Os museus são espaços de comunicação, pesquisa e difusão de conhecimento. Contudo, mesmo com uma mudança em sua relação com o público ao longo dos anos, os museus continuam sendo representados e compreendidos como espaços de riqueza, luxo e poder. Sendo que nem sempre esta visão está errada.
Essas diferentes formas de ver o espaço dos museus também são refletidas na ficção. Quem não lembra de alguma representação de museus em séries ou filmes?
Desse modo vou trazer aqui alguns dos tipos de representação que mais me marcaram.
O Museu Místico
Esse é um bom exemplo de como muitas produções ficcionais acabam utilizando o cenário do museu como uma ferramenta para conectar seu personagem ao elemento místico do enredo. Em Uma Noite no Museu o elemento místico é a placa egípcia que traz o acervo do museu à vida durante a noite.

Enquanto que em Percy Jackson e o Ladrão de Raios, tanto o livro quanto o filme (triste filme), utilizam o espaço do museu com a excursão estudantil, para inserir a temática greco-romana do enredo. Lá mesmo o personagem tem suas primeiras interações com o esse mundo fantástico.


Museu e Luxo
Um outro aspecto muito explorado dentro das mídias é o museu luxuoso. Local refinado com peças valiosas, geralmente envolvendo joias e pinturas muito famosas, com diversas peças caríssimas sendo exibidas. Então seguindo em uma trama de assalto.
Um exemplo claro disso é o episódio em que a Viper é apresentada na animação As Aventuras de Jackie Chan. Ela consegue roubar um diamante muito valioso que era exibido em um museu e acaba ficando interessada no talismã (olha o efeito místico) que Jackie estava indo proteger.

Além disso existem outros filmes que retratam roubos de peças de museu ou somente o roubo em um museu. Por exemplo a comédia de 1966 com a Audrey Hepburn, Como Roubar um Milhão de Dólares. Audrey interpreta uma jovem que quer proteger o pai de ter suas falsificações descobertas, e acaba se juntando à um ladrão para roubar a peça falsificada do museu.

Menção Honrosa
Por fim, fica aqui a menção honrosa à Ocean’s 8. O plot do filme gira em torno de um roubo durante o MET Gala.
Pra quem não sabe, o MET é a sigla para Metropolitan Museum of Art. É considerado o maior museu nos Estados Unidos e anualmente promove um evento para arrecadar fundos para um setor do museu chamado “Costume Institute”. Só para vocês entenderem o tamanho do luxo, em 2014 chegou a arrecadar 12 milhões de dólares. Ou seja, não é pouca coisa meus queridos.
De volta à Ocean’s 8, um spin off da trilogia Ocean’s, cuja trama gira em torno de roubos super elaborados. Ao contrário dos demais filmes da trilogia, este conta com elenco principal inteiramente feminino. Além disso, o roubo é de um colar que não é parte do acervo do museu.
Acima de tudo, as cenas onde as personagens estudam o sistema de segurança do MET e planejam o roubo são bastante interessantes e engraçadas.

Museus e Poder
Esta é a representação que mais me chama a atenção, tanto pela veracidade quanto pelas diversas formas em que a ficção a retrata. Como esquecer o diálogo sensacional em Pantera Negra, entre Killmonger e a especialista do museu? O personagem a questiona na exposição de obras roubadas/saqueadas e exibidas como artefatos na seção de “África Oriental”.

A apropriação das produções de diversas culturas de forma imperialista e sua exposição em diversos museus renomados ainda é uma discussão potente. Assim quando na cena, Killmonger corrige a dita especialista sobre qual a origem do artefato questionado, é uma mensagem de que objetos de outras culturas não devem ser escritos e narrados por mãos alheias.
Cada sociedade tem o direito de gerir sua produção cultural, sem que outra se sinta no poder de administrá-la. E é justamente ao que se resume, poder. O British Museum, Louvre e tantos outros, ainda hoje se sentem no direito de categorizar, gerir e expôr obras que não lhes pertencem.
Como disse anteriormente, museus são espaços de conhecimento e comunicação, e quem expõe conta a história. De que forma essa história está sendo contada? Para quem se interessar em refletir mais sobre a questão, esse texto de Yirga Gelaw Woldeyes pode ajudar.
Gabinetes de Curiosidades
Ainda sobre a narrativa dos museus como locais de poder, no episódio “Dalek” da série Doctor Who de 2005, essa representação é ainda mais próxima do “gabinete de curiosidades”.
Antes de existirem os museus modernos, muitos dos viajantes que saíam em expedições aos locais colonizados “coletavam” (leia-se roubavam) objetos vistos como artefatos. Estes eram expostos em galerias, gabinetes de curiosidade, e não existia uma preocupação em saber qual era a relevância desses artefatos dentro de suas respectivas culturas. Dessa forma esses artefatos eram troféus que demonstravam poder e dominância.

No episódio, o Doctor acaba ouvindo um pedido de socorro e se encontra em um museu subterrâneo, acompanhado por Rose. Logo no começo do enredo, descobrimos que este museu é do “homem mais rico da Terra” que coleciona objetos alienígenas. Mesmo que não saiba qual a relevância dessas peças e qual a origem, ele as coleciona pelo simples fato de poder fazê-lo.
Portanto acaba sendo bem generalista, tal qual um gabinete de curiosidades, o dito museu tem de tudo que foi possível coletar de diversas épocas e cantos da Terra. Ao caminhar pelos artefatos, o Doctor os reconhece e nos apresenta à alguns deles. Por fim descobre que a peça mais estimada do museu é justamente um “espécime” vivo, um Dalek.

Museus e Resistência
Por último, uma representação que amo é o museu da resistência. O espaço que além de tudo conta nossa história de luta, dos nossos antepassados e do nosso patrimônio. Escrevo esse texto no dia 17 de agosto, que é o dia Patrimônio Histórico no Brasil. Mesmo com todo desmonte promovido pelo governo (desgoverno), esses espaços continuam resistindo.
Bem como em Bacurau, o espaço do museu é símbolo de luta e resistência. Dentro do enredo, ele é citado em vários momentos aos que chegam de fora como uma atração local.

Os que não ligaram para a importância do Museu Histórico de Bacurau perderam a oportunidade de conhecer o passado guerreiro daquele povo. E é justamente esse o local, desvalorizado e subestimado pelos forasteiros, que possibilita a sobrevivência do povoado da cidade de Bacurau.

Conclusão
Existem ainda diversas formas de representação de museus em filmes, séries e animações. Só em Doctor Who são inúmeras, e quem sabe um dia irei falar mais sobre elas. Importante lembrar que estas representações de museus não são excludentes, alguns enredos podem usar mais de uma delas ao tratar desses espaços.
Durante a pandemia, muitos museus na vida real decidiram criar formas de visitação online. O Google tem uma plataforma onde é possível acessar acervos e exposições em diversos países. Então aproveite e pesquise, também, quais são os museus em sua cidade.
Aqui em Salvador, Bahia, tenho um projeto chamado Rolezinho Cultural. A intenção é juntar pessoas e nos aproximarmos dos espaços culturais da cidade. Com a pandemia, o projeto está em pausa, mas você pode conferir nosso grupo onde compartilhamos ações culturais e educativas.

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