Considere o “dia de hoje” referido no título deste texto como o momento desta publicação, junho de 2020. A pauta do problema racial nos EUA poucas vezes foi tão significativa. Há quase 1 mês o país está em chamas, tomado por revoltas e protestos, após a polícia assassinar um homem negro indefeso, George Floyd. Essa comoção, justa e nobre, se espalhou pelo mundo. É nesse contexto em que Spike Lee, em parceria com a Netflix, lança Da 5 Bloods. Filme onde uma das principais discussões é o descaso do governo americano para com a população negra. Toda crítica e problemática apresentadas nessa obra não poderiam ser mais pertinentes.
Sinopse

Spike Lee conta a história de quatro veteranos de guerra, afro-americanos, que voltam ao Vietnã à procura dos restos mortais de seu comandante e de um tesouro enterrado.
A Guerra Nunca Acaba
Certamente “a guerra nunca acaba para aqueles que participaram dela” é um clichê quando pensamos em filmes com esse tema, já vimos isso em muitas obras. Mas ainda assim é um clichê honesto e verdadeiro. Não conhecia nenhuma que retratasse essa perspectiva por personagens negros. Isso porque os filmes hollywoodianos de guerra não costumam projetar a figura do herói em uma pessoa preta.
Essa inclusive é uma das críticas do filme, quando os personagens fazem uma piada com Rambo. No cinema, tradicionalmente, o herói de guerra é um homem branco, mas na realidade não. Remontando até a guerra de secessão, passando passando pelos conflitos do século XIX e XX, historicamente o negro sempre foi colocado na linha de frente do combate, as vidas de menor valor, colocados ali justamente para morrer. Se para um americano branco a guerra no Vietnã não fazia sentido, imagina para um negro.
Enquanto jovens negros morriam pela pátria em solo Vietnamita, no mesmo momento nos EUA, pessoas negras eram assassinadas, reprimidas e agredidas enquanto lutavam por direitos civis básicos. O clipe de abertura do filme faz uma contextualização fantástica de tudo isso.
Voltando para questão de que “a guerra nunca acaba” aqui acompanhamos esses 4 homens negros, veteranos, e conseguimos ter um vislumbre sobre como cada um deles lida com o trauma.
Heroísmo

Em sua filmografia Spike Lee sempre fez questão de valorizar e glorificar feitos de pessoas negras. O que é muito importante, tendo em vista que negros são normalmente invisibilizados. Aqui ele faz isso de forma muito clara e objetiva, cita alguém, seu feito, e insere a imagem da pessoa na tela.
Ele precisa que nós vejamos essas pessoas, e conheçamos seus atos. Negros também fizeram história e foram heróis. E essa construção heroica é personificada no personagem Norman (Chadwick Boseman), comandante do destacamento, antigo líder do grupo de veteranos.
Norman morreu em combate durante a guerra, é uma figura mítica na narrativa, é alguém extremamente idealizado e inspirador. Ele só aparece aqui em memórias dos quatro veteranos. E isso solidifica ainda mais seu caráter mitológico.
Enquanto negro, todo esse arco envolvendo a figura de Norman é algo que me toca, nós precisamos desse tipo de representatividade. E Chadwick Boseman, que ganhou o mundo como Pantera Negra, estar nesse papel é muito simbólico.
O Melhor Spike Lee

Não sei se esse é o melhor filme deste diretor, mas certamente é seu melhor trabalho na direção. Spike está muito seguro seguro e confortável dentro de sua própria linguagem. Ele quebra elementos narrativos da linguagem cinematográfica, a inserção na tela de imagem das pessoas reais citadas é um exemplo, mas isso é muito natural, e faz sentido quando pensamos que essa é uma obra de protesto.
A escolha de não rejuvenescer os atores nas cenas do passado, ou trocá-los por atores jovens é outra escolha incomum, que causa estranheza de início, mas logo se justifica ao entendermos que estamos vendo memórias, e que manter os atores idosos também mantém nosso vínculo com cada personagem.
Além disso Da 5 Bloods é um filme muito estiloso, principalmente em fotografia e edição. Temos aqui duas linhas temporais, o presente dos veteranos tentando achar o tesouro e os restos mortais de Norman, e o passado nas memórias da guerra. Cada segmento temporal tem uma fotografia distinta. As cores são bem mais saturadas e granuladas nas imagens do passado, remetendo à uma estética de filme analógico.
Enquanto o presente é bem mais limpo e claro, cores equilibradas, e estética de filmagem digital. As transições de uma linha temporal para a outra são visualmente brilhantes, pois além da estética muda também a proporção de tela, 18:9 no presente e 4:3 no passado.
A transição de aspecto é sem cortes, a tela simplesmente diminui ou se expande na frente de nossos olhos, e isso é feito de forma tão natural que as vezes nem percebemos.
É a primeira vez que me deparo com esse recurso imagético e me parece muito válido em termos narrativos, pois a conexão visual dos momentos separados no tempo reforça a continuidade dos sentimento e traumas dos personagens.
Outro elemento que me encantou foram as cenas de ação no passado. Essas cenas de combate na guerra são muito estilizadas, teatrais, cria uma dimensão lúdica e potencializa o caráter mnemônico da ação.
Sobre pessoas e suas relações

Como já ficou bem claro até aqui essa obra propõe muitas reflexões sobre racismo e guerra. Mas para além desse importante contexto a história contada aqui é sobre pessoas e sua relações. A narrativa se foca em dois dos quatro veteranos. São dois personagens diametralmente opostos. Otis (Clarke Peters) é uma homem centrado, lúcido e contido, em contrapartida Paul (Delroy Lindo) é alguém atormentado pelos fantasmas da guerra, afetado, parece estar sempre no limite da sanidade. Essa dualidade é atravessada pelo personagem David (Jonathan Majors), filho de Paul e afilhado de Otis. As relações dentro desse triângulo são dramaticamente complexas e muito belas.

Vale destaque aqui para atuação de Delroy Lindo, ele quase rouba o filme para si. Seu personagem tem uma carga dramática muito pesada, e ele consegue transmitir tudo isso de forma crua e direta.
Por Fim

Esse filme não se limita a tratar apenas de fatos passados, mas usa a história pregressa para que possamos ter melhor compreensão do que estamos vivendo hoje, e de como podemos combater esses males. Spike Lee se mostra cada vez mais um cineasta virtuoso e genial, e bem mais importante que isso, um dos grandes nomes na luta antirracismo.
Da 5 Bloods é importante, com imagens simbolicamente muito poderosas, e extremamente pertinente. É um filme sobre a luta do pessoas negras, sobre a brutalidade e falta de sentido da guerra, mas também é sobre família e representatividade. Já é uma obra histórica pela contexto em que foi lançada. Continuemos lutando.

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