Olá leitor do Maratona de Sofá, me chamo Euller, e sou um Amador Crítico Musical. Eu participo do Podcast Elementar e nele eu tinha uma quadro chamado “lojinha de discos do Tio Euller” fazia indicações, críticas, elogios e dava pauladas para quem estava merecendo receber. Porém hoje estreio essa nova coluna do site. Hoje eu quero falar um pouquinho sobre um artista que não ficou parado durante a quarentena. Muitas coisas não podem ser feitas durante esse período, mas tenta convencer o Baco Exu do Blues, o Bluesman, do contrário. É difícil.
O artista Diogo Álvaro Ferreira Moncorvo, mais conhecido como Baco Exu do Blues, entrou na atual cena do rap de uma maneira muito controversa e agressiva. O single “Sulicídio”, de 2016, feita em parceira com Diomedes Chinaski, atacou o máximo de MC’s do Sudeste que dava pra caber em 4 minutos e 41 segundos. Foi um movimento violento, agressivo, que meteu os dois pés na porta para colocar a cena nordestina num local que ainda não tinha experimentado: o famigerado topo do topo do topo.
Veio o ano de 2017 e, junto com ele, o primeiro álbum da carreira do Baco Exu do Blues: Esú. Como não havia ninguém mais pra atacar, ele fez um disco bem autoral e único, com uma identidade visual que viria a ser uma marca do artista no futuro. Um álbum com identidade bem preta e brasileira. Todas as faixas ali se comunicavam com as pessoas que ouviram Sulicídio e que esperavam aquela agressividade. Não a receberam, mas também não ficou por isso mesmo. Havia uma única faixa que abria um espaço para as pessoas fora da bolha do rap ouvirem. “Te Amo Disgraça” foi a música de maior sucesso daquele álbum e isso se tornou um novo marco, atingindo um público inesperado. Esse hit em questão, apresentou uma coisa que seria uma marca registrado de Baco Exu do Blues, que conseguiu pegar a sensualidade quase vulgar do funk e transformá-la em poesia para os casais mais apaixonados. Tal sensualidade você vai ver mais adiante e irá se tornar uma marca.
E então em 2018, Baco tentou equilibrar as forças, de alguma forma muito original quis trazer os consumidores de rap underground, os fãs do hit de “Esú” e outras Poesias Acústicas. Aí lançou Blvesman (pronuncia-se Bluesman). Aqui não quero me prender a um lado dessa briga, e quero ser o mais sincero possível sobre essa obra.
Por mais que eu me considere uma pessoa que se encaixa nesses dois grupos que eu citei acima, não acho que seja um exagero dizer que Baco fez um dos maiores álbuns da história da música brasileira. Mesmo com o hate dos manos e o amor das minas por esse álbum, Bluesman vai além disso e vai chegar num ponto além da nossa compreensão. As formas de como tudo se encaixa nessa obra a transformam numa peça excepcional. Bluesman dá certo pois a obra se equilibra num tripé muito único: produção, lírica e estética. A produção de beats do álbum é quase todo pelo DKVPZ. Esses dois irmãos são alguns dos produtores mais disruptivos e originais da atualidade, sempre tentam escapar da curva e conseguem. A lírica do Baco é única, uma das que mais se destacam na cena atual. Se você reparar bem, ainda tem aquela agressividade de Sulicídio, só que nesse álbum ela se dirige a outros algozes. E a estética, que eu não preciso dizer muito, foi reconhecida internacionalmente no Prêmio Cannes Lions, uma agremiação internacional de Publicidade, pondo no bolso Apeshit do The Carters, ou seja, Beyoncé e Jay-Z.
Bluesman também vêm para ressignificar e se reapropriar de tudo o que foi tomado do povo negro. Baco Exu do Blues incorpora o “primeiro ritmo que fez pretos ricos”: o Blues. E assim tudo o que vier depois disso é Blues: samba, rock, rap, funk. Ele é Blues. É o mesmo sentimento que você tem em Sulicídio, porém lapidado, pronto e feito para ser vendido para quem não ouviu esse polêmico single de maneira alguma. E nem vai ouvir. Um problema de Bluesman é que ela traz a agressividade lapidada de suas raízes, porém não traz aquela marcante combatividade vista ali. Mesmo assim, o álbum ainda não perde seu mérito
Nesse ano de 2020, triste, chato e irritante, Diogo lança seu terceiro trabalho: “Não tem Bacanal na Quarentena”. Nove músicas excelentes, naquele mesmo sentimento de trazer públicos distintos para ouvir o mesmo álbum, que, na minha opinião, foi o que melhor acertou nesse quesito de agrado a gregos e troianos. Um álbum com muita resistência contra esses momentos lúgubres que estamos vivendo. Basta apenas ouvir as panelas a bater no fundo de “Tudo Vai Dar Certo”, segundo faixa, que por motivos desconhecidos, é harmônico e emocionante. A obra carrega modismos que logo vão passar, com uma Cardi B sampleada em “Amo a Cardi B e Odeio o Bozo”. Mas que mesmo com modismos, o álbum ainda será lembrado posteriormente, como “Tropa do Babu” com falas do próprio Brother sampleadas na faixa, música essa que é um genuíno trap de qualidade.
Diogo apenas tem 24 anos, tem muita lenha pra queimar e ainda mais ódio para destilar em suas canções. Fiquem atentos a cada passo tomado por ele.
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