David Lynch #01 – Eraserhead

David Lynch #01 – Eraserhead

Esse é o ínicio de uma série de textos que vou fazer aqui no Maratona sobre a filmografia de meu diretor de cinema favorito, David Lynch. Não há melhor forma de começar se não pela obra seminal deste artista. 

ATENÇÃO! ESSE TEXTO É RECHEADO DE SPOILERS

(O que não faz diferença, pois a história aqui não é relevante. Mas sim as sensações que essa obra te desperta)

Eraserhead

Eraserhead é o primeiro filme de David Lynch, escrito, dirigido e editado pelo mesmo. A produção do longa teve início em 1971. Financiada, em parte,  pelo American Film Institute, onde Lynch estudava na época. Foram quase 6 anos de filmagem e edição, em meio a vários problemas pessoais pelos quais passava o diretor. O lançamento ocorreu em 1977, e foi tido como fracasso de público e crítica. O que não era nenhum desastre tendo em vista que era uma obra experimental, com custo de produção em torno de $20,000. O filme só foi fazer algum sucesso no ano seguinte, após ser exibido nas sessões da meia-noite.  

Sinopse

Eraserhead mostra um homem chamado Henry (Jack Nance), que logo após ser abandonado pela esposa,  tem dificuldades em cuidar do próprio filho recém nascido.

Vamos falar de arte

Tentar entender essa obra é um grande exercício de imaginação. Provavelmente não há definição sobre o que mostra esse filme. Mas para apurarmos nossa reflexão vamos falar um pouco sobre arte.
O conceito de arte, tal como entendemos hoje, é algo bem recente na história da humanidade. Quando lançamos nosso olhar sobre uma máscara africana, um relevo assírio ou uma pintura renascentista, chamamos isso de arte. Mas é importante entender que maior parte desses objetos tinham uma função dentro do contexto em que foram originalmente produzidos. Poderiam ser ritualísticos, votivos ou educacionais. Para sociedade/povo que utilizou esses objetos eles não eram arte. Arte até século XVIII era qualquer coisa que fosse feita com expertise. O conceito de arte, como entendemos hoje, advém das reflexões sobre outro conceito que nos é muito caro para pensar Eraserhead, a estética. Não quero me estender aqui,  mas é importante entendermos que a partir do momento em que os artistas se entendem dessa forma, fazedores de arte e não só pintores, músicos ou escultores, existe uma ruptura com o passado. Muito da arte que se produziu no ocidente tinha uma caráter religioso, e de representação literal da natureza. Mesmo quando o tema não era mais religioso, os artistas ainda tentavam reproduzir quase de forma fotográfica a realidade. Isso muda no século XIX, o Iluminismo e os estudos de estética são o que causam essa ruptura. A arte se entende como arte, como um fim em si mesma. Cézanne e Matisse são caras importantes para entender isso.
Na últimas décadas do século XIX e início do XX, acontece outra grande revolução na arte. Os artistas compreendendo quem eram e o que produziam, voltaram-se para a especificidade do meio. O escritor passou a buscar a realização dos elementos intrínsecos à literatura e o pintor da pintura, assim sucessivamente. Isso é a arte moderna que floresceu no início do século XX. Foram inúmeros os movimentos vanguardistas do modernismo na arte. Na pintura e literatura, um dos mais significativos foi o Surrealismo
Surrealismo foi uma vertente do fazer artístico onde o realizador dava vazão a seu subconsciente/inconsciente, negava a lógica e o racionalismo, era guiado pela imaginação, sonhos e pelo fazer automático, uma força criativa fulcral. As teorias de Freud tiveram grande influência neste movimento.  

Chegamos ao ponto que realmente nos é relevante. David Lynch, mesmo sendo um cara da pós modernidade, em essência é um artista surrealista.  Eraserhead surgiu de um sonho, onde um garoto encontra a cabeça de um homem e a leva para  uma fábrica de lápis, lá o cérebro é utilizado como a borracha que compõe o objeto. Daí o título da obra.  

Enredo

O enredo desse filme não é algo óbvio. A história contada aqui chega, em alguns momentos, a beirar o abstracionismo. O fato é que não adianta tentar definir ou explicar Eraserhead. Lynch disse que teve influência das obras A Metamorfose,de Kafka, e The Nose, de Nikolai Gogol. Não li nenhuma dessas obras, mas vamos ao exercício de imaginação e interpretação, tentar racionalizar esse roteiro. 

Esse é um filme muito aberto, existem várias teorias e interpretações, o próprio diretor defende a autonomia no entendimento de cada pessoa. Aqui segue a minha:
Nos baseando no que é mostrado em tela, entendo que Eraserhead se passa em um mundo distópico, onde não existe natureza, um mundo devastado. Henry é um cara que vive em uma cidade industrial/fabril, e  tem uma série de sonhos/alucinações/visões. O protagonista engravida uma moça, é obrigado a se casar com a mesma, que logo após o nascimento do bebê o abandona. Henry não consegue lidar com seu filho deformado e sacrifica o mesmo.  Trocando em miúdos essa é a história que a narrativa nos conta. Mas o filme é muito mais, muito mais mesmo do que essa linha narrativa. O que torna essa obra tão única é a dimensão do sonho e do irreal. 

Horror, angústia e desconforto

A Garota do Aquecedor se tornou uma das personagens mais icônicas na filmografia de Lynch. A sequencia de “In heaven everything is fine” dá uma nova dimsensão ao filme, é lúdica e idílica. Aqui o sonho e horror formam uma junção perfeita

Eraserhead é um filme de horror surrealista. Não existe susto aqui, mas a estranheza e desconforto estão presentes do início ao fim. O desenho de som tem função primordial na criação desse desconforto e na construção de uma atmosfera fantasmagórica. São ruídos, barulhos, rangidos, batidas, uma série de sons fora de contexto, mas que combinados criam uma sinfonia perturbadora. Isso é bem característico na obra de Lynch, essas coisas ridículas e sem sentido algum, mas que por algum motivo te deixam apavorado. O que é o jantar de Henry com a família de Mary X (Charlotte Stewart), sua esposa? Ou a garota no aquecedor (Laurel Near)? Essas cenas são mais terrificantes do que qualquer assassino ou demônio. O horror no banal/trivial é incrível.

Conclusão?

Reitero que não existe apenas uma interpretação para essa obra, mas muitas, e todas são corretas e válidas. Lynch nunca explica seus filmes, especificamente sobre essa obra, sempre se negou a falar sobre o bebê. E quando disse algo, disse que nem mesmo ele sabia o que estava contando nessa história.
Pensando no aspecto do subconsciente que aflora na arte surrealista, podemos levar alguns fatos da vida de David Lynch em consideração para pensarmos essa obra. Na época em que esse filme foi realizado, foi justamente o momento onde o relacionamento de David com sua primeira esposa, Peggy, teve fim, os dois tinham uma filha bem pequena, Jennifer. Uma das interpretações sobre esse filme, e também a que me faz mais sentido, é de que a história de Henry retrata as inseguranças de Lynch, ante o fim de seu relacionamento e a responsabilidade de ser pai. Em essência o filme é sobre a insegurança da paternidade.
Tudo aquilo que, aparentemente, não faz sentido narrativo é parte da atmosfera lúdica da obra. Como dito antes, a dimensão do irreal aqui é muito  forte.
Tentar interpretar essa obra apenas por seu texto é exercício que pode ser divertido, mas que no fundo não faz sentido algum (talvez para algum psicanalista faça).
Por fim. Essa é uma obra de fruição estética,  você precisa sentir, apreender por seus sentidos. Eraserhead não é um filme para ser entendido, mas sim experienciado.

Falando de algum lugar no universo - Natiel Silveira

Gaúcho, cozinheiro e ciclista. Dois amores na vida, Chelsea FC e Cinema.

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