Years and Years: quando a distopia encontra o drama familiar

Years and Years: quando a distopia encontra o drama familiar

Distopias estão na moda e não é de hoje. Do futuro apocalíptico de Walking Dead à imaginação das diversas configurações possíveis de inferno político-tecnológico apresentados em Black Mirror, a década de 10 nos deu este belo presente: a capacidade natural de, ao falar “futuro”, imaginar imediatamente um lugar horrível de se viver.

E não foi do nada. Recentemente o vídeo de uma série viralizou no Facebook em que um jovem segura um bebê em uma maternidade e, diante do noticiário, se pergunta como o mundo pôde mudar tanto do final dos anos 2000 para cá. Por fim, ele se dirige à criança: “Se está tão ruim agora, imagine como será para você, ahn? Em 20 anos, 10 anos, ou mesmo em 5 anos?”. A série de onde o vídeo foi tirado é Years and Years e este é o argumento colocado por ela.

A produção conjunta da BBC One com a HBO, escrita por Russel T Davies (criador de Queer as Folk, idealizador do retorno de Doctor Who em 2005), se propõe diretamente a responder qual o mundo que Lincoln Lyons, aquela criancinha, vai ver ao seu redor ao longo dos próximos 15 anos, de 2019 a 2034. E boa parte deste mundo é a família Lyons.

Novela de ficção científica?

A cara de desespero de Daniel é a única possível diante dos eventos da história

Não há muito o que dizer inicialmente sobre os Lyons, apenas que são 4 irmãos que tem uma forte ligação entre si e com sua avó, apesar de serem bem diferentes. Stephen, o mais velho, é um consultor financeiro que vive em Londres com Celeste, sua esposa contadora, e suas duas filhas, a quase universitária Ruby e a adolescente introvertida  Bethany. Edith é a segunda mais velha, uma ativista política relativamente famosa internacionalmente. Daniel é o terceiro, e trabalha no Departamento de Habitação da Câmara Municipal de Manchester, enquanto seu marido, Ralph, é um professor de escola primária. A mais nova é Rosie, mãe de Lincoln e Lee, que trabalha como chefe da cozinha de uma escola e desafia os estereótipos comuns de personagens cadeirantes na TV (ela tem espinha bífida). E, como dito, todos se unem em torno de Muriel Lyons, sua avó materna.

Tudo parece bem e regular. Todos têm suas vidas, seus empregos, são aquele tipo de pessoa que os mais velhos descrevem como “encaminhados”. Não tem muito o que dar errado, não é? E, você deve estar pensando, isso não tem nada a ver com distopias, é uma típica novela das oito (só falta o casalzinho brigando pra ficar junto).

Só que tem. Davies escolheu contar a história do futuro próximo de uma família e com isso ganhou várias vantagens, principalmente comparando com Black Mirror. O fato de acompanhar personagens de maneira linear, desenvolvendo-os e nos fazendo simpatizar com eles, aumenta o engajamento da audiência com a história, além de permitir a abertura de vários flancos temáticos. E, o mais poderoso: a série os aborda de modo verossímil, pois se baseia nas tendências vistas no hoje, no aqui e no agora, através da experiências de personagens que são gente como a gente..

Especulação do futuro como crítica ao presente

Você quer populismo, @?

Vemos uma crise de imigração no Reino Unido, particularmente de imigrantes ucranianos. A despeito da atual crise migratória que atinge a Europa ser protagonizada por pessoas que chegam vindas em sua maioria dos continentes africano e asiático, imaginar uma massa migratória ucraniana é mesmo loucura? Dá uma olhada pro cenário político de lá, com neonazistas no governo e milícias perseguindo LGBTs e militantes de esquerda.

A história também nos mostra a ascensão de uma bilionária desbocada como liderança populista de extrema-direita chamada Vivienne Rook (brilhantemente interpretada por Emma Thompson). E, vamo lá, a gente tá vendo esse filme agora mesmo! Trump nos EUA é o melhor exemplo, mas a personagem claramente é uma mistura de Nigel Farage (grande ideólogo do Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia), Kate Hopkins (celebridade rica do mundo dos negócios britânicos que cada dia anda mais na direção do neofascismo) e Marine Le Pen (líder de extrema-direita francesa). Até o partido que Vivienne cria na série se chama “Quatro Estrelas”, em uma referência frontal ao Movimento Cinco Estrelas da Itália, partido de extrema-direita que governa o país.

Claro, a tecnologia não fica de fora. E ela permeia tudo, desde a mediação cada vez mais eficiente das relações entre a família graças a seus assistentes digitais (quem é Siri ou Alexa comparadas ao Signor da série, gente?) até suas dimensões mais autoritárias e também sutis. A abordagem da série problematiza o acesso aos avanços tecnológicos quando vemos profissionais de saúde comentando o quanto ricos fazem tranquilamente cirurgias inovadoras que os pobres só acessam clandestinamente e correndo risco de vida. Também coloca em questão as possíveis consequências eugênicas de alguns desses avanços, como quando vemos Edith conversando com Rosie sobre a recém-descoberta cura para espinha bífida em recém-nascidos.  E, ao mesmo tempo, nos faz pensar no lado bom dos avanços quando vemos a vovó Muriel parar a deterioração de sua retina e recuperar completamente a visão graças a um novo tipo de cirurgia ocular.

A tecnologia é distópica ou a distopia que é tecnológica?

Bethany, meu anjo, TIRA ESSE FILTRO 3D AGORA!

Essa ambiguidade na abordagem do avanço tecnológico é curiosa e encontra seu auge ao tratar o transhumanismo. Pra quem não sabe, esse movimento filosófico existe no mínimo desde os anos 1980 e se baseia na ideia de que a tecnologia é o meio pelo qual o ser humano pode transpor seus limites biofísicos para desenvolver seu completo potencial. A principal entusiasta dessa ideia na família Lyons é Bethany, filha mais nova de Stephen e Celeste, completamente absorta pelo mundo dos filtros faciais 3D e dos implantes cutâneos. Vamos evitar o spoiler e apenas dizer que ela vai do céu ao inferno na sua fixação com isso.

Entretanto, é neste tópico que a série mais escorrega. E nem falo somente de como Beth vira um grande deus ex-machina no arco final da história, mas principalmente nos furos de roteiro que são necessários para que a produção defenda sua tese:em Years and Years, a tecnologia é eminentemente neutra, o que pode ser positivo ou negativo são as intenções das pessoas que a manuseiam.

A despeito da nada recente corrente de pensamento que prova por A+B que nenhuma técnica é neutra (de Kant a Chomsky, o que não falta é gente falando disso nos últimos 200 anos), o problema maior aqui é a falta de argumentos apresentados pela série para sustentar essa posição. Na real, o fato da mais poderosa demonstração de uso positivo da tecnologia na série acontecer justo no momento onde o roteiro vira queijo suíço é um grande contraponto em si – se essa ideia fosse tão bacana, a apresentação dela não precisaria ser tão fuleira, né? Só dizendo.

Conclusão: essa série dá muito pano pra manga.

Years and Years ainda pincela um monte de outras questões sutilmente, apresentando uma imagem bem rica e atualizada da tal “condição pós-moderna”, tão aclamada e criticada. Tem lá fagulhas para se pensar desde questões coletivas, como precarização do trabalho, populismos de extrema-direita, financeirização da economia global, etc, até as questões mais íntimas, como a influência do racismo nos processos de desidentificação pessoal contemporâneos, o impacto da carência de representatividade simbólica na ação política das pessoas, e tudo mais. Destaque para dois momentos em particular onde remorsos pessoais são amplificados pelas políticas de extrema-direita e criam grandes reviravoltas trágicas para a família Lyons.

Fran é uma personagem legal que podia ter aparecido mais na série

Pra evitar o spoiler, deixemos esse plot twist e o final da série pra depois. O objetivo deste post é te convencer a assistir a esta maravilhosa minissérie de 6 episódios que Davies jura que não vai ter continuação, apesar do gancho explícito que o último episódio deixa. E se é possível apontar problemas e criticar abordagens apresentadas na história da família Lyons (e do mundo até 2034), é necessário também reconhecer a grandiosidade da obra em toda sua sensibilidade e engenhosidade. Eu, particularmente, agradeço pela demonstração didática de como a política em níveis nacionais afeta diretamente a vida (e a morte) das pessoas. Espero que funcione para algo.

Falando de algum lugar no universo - Júlio Sandes

Historiador, professor, comunista. E chato de galochas, essa parte também é muito importante.

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