Novo Shaman King! O universo de Hiroyuki Takei ー Parte 2

Novo Shaman King! O universo de Hiroyuki Takei ー Parte 2

Até o episódio anterior: Yoh Asakura, o novo aluno que veio de Izumo e entrou na minha classe, é um xamã! Pera, eu não sou o Manta… mas dou as boas vindas pra você, que veio acompanhar a segunda parte dessa jornada pelo mundo de Shaman King e pelo universo de Hiroyuki Takei!

Na primeira parte deste texto, eu apresentei os detalhes por trás do renascimento de Shaman King: desdobrei o caminho percorrido pela obra até o anúncio do novo anime em 2021, comentei por alto sobre Takei e sobre como os outros mangás do universo do autor estão convergindo com as novas séries de Shaman King

Mas afinal, quem é Hiroyuki Takei na fila do pão? E do que se trata nos seus mangás, que ainda atraem fãs ao longo dos anos? Preparem suas almas para ter um vislumbre do Grande Espírito que é esse autor.

Um grande companheiro e o Budismo

Manequim de Hiroyuki Takei na exposição de Shaman King em Tokyo (2020)

Antes de Shaman King encarnar, o jovem Takei de 18 anos possuía um interesse ainda nebuloso pela vida de autor de mangá. Foi sugado, inicialmente, por uma das primeiras obras de Hirohiko Araki (famoso por Jojo’s Bizarre Adventure), o Cool Shock B.T. (1983) que é sobre um jovem mago que resolve mistérios. Foi só depois de ter um filho, aos 20 anos, que Takei passou a trabalhar como assistente de autores publicados. Depois de ganhar o Tezuka Awards da Shounen Jump pelo one-shot “Anna, a Itako”, conheceu o autor de Rurouni Kenshin (Samurai X no Brasil), Nobuhiro Watsuki. Essa foi uma grande guinada na carreira de Takei, pois foi da experiência de trabalhar com Watsuki e junto a outros assistentes notáveis desse autor, como Eiichiro Oda (One Piece), que suas primeiras histórias publicadas foram geradas.

Foto comemorativa: “Um certo bando do Eiichiro Oda”. Oda no centro, pernas cruzadas. Takei à direita, fumando.

E ninguém melhor pra comentar a trajetória de Takei do que alguém de grande calibre no mundo dos mangás, mas que também é um amigo próximo. Nas seções de perguntas e nos “comentários do autor” que Oda faz em cada volume do mangá de One Piece, é possível encontrar comentários sobre o relacionamento dos autores: Oda diz que são amigos, e que se divertia bastante com a primeira publicação de Takei, Butsu Zone. Eles fizeram um juramento de serem publicados juntos na mesma revista, e tiraram uma foto comemorativa quando Shaman King foi publicado na Jump, um ano depois de One Piece.

Oda também menciona que trocam mensagens e se visitam às vezes, e que chorou quando viu a adaptação de Shaman King para anime. Considerando Takei seu maior rival, a ponto de sentir que nem ele conseguiria desenhar os tipos de quadro que Takei faz, Oda o chama de “um cara incrível”. Ainda que seja costume nas obras da Jump, algo que sempre me atraiu muito nos dois autores são os índices de capítulos e os títulos de volumes separados tematicamente de acordo com os arcos da história. Do mesmo modo que One Piece começa com “Romance Dawn”, Shaman King começa com “O garoto que dança com espíritos” e eu vejo que uma atenção especial é dada por ambos ao seguir essa fórmula com sensibilidade aos temas da narrativa.

Painel com arte colorida do primeiro capítulo de Shaman King, ”O garoto que dança com espíritos”, na exposição de Shaman King em Tokyo (2020)

Apesar de saber muita informação do Takei pelos extras dos mangás de Shaman King e por materiais na internet, só no final do ano passado pude conhecer um pouco mais do homem por trás da obra, graças à entrevista-documentário do grupo Archipel (que mencionei no post anterior). Nela, um Takei bem relaxado e aberto conta que gosta de desenhar coisas próximas a ele, e esse foi o motivo de desenhar estátuas de Budas em Butsu Zone, sua primeira publicação na Weekly Shounen Jump. Mas por que isso era próximo a ele? Takei é da prefeitura de Aomori, onde fica o templo Seiryu, casa da maior estátua sentada de um Buda no Japão. O conceito da “zona de Buda” se refere à manifestação terrena das divindades através de uma estátua, ideia base para a história de Butsu Zone.

Foto do monte Osore tirada por Takei e postada no seu twitter pessoal em 2017
Cenário do monte Osore em Shaman King

Em Aomori também é onde fica o Monte Osore, região considerada no budismo japonês como uma das entradas para o outro mundo. É uma das localidades mais relevantes do mangá de Shaman King, onde a Anna foi criada. Sim, a Anna do primeiro one-shot de Takei é a base da Anna de Shaman King, e também aparece na história de Butsu Zone. Essa primeira obra é importante, porque foi cancelada quando tinha apenas 3 volumes, e contém muitos elementos protótipos dos que aparecem na narrativa de Shaman King. Talvez, Butsu Zone possa ser considerada a verdadeira história que Takei queria contar.

A origem da alma de Shaman King

Volume 2 de Butsu Zone, com Ashura (Relançamento, Shueisha, 2007)
Volume 1 de Butsu Zone, com Senju (Relançamento da Shueisha, 2007).

Butsu Zone é a história de Senju, discípulo e emissário de bodhisattva Kannon, que foi enviado pela deidade central Dainichi Nyorai para guiar a jornada de despertar e iluminação de Miroku, o futuro Buda que salvará a humanidade. Se você conhece essas figuras e entendeu tudo isso, parabéns, pois os editores da Shueisha acharam que era referência budista demais até para o público japonês acompanhar com facilidade. Foi por esse motivo que Takei recebeu seu primeiro cancelamento, mas não sem um afago: a história era boa e gostada, era só refazer reduzindo bastante as referências budistas diretas. Esse foi o direcionamento dado pelo editor de Takei, e assim nasceu Shaman King.

Um bodhisattva é um ser no caminho da iluminação para se tornar um Buda. Senju é o espírito de bodhisattva Avalokiteshvara, nome grande e bonito que você pode ver atrás dele ali na capa do vol.1 acima. Ele é aquele que representa a suprema compaixão de todos os Budas, muitas vezes a despeito do que os próprias Budas acham. Senju é um tanto transgressor, quebrando regras em nome dessa compaixão e se incomodando com injustiças mesmo contra seus inimigos. Diferente dos outros bodhisattvas, ele não se importa de ir contra o dharma, que pode ser entendido como a lei natural ou o destino, e diz que pra tudo se dá um jeito (já ouviram essa?).

“Vamos dar um jeito. Se não tentarmos, nada vai começar, não é?” 


Um dos temas principais em Butsu Zone é se conseguimos romper o ciclo do ódio e vingança. Esse é um papel muito ocupado pelo principal antagonista, Ashura, que também era um discípulo de Kannon e amigo de Senju, mas se aliou aos demônios de Mara por não acreditar mais que a humanidade é digna de salvação (essa vocês já ouviram também). Ele testa a compaixão de Senju atacando e machucando constantemente seus amigos ou outros inocentes, tentando fazer com que se perca de si e entre em fúria. 

Hao e seus seguidores, que compartilham da ideia de que a humanidade não merece salvação.

Já deve ter ficado claro que Shaman King herda muito de Butsu Zone (mais do que posso evidenciar aqui). Temos um pouco de Senju no Yoh e um pouco de Ashura em personagens como Tao Ren e o próprio Hao. Butsu Zone contém uma raiz temática que irradia não só para Shaman King mas também para todos os outros trabalhos de Takei. Eu vou trazer um dos outros exemplos mais proeminentes dessa influência a seguir.

A batalha eterna

Vice (esq.), Ultimo e Dunstan (dir.)

Eu mencionei no último post que Takei tinha uma relação com ninguém mais ninguém menos que Stan Lee, criador do Homem Aranha e líder criativo da Marvel. Stan Lee conta em uma entrevista que gosta muito de mangá e desejava fazer um trabalho de colaboração com o melhor autor de mangá. E pra ele, o melhor é Takei! O projeto deu origem a Karakuri Douji Ultimo (lit. Criança Mecânica Ultimo). A história gira em torno de duas crianças-robô criadas para definir o conflito moral entre o bem e o mal, e foi pretendida para agradar tanto o público japonês quanto norte-americano

Os 12 volumes de Ultimo (edição japonesa, Shueisha)

Há “bem” e “mal” em todos os corações humanos, mas qual é mais forte? As crianças mecânicas foram criadas para responder essa questão. Ao fazer um pacto e reconhecer alguém como “mestre”, elas aprendem sobre o coração humano na medida que convivem.

As situações vividas por elas, inclusive cruzando tempo e espaço, são similares à dinâmica esboçada entre os Bodhisattvas em Butsu Zone. Claro, Takei dividia a prancheta com Stan Lee, não era ele quem liderava o roteiro. Um detalhe importante, entretanto, é que seu estilo aparece de outras formas, ainda mais a sua graça. Por exemplo, a pessoa que buscava entender de quem é a supremacia da moral, o criador das crianças mecânicas, é um velho misterioso chamado Dunstan…

STAN!
LEE!

Entre flores e estrelas

Todos os 6 volumes de Flowers (acima) e os 4 volumes de The Superstar lançados até então

Takei disse ao Archipel que gosta muito de criar e desenhar designs “legais”, e foi isso que ele fez nos seus projetos não-relacionados a Shaman King. Desenhou as crianças mecânicas de Ultimo. Se afundou mais ainda na temática mecha/robô em outro de seus trabalhos, Jyuki Ningen Jumbor (lit. Humano Metal-pesado Jumbor). Em seguida criou Nekogahara, a história de um gato samurai andarilho que busca um lugar para encerrar sua vida. Esses outros mangás de Takei tiveram um papel fundamental em pavimentar o caminho para que o nome do autor se mantivesse vivo na indústria de mangá. Sem isso, é possível que o projeto de 20 anos de Shaman King não tivesse vindo com tanta força.

Desde a conclusão de Shaman King Flowers, que não encerrou a história do filho de Anna e Yoh, ficamos esperando por uma continuidade. Antes mesmo de existirem séries sobre “o filho do protagonista”, como Boruto e similares, Flowers mostrou Hana como um garoto que cresceu ouvindo as histórias do Shaman Fight da sua família. E a consequência disso é um adolescente entediado por não ter algo do tipo em sua vida e aborrecido pelos pais terem sumido no mundo. Isto é, até ficar sabendo que foi escolhido para participar do Flower of Maze, uma disputa entre o atual Shaman King e os do passado. 

O piloto “Death Zero” no one-shot

O ponto em que a história de Flowers se interrompe é uma ponte para The Superstar, a tão esperada continuação, e mais uma evidência da convergência de obras em Shaman King. Takei integrou em Flowers a sua segunda história de início de carreira (após Anna, a Itako), o one-shot Death Zero. Ele é fruto da fascinação que Takei tem com veículos de transporte e guerra de todos os tipos (mas nesse caso, de aviões) combinada com reflexões sobre o destino que tiveram os kamikazes, os soldados sacrificiais do Japão na Segunda Guerra Mundial.

Death Zero reaparecendo no volume 1 de The Superstar

Em The Superstar, o foco da narrativa sai um pouco de Hana e Sakurai, que é o famoso “Death Zero” e candidato a espírito-guardião do garoto. Ao invés disso, acompanhamos as missões de uma personagem já introduzida em Flowers: Allumi Niumbirch, que possui a alcunha de terceira Anna, a Itako. Allumi é filha de Silva, o oficial da tribo Patch que supervisionava Yoh no Shaman Fight. Ela treinou com a própria Anna, e foi aprovada não só como Itako mas como noiva para manter a linhagem xamânica da família Asakura. Como os personagens não estão mais em 1999, a prática de casamento arranjado, mesmo entre xamãs, seria estranha. Mas Hana e Allumi, assim como Yoh e Anna, possuem um passado juntos, e ele vai sendo desvelado aos poucos.

Allumi e Silver Wing (esq.), Hana e Amidamaru (dir.) na arte do capítulo 1 de Flowers

Takei adotou uma estratégia onde The Superstar é o carro-chefe da narrativa atual de Shaman King, mas não acontece sozinho. Existem também duas outras histórias que o complementam: Shaman King Red Crimson, que encerrou a publicação recentemente, em 4 volumes, e Shaman King Marcos, que ainda está sendo lançado. Red Crimson tem Tao Jun e Lee Pailong como protagonistas, lidando com o legado de ódio da família Tao, que Jun e Ren tentam mudar. Já em Marcos, os X-LAWS remanescentes buscam meios de realizar o mundo ideal almejado pela Iron Maiden Jeanne, e saem atrás do capitão Marco, desaparecido após o Shaman Fight. 

Ambas as narrativas têm detalhes e surpresas importantes para qualquer fã de Shaman King e se entrelaçam de diversas maneiras com The Superstar. Visto tudo isso, pode ser meio confuso entender como cada obra se relaciona com a outra, especialmente na linha do tempo ou na ordem de leitura. Por isso, a Kodansha lançou uma edição digital gratuita com o primeiro capítulo de cada uma das séries de Shaman King, e um mapa com a ordem recomendada: Zero; o original; Flowers; Red Crimson; The Superstar; e Marcos. 

Uma jornada espiritual

Matamune na última estação de trem

Chegamos ao fim desta breve jornada pelo universo de Takei, que ainda reserva mais a ser visto. O que é aquilo que avisto lá no céu, seria o santo Jizô? Quem não conhece essa referência ao poema de Matamune, certamente vai conhecer com o anime de 2021. Neste texto, eu decidi trazer para vocês um guia pelo mundo de Takei o mais sem spoilers possível. Eu não exagero quando digo que uma história como Shaman King é melhor aproveitada quando lemos ela menos como um mangá shounen e mais como uma experiência de reflexão sobre nossas vidas, valores e sociedade. Nesse sentido, é isso que Takei sempre nos convida a fazer: Olhar para que caminhos nossos corações escolhem diante das adversidades e retornar a quem somos, sempre que necessário. Meu sincero desejo é que o novo anime entregue a mensagem tão bem quanto o mangá para ainda mais gente. Agradeço por terem lido até aqui, e que o Grande Espírito esteja com vocês! 

Falando de algum lugar no universo - Maurício Moura

Psicólogo, pesquisador e apaixonado por boas narrativas. O sangue ferve por sci-fi e robôs gigantes, mas a manteiga derrete até com uma comediazinha romântica.

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