Pantera Negra – Wakanda é meu país!!

Pantera Negra – Wakanda é meu país!!

Ontem fomos ver Pantera Negra nos cinemas, o filme que, se pelo menos não é o melhor da Marvel, é o melhor no meu coração.

SINOPSE

Após a morte do rei T’Chaka (John Kani), o jovem T’Challa (Chadwick Boseman) precisa substituir seu pai no trono do reino (fictício) de Wakanda, escondido no coração da África, e também vestir o manto (ou armadura?) como o novo Pantera Negra.

COMENTÁRIOS

Olha, esse filme tem tanto a ser dito que eu nem sei ainda como vou estruturar esse texto. Eu acho, inclusive, que vou fazê-lo a duas mãos. Vamo ver aí.

Primeiro que esse é provavelmente o filme introdutório mais bem elaborado da Marvel. Se não o mais bem elaborado, certamente o que tem mais profundidade. Porque, fora o primeiro Homem de Ferro e, com ressalvas, Doutor Estranho, os filmes de introdução dela em geral são bem medíocres no sentido mais honesto da palavra, ou seja, filmes medianos. Capitão América e Thor tão aí pra provar (Guardiões da Galáxia é uma exceção, mas é um filme sui generis). Você pode sugerir que isso acontece porque, na verdade, o personagem já nos foi apresentado na Guerra Civil. E eu aceito. Mas não muda o que eu falei.

Até porque, se em outros filmes, o conflito é muito mais pessoal (fora, claro, Capitão América), nesse aqui muita coisa está envolvida. Não é só o super-herói protagonista. É todo o reino dele. Toda a família está envolvida. De certa forma, todo o mundo, e todos aqueles que ele representa e pode representar estão em jogo nessa história. Além disso, é a obra que mais cativou meu coração, e repito, não tenho condições pra julgar outro filme (da Marvel) melhor que esse. Admito que minha visão está turva. Mas não me sinto mal por isso. Aliás, o fato de tanto estar em jogo faz com que esse filme seja o que mais pode ter interpretações políticas e sociais, o que sempre me agrada muito. Mas vou tentar pegar leve nesse texto. Ou separar um bloco só pra esse assunto.

Mas tem algo que não posso deixar de falar: o contexto social em que o personagem é criado. Na década de 1960, as discussões sobre racismo fervilhavam nos Estados Unidos, com as leis Jim Crow e diversos abusos sendo relatados. Tais leis, que recebem o nome por uma figura estereotipada do negro no cinema, em resumo institucionalizaram o racismo nos estados do sul dos EUA. Imagino que vocês já tenham visto ou ouvido falar de banheiros separados por cor,  lugares nos ônibus e restaurantes que não serviam negros (Muhammed Ali tem uma história sobre isso, vídeo no final do texto). O partido dos Panteras Negras surgem em 1966, mesmo ano de criação do personagem, e devo dizer: fiquei um pouco decepcionado ao descobrir, em pesquisa para esse texto, que o nome do herói não é inspiração direta no movimento. Ou pelo menos é o que é dito em meios oficiais. Inclusive, no subtexto, quando se permite ver o filme além dele mesmo, dá pra ver várias referências a esse movimento histórico que falarei mais adiante. O que importa é: para aqueles que se importam com a luta e causa negra, Pantera Negra é um personagem muito importante! Ele não foi o primeiro negro dos quadrinhos, mas o primeiro a ter poderes, e o primeiro dos quadrinhos grandes a ser africano. Fora que é um dos principais nomes quando se pensa num herói negro que não possui o estereótipo das pessoas afro-americanas. No final deste texto, vamos colocar o vídeo do Nerdologia que ajuda nessa explicação.

Isso posto, algo que agrada nesse filme é justamente o fato de não se furtar à discussão do sofrimento negro em diversas partes do mundo (focado no contexto africano e norte americano): não se deixa de falar na violência em comunidades, nem na vivência nelas, nem em como povos africanos são vistos, e temas muito sutis são abordados de maneira que, se você não prestar atenção, não verá. Eu cito de cara o exemplo do debate sobre meninos soldados. É muito breve, mas está no filme. E quem estiver atento, vai pegar.

E puxando já um gancho do parágrafo anterior, se de certa forma o filme não deixa de nos mostrar aspectos reais da África e dos afro-americanos, o filme nos dá uma NOVA perspectiva de África! Todos sabemos como o continente foi vilipendiado e até hoje explorado e convenientemente ignorado. Mas e se houvesse uma forma de, em partes, ou em todo o continente, haver riqueza ali que pode ser aproveitada (e há, que fique claro)? E se novas tecnologias pudessem ser desenvolvidas lá (e podem, que fique claro)? E se o povo não precisasse se render a uma cultura eurocentrada para se desenvolver, mantendo suas próprias tradições e rituais, mas tendo uma perspectiva de vida muito mais avançada?

Existe um movimento cultural, principalmente na literatura, chamado de Afrofuturismo, que devo confessar, não conheço muito. A nível de estudo, vou por um episódio do Anticast como referência no final do texto. E vou me permitir cagar a regra de dizer que esse filme é um ÓTIMO exemplo de afrofuturismo. Tradição e avanço tecnológico progredindo lado a lado, sem se ofender, mas se completando de uma maneira muito bonita. É lindo de ver.

Falando em beleza: tudo nesse filme é bonito. TUDO. Os atores e atrizes são lindos. Os cenários são fantásticos. As lutas são excelentes. As músicas, mesclando entre orquestra e instrumentos tradicionais de percussão de fundo, são maravilhosas. Mas o que mais me cativou, mesmo, foram os detalhes. As roupas, as inscrições, as estruturas. Sério, é tudo incrível, de deixar emocionado.

“Eu nunca me canso disso” [T’Challa, ao retornar a Wakanda]

Mas é claro que nada é perfeito, e esse filme tem, sim, falhas. O enredo tem um aspecto profundo mas, na verdade, é muito simples. As armas de Chekov são muito óbvias. E é muito provável que, quando minha empolgação acabar, ele se torne só mais um filme muito legal. Mas pelo menos ele é diferente o bastante para não ser esquecível. Ufa.

“Vamos ao nosso quadro pontos fortes e pontos fracos” [CULTURA, Choque de]

O QUE EU GOSTEI

Um monte de coisa. Vamo lá

  • Direção. Ryan Coogler mandou bem DEMAIS.
  • Atuações: O trio de protagonistas, Chadwick Boseman (T’Chala), Lupita Nyong’o (Nakia) e Danai Gurira (Okoye) é fantástico. Os antagonistas Michael B. Jordan (Erik Killmonger) e Andy Serkis (Ulysses Klaue, sem falar os eternos Gollum e Cesar) também. Inclusive o elenco de apoio, com Forest Whitaker (Zuri) e Daniel Kaluuya (W’Kabi, sem contar o protagonismo em Corra!). Até quem eu achei que não iria mandar bem me surpreendeu, como a jovem Letitia Wright (Shuri). É melhor parar por aqui senão vou ficar rasgando elogios por tempo demais.
  • Fotografia: vou evitar falar do que eu não sei. O que eu sei é que toda cena que mostra as paisagens de Wakanda são maravilhosas, tanto externas quanto internas. Tem uma sequencia noutro país que é de tirar o fôlego também. E os efeitos especiais no geral tão muito bons (chupa DC).
  • Trilha sonora: misturar elementos tribais com orquestra conquistou meu coração.
  • Afrofuturismo!!!
  • Finalmente um filme da Marvel com mais de 5mm de profundidade. Debates atuais disfarçados de filme de ação.
  • Motivações dos personagens.
  • Atenção aos detalhes visuais.

O QUE NÃO GOSTEI

  • Os trailers. Caralho vei, que desgraça que esse povo tem de mostrar final de filme em trailer. Não vejam, sério.
  • Querendo ou não é um filme bem simples. Com muita coisa a ser mostrada e debatida? Sim, com certeza. Mas ainda é uma aventura bem comum.
  • Armas de Chakov óbvias demais. Em muitos momentos a expectativa que devia ser gerada não vem, porque você já sacou o que vai acontecer.
  • Eu elogiei as motivações né? Mas não de todos. Tem gente ali que claramente só tá seguindo o fluxo. Alguns só seguem conveniência de enredo, enfim.
  • 3D. Inútil e desnecessário. Não vai atrapalhar, mas não vai acrescentar em nada. Não gaste seu dinheiro nisso.

AGORA COMEÇA A ZONA DE SPOILERS

Pois é, acho que aqui no blog não terei outra chance de falar sobre BP. Então, se você já viu o filme, pode ler essa sessão. Quem ainda não viu, pula pro final. E É SÉRIO, NÃO LEIA SE AINDA NÃO ASSISTIU.

Começar falando da referência que o filme nos dá com relação ao movimento dos panteras negras, que surgiu nos estados unidos em 1966, como já falamos lá em cima. Vou por no final um link de um ótimo documentário sobre eles. Mas é muito interessante ver que alguns aspectos do movimento estão representados aqui. Me perdoem se faltarem nomes, eu sou realmente ruim com eles.

Power to the people… Then and now

Primeiro, sobre como os panteras surgem para proteger os negros estadounidenses dos abusos que vinham acontecendo. E o T’Challa não é nada mais nada menos que o defensor do seu povo.

Vamos mais além, porque isso é óbvio demais. Vocês perceberam que, no final das contas, o filme só tem um vilão? Pois é, só tem um: o Ulysses Klaue. “Como assim? É o Killmonger!” Não, e eu explico o porque. Fora o personagem do Andy Sarkis, TODOS tem um objetivo muito específico: o bem de Wakanda. Todo mundo ali, não só o T’Chala e a Okoye, mas também Killmonger e W’Kabi, querem mais que tudo que Wakanda seja um reino grande e soberano. O método é o que muda: Se os dois primeiros querem que o reino continue oculto e próspero, os outros querem que o reino se expanda, de maneira colonialista e combativa que sempre viram acontecer no resto do mundo. Eles querem o melhor, mas seguindo os próprios métodos. E essa divisão também ocorreu nos Panteras Negras. Enquanto uma vertente do movimento seguiu por caminhos progressistas de diálogo e pautas mínimas, outra parte seguiu a via revolucionária. E as duas fazem muito sentido, quando se pensa que a primeira se baseia no diálogo e na compreensão, ferramentas sociais incríveis, mas muito lentas. A segunda vem de uma frustração e um desejo terrível de mudança e indignação.

Quem conhece minimamente os Panteras sabe, também, o quão relevantes são as mulheres no movimento. Só para citar um nome, Angela Davis. E aqui no filme (e imagino que no quadrinho também), as mulheres são fundamentais. A espiã / par romântico Nakia,  a guerreira Okoye e todas as Dora Milaje, a mãe Ramonda (Angela Bassett), a irmã / engenheira chefe Shuri. T’Challa pode ser homem, assim como as principais lideranças dos Panteras o eram, mas as mulheres são fundamentais.

Free Angela & all political prisioners
Imagem da Angela Davis com legenda

Vamos sair um pouco do contexto dos Panteras e ir prum lado mais político. Não é de surpreender que Killmonger tenha raiva de Wakanda por ter se fechado e se escondido, quando tantos irmãos e irmãs são mortos todos os dias. Muitos deles “preferindo se jogar dos navios que os transportava, porque preferiam isso à prisão”. Se você parar para pensar, a postura de ocultação da Wakanda é quase que uma traição a todos os afrodescendentes que poderiam se beneficiar de seus avanços. É claro que o compartilhamento desregrado pode trazer consequências terríveis, mas (e agora sobre a bandeira vermelha e a Internacional) o que realmente ajuda as pessoas a longo prazo? O acúmulo de capital, ou a distribuição igualitária?

Por fim uma questão social. Não sei vocês mas, para mim, faz todo sentido que uma criança vivendo no gueto, pais mortos, sem apoio, ou melhor, sem conhecer a própria família, convivendo com violência todos os dias, e sabendo que existe uma forma possível de uma vida melhor, que poderia ser dele, mas que lhe foi privada… Não me espanta que tenha se tornado um vilão. “Mas se ele tivesse caráter…” Desculpa, mas saia do discurso fácil, e realmente imagine. Se você não tivesse os privilégios que tem, que pessoa você seria? Note que eu não disse “eu apoio” ou “eu concordo” que ele (ou qualquer pessoa do mundo real por ele representada) seja um ‘vilão’. Mas sim, EU ENTENDO que isso tenha acontecido. Inclusive eu queria muito que, no final do filme, ele fosse reintegrado à sociedade de Wakanda. Mas, como costuma acontecer no mundo real, ele acaba morrendo. Pelo menos morreu bonito. Em geral não é assim.

Vou parar essa sessão por aqui. Se quiserem, puxa conversa que estamos aqui pra te ouvir.

CONCLUSÃO

T’Challa é o ladrão representante do status quo que roubou meu coração. Wakanda é o lugar onde eu quero viver para sempre, e vou defendê-lo. Pantera Negra é história, e vive no presente.

Esse é meu filme favorito da Marvel, por 300 milhões de motivos. Mas talvez, o que tenha faltado dizer no texto todo: é um ÓTIMO filme de super-herói, e um excelente filme de ação. Ignore tudo o que eu falei na sessão anterior, e ainda assim, tenho certeza, você vai se divertir. Vão assistir que vale muito a pena.

Abraços, e deixem nos comentários suas impressões do filme. Abraços!

REFERÊNCIAS:

Nerdologia 307 sobre Pantera Negra e Os Panteras Negras

Muhammad Ali, Campeão Olímpico foi proibido de comer Cachorro Quente

Documentário Os Panteras Negras: Vanguarda da Revolução

Anticast 209 – Afrofuturismo

Página na Wikipedia sobre os Panteras Negras (em inglês)

MATÉRIA: OS NEGROS NAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS – (parte 1parte 2)

Lista de trailers e teasers oficiais do filme

Falando de algum lugar no universo - Fernando Medeiros

Graduado em Ciência da Computação, pai de dois cachorros, sommelier de memes. Criador do (então) falecido Cinenerd.

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