seu fã! (Sons góticos)

E essas discussões, aqui referenciadas, tem todas uma faceta bastante profunda de investigação sobre a alma, a morte, o sentido das coisas, meditação, e todos esses temas. Isso ganha uma roupagem fantástica através da animação e dos personagens que estão inseridos na conversa.Mas seu conteúdo trata do nosso mundo e das maneiras que podemos lidar com a nossa realidade, de uma maneira que (friso) em nenhum momento o desenho reconhece a própria condição enquanto desenho animado (que o inseriria num campo da metalinguagem) mas ao mesmo tempo faz paralelos com o nosso mundo, usando nomes de pessoas reais, países, estados, o que indica de cara que se trata da tradução de algo que está alheio à animação.

Se você fizer sentido tentando descrever uma cena dessas pra alguém que não assistiu, você merece uns 2 oscars.

Não acho que isso tenha que ser julgado se tem um efeito positivo ou negativo, mas é algo notável. E confesso que no meio disso tudo é difícil absorver o que está sendo dito. Mais ainda, acredito que seja difícil de se preparar para o que é discutido no desenho. Talvez seja uma resistência pessoal minha (que tendo a ser bastante cético), mas por alguns momentos sinto como se uma determinada visão de vida/energia/espiritualidade estivesse sendo servida a colheradas para mim, e gosto de ter minhas próprias ideias a respeito dessas coisas. Então, acho que é importante entender esse aspecto na hora de decidir a disposição sobre assistir ou não.

VEREDITO?

Um dos episódios mais emocionantes

Sinto se esse texto soou confuso, mas talvez para que se possa explicar a sensação e o efeito de ter assistido The Midnight Gospel, seja necessário ser também um pouco confuso. Eu gostei bastante, e tenho episódios que considero favoritos nos 8 listados. Isso não quer dizer que eu não tenha minha lista de críticas, mas acho que consegui levantar a maior parte do que acho sobre a série animada. E você? Assistiu? Já meditou depois? Teve uma epifania? Manda um comentário sobre o que achou pra gente continuar esse papo no nosso não-podcast-espacial que é a sessão de comentários! E até a próxima!

Falando de algum lugar no universo - Felipe Barros de Sousa

Um coringa no baralho. Eu falo e filmo, sou bichão mesmo. Falou de jogos, filmes, música, animação, mangá, e o que mais vier, tamo junto.

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