O Que Não Nos Representa.

O Que Não Nos Representa.

Representatividade importa, e importa muito. No mês que se comemora o orgulho lgbt, muito se  fala de indicações de obras que nos representem, no cinema, na literatura e em tantas outras mídias. Mas, também é necessário apontar o que está errado e que continua perpetuando o preconceito, e alimentando estereótipos. Eu enquanto mulher Cis – Panssexual e branca, venho abordar sobre isso. Algumas questões não são meu lugar de fala, mas através do texto tento da melhor forma falar sobre.

É urgente que se retratem as minorias cada vez mais. Entretanto, que isso seja feito da forma certa. A maioria dos personagens LGBT aos quais vemos retratados em Hollywood, ou na Tv vem carregados de estereótipos que não condizem totalmente com a verdade. Sempre se coloca o que é mais caricato e “digno” de chacota para o público. Gays, não-binários,  lésbicas, transexuais, sempre postos como alívio cômico, em horário nobre a fim de transmitir uma falsa inclusão, e entreter a massa homofóbica. Colocados no papel do amigo afeminado de alguma cis hetera, retratados como pessoas rasas e fúteis. Há sim gays afeminados, mas não existem somente eles. A mídia dissemina uma imagem do queer deturpada, e sensacionalista.

Um relatório anual feito pelo GLAAD (Gay & Lesbian Alliance Against Defamation), em 2018, denuncia essa representatividade deficiente feita em Hollywood. O relatório anual mostra que nos grandes filmes, os resultados não são nada bons. Em 2016, 23 filmes produzidos pelos grandes estúdios haviam personagens LGBT, mas este número caiu para apenas 14 em 2017. Não apenas os números, mas também uma avaliação da qualidade desta representação são analisados. O relatório mostrou que gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros, quando apareceram nos filmes, tiveram participação bem pequena: em metade das catorze produções com personagens LGBT eles apareciam por menos de cinco minutos. Vito Russo, é um teste que julga três elementos: 1. Se o personagem é claramente LGBT, e não apenas sugerido como tal, 2. Se ele não é definido apenas por sua orientação sexual ou identidade de gênero e 3. Se possui um papel importante na trama.

Essa representação problemática gera algumas formas de apropriação da representatividade LGBT, uma delas conhecida e infame é o Queerbaiting.

QUEERBAITING E TRANSFOBIA

Recurso usado para chamar a atenção do público LGBT para uma falsa representatividade, muitas vezes até inexistente. O termo vem do inglês “queer” (antigamente pejorativo, mas que foi retomado pela comunidade LGBTQ) e “bait” (“isca”), o queerbaiting trata-se de uma estratégia midiática utilizada na indústria do entretenimento – em filmes, séries, livros, HQs, mangás ou animes. 

A  autora J. K. Rowling fez uso do recurso, quando ela revelou depois do lançamento de todos os livros da saga, que sempre pensou no personagem Dumbledore como gay. Não há nenhuma confirmação na história sobre a sexualidade dele. Claramente uma representatividade falsa, para apenas chamar atenção do público LGBT.

Rowling, ainda tem se mostrado cada vez mais desrespeitosa com a causa. Recentemente, ela foi transfóbica ao twittar defendendo a pesquisadora Maya Forstater, que perdeu o emprego em março após se posicionar contra uma legislação que permitiria que as pessoas trans se identificassem com outros gêneros. 

“Vista-se como quiser. Chame a si mesmo do jeito que preferir. Durma com qualquer adulto que puder consentir e quiser você. Viva a sua vida da melhor forma, em paz e em segurança. Mas tirar as mulheres de seus empregos por dizerem que sexo biológico é algo real?”, questionou a autora de Harry Potter. 

Rupert Grint que deu vida ao personagem Ron Weasley, se juntou aos colegas, Daniel Radcliffe e Emma Watson, mostrando apoio à comunidade trans.

“Eu apoio firmemente a comunidade trans ao redor do mundo e compartilho dos sentimentos expressados pelos meus colegas. Mulheres trans são mulheres. Homens trans são homens. Todos deveríamos poder viver com amor e sem julgamentos”, declarou Rupert.

“Pessoas trans são o que dizem ser e merecem viver suas vidas sem serem constantemente questionadas ou informadas de que não são quem dizem ser. Quero que minhas seguidoras trans saibam que eu e tantas outras pessoas ao redor do mundo consideramos, respeitamos e amamos vocês por quem são”, escreveu Emma, atriz que interpreta Hermione.

A falta de tato do hétero, no caso da J.K. Rowling, tem efeitos terríveis e pode ser traduzida de diferentes formas, como por exemplo quando se usa os LGBTs de maneira fetichizada, ou como isca para popularizar suas obras.

O LGBT COMO ATRAÇÃO PARA O HÉTERO

O caso que exemplifica bem isso, é o personagem Crô, que está na mídia novamente, por conta da reprise da novela “Fina Estampa”. O papel de Marcelo Serrado, ator cis e até onde se sabe hétero, é bastante estereotipado. Trejeitos afeminados ao máximo para dar mais comicidade ao Crô. Retratado como um capacho e cúmplice de sua patroa. Personagens como esses só reafirmam arquétipos que não condizem com a realidade em sua máxima. Esses papéis são feitos para um tipo de público, o heteronormativo. O personagem em questão contempla apenas uma pequena parte da população lgbt, que inclusive sofre muito preconceito. O grande problema aqui, é a ridicularização, e a quase nula representatividade.  Provando o que foi publicado no relatório do teste ‘Vito Russo’.

Outro exemplo de desserviço à comunidade LGBT é a fetichização acerca do relacionamento lésbico. O filme “Azul É A Cor Mais Quente” (2013), é um dos exemplos mais mencionados quando o assunto é esse. O filme o tempo todo reforça uma sexualizaçao exarcebada da relação de uma menina com seu interesse romântico. Cenas de sexo lésbico longas e que remetem à filmes pornôs. As atrizes principais, Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos, inclusive relataram os assédios sofridos no set de filmagem. Uma entrevista de Léa Seydoux à revista “Esquire”, em 2013, confirma todos os abusos físicos e mentais cometidos pelo diretor do filme, Abdellatif Kechiche.

Fetiche, ou apenas descaso, podemos observar o quão é recorrente os problemas da representação LGBT em obras audiovisuais. E o que me trouxe ao tema deste texto foi justamente uma série que passei a assistir recentemente.

MODERN FAMILY E CONCLUSÕES ÓBVIAS

Estou assistindo a série “Modern Family”, no geral é divertida, e engraçada. Porém, ao longo de 4 temporadas, o meu desconforto a cerca do casal gay, composto por homens cis e brancos vem aumentando. Pouca representatividade há ali, a não ser para encher a boca dos produtores para dizerem que tem personagens LGBT em sua série. 

Cameron e Mitchell, são um casal que mal se toca, ou são carinhosos um com o outro, dormem longe na cama, e nem ao menos beijam na boca. Além de caírem naquele mesmo problema, são rasos, caem na mesma fórmula do alívio cômico. Nenhuma vida pregressa nos é apresentada. São preconceituosos com seus iguais. Inclusive são racistas com a própria filha adotiva, de ascendência vietnamita. Eles são retratados como se a relação deles não fosse normal, e tudo gira em torno da sexualidade deles. Casais homoafetivos são normais, assim como os heteros. Por que não retratá-los de forma mais fidedigna? A série tem 11 temporadas, e já foi finalizada. Espero que a mesma melhore no quesito representatividade.

Para além do que é apresentado em cena, fora dela existe também um problema de representação. Ainda é bastante pequeno o número de profissionais LGBTs nos bastidores. Para se representar uma classe bem, é preciso vivência. E isso reflete no que estão nos entregando. É de suma importância que em todos os departamentos da indústria cinematográfica haja ao menos um indivíduo que nos represente, que saiba o que está fazendo, e com quem estão falando. Entretenimento responsável para todos, Hollywood, TVs à cabo e abertas. Representatividade é importantíssimo, influenciar o público para o certo é fundamental. A mídia é influenciadora e formadora de opiniões. Portanto, ela precisa ser responsável e condizente com a realidade LGBTQIA+.

Falando de algum lugar no universo - Aysla de Oliveira

Estudante de letras, mãe águia da Mari, feminista, leitora em remissão, "resenheira" de cultura pop e mãe de gatos.

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