Eu Nunca – Diversidade de forma consciente.

Eu Nunca – Diversidade de forma consciente.

Drama adolescente? Uma visão não estereotipada da cultura indiana? Uma visão positiva Lgbt? Comédia cheia de vergonha alheia? Eu nunca consegue misturar tudo isso e muito mais!

Eu Nunca vou escrever uma sinopse.

Eu Nunca, do original Never Have I ever, conta as desventuras de Devi Vishwakumar, uma adolescente nerd no segundo ano colegial, que no seu primeiro dia de aula resolve orar para os deuses e pedir que ela finalmente consiga se tornar popular, namorar o garoto mais bonito da escola, ir a uma festa com bastante álcool e drogas, mas acima de tudo, ela precisa: TRANSAR!

Eu Nunca vi esse enredo antes?

Eu sei, eu sei, esse pode ser o enredo de qualquer besteirol americano, Devi só precisaria ser um adolescente branco de 16 anos sendo interpretado por um homem de 25. E é exatamente aí que Eu Nunca mostra que é diferente. Devi é um adolescente Indiana de 15 anos, interpretada por uma atriz de 18 Tâmeis, Maitreyi Ramakrishnan que faz o seu debut como atriz no papel, e foi escolhida a dedo por Mindy Kaling, a produtora da série, entre 15 mil outras candidatas.

Devi, Eleanor e Fabiola

Diversidade é o grande ponto de Eu nunca. No que tange raça e etnia, nós possuímos não só a protagonista, mas também suas duas melhores amigas, Fabiola, que é interpretada por Lee Rodriguez, atriz negra, já conhecida por sua atuação em séries como Grown-sh e Class of Lies. A outra melhor amiga de Devi, Eleanor, de ascendência chinesa é interpretada por Ramona Young, que também já é conhecida do público por Lendas do Amanhã e Santa Clarita Diet.

Além de possuir uma vasta quantidade de atores de raças e etnias diferentes, Eu nunca se dedica a não estereotipar as culturas e personagens apresentados. O cuidado presente na apresentação familiar de Devi é incrível, e durante o desenrolar dos episódios, nós aprendemos de forma respeitosa as peculiaridades da cultura Indiana, suas celebrações, comidas e costumes. 

Tudo é tratado de forma delicada e reverente, mesmo que a comédia seja o plano de fundo da obra. Esse cuidado também se estende para outros temas como a saúde mental de Devi. Durante os episódios vemos a protagonista lidar com a perda de seu pai, que era seu elo amoroso mais forte. Eu nunca trata o assunto com cautela, sem espetacularizar o trauma, tão pouco os efeitos vividos por Devi.

Eu Nunca desenvolvi os personagens secundários

Devi, Kamala e Nalini, beleza é claramente genético.

Outro grande acerto da série é que apesar de Devi ser a protagonista de Eu Nunca, todos os personagens secundários de maior destaque tem episódios inteiros feitos para desenvolver seus desejos, histórias e backgrounds. Enquanto a série desenvolve os personagens, trazendo situações de comédia, ela também reforça seu caráter dramático, discutindo Homofobia, sexualidade, bullying, deficiência física, abandono parental, depressão, conflitos familiares e etc.

Todos os temas são tratados da forma mais leve possível, dado suas complexidades, o que torna  bonito ver que por meio de conflitos pessoais os personagens amadurecem e enfrentam a tormenta que é crescer, se entender e passar pelo ensino médio. Eu nunca é claramente mais uma tentativa bem sucedida da Netflix de tratar a diversidade pela ótica da normalização.

Outra grande sacada de Eu nunca é o recurso narrativo utilizado. A série possui um narrador, engraçadíssimo ainda que inusitado, John McEnroe, que é um famoso tenista americano, que também é conhecido por representar ele em várias outras produções. Além dele temos ainda Andy Sandberg fazendo uma brilhante aparição como narrador em um dos episódios. Além deles, Niecy Nash, Sendhil Ramamurthy, Poorna Jagannathan e Adam Shapiro abrilhantando seu elenco.

Devi e Ben, meus babacas prediletos!

Eu Nunca assistiria isso!

Se nenhum dos argumentos acima despertou seu interesse para assistir Eu Nunca, gostaria de apresentar minha réplica final: Eu Nunca é surpreendente pela simplicidade. Muitos dramas adolescentes buscam construir seus conflitos de forma colossal, e muitas vezes assustador(Riverdale, Euphoria, Pretty Little Liars, Gossip Girl e tantos outros, tô olhando para vocês). Consumo de drogas, briga de gangues, assassinatos. Tentativas fracassadas em sua grande maioria, de tornar a série mais madura do que ela realmente é, que fazem muito pouco para disfarçar enredos mal escritos com inúmeros furos e péssima continuidade.

Eu nunca arremessa essa fórmula na lata do lixo e se compromete apenas a ser uma série adolescente de dramédia. O ponto da obra é falar dos conflitos e do crescimento de seus personagens de forma leve e consciente e ao final do último episódio é possível afirmar que ela cumpre exatamente o que prometeu, proporcionando ainda alguns bônus não esperados ao longo dos episódios. Não será a série que vai mudar sua vida, no entanto é uma série divertida para passar o tempo na quarentena, e talvez uma ótima indicação pra sua irmã/prima adolescente.

Como sempre eu espero que vocês tenham gostado, estejam mais do que nunca,  seguros e saudáveis nessa quarentena. Um beijão e até mais!

Falando de algum lugar no universo - Isabel Barbosa

Estudante de Ciências (sensuais) Sociais na UFBA. Feminista negra e capricorniana impaciente. Louca por séries, super-heróis, gatos, comida e recentemente anime.

Deixe um Comentário