Quem é Dom Quixote na fila do pão?

Quem é Dom Quixote na fila do pão?

 Dom Quixote é o grande clássico da literatura espanhola, escrito por Miguel De Cervantes para ser uma sátira aos romances de cavalaria. Mas assim, pegando o livro, logo de cara, cenas de puro humor ácido se tornam um drama com pitada de violência.  A habilidade do Cervantes atenua a situação mas se você for um leitor mais sensível, talvez se sinta impelido a parar a leitura e ir escrever um artigo.

Nem toda palavra é aquilo que o dicionário diz

Pois é, devo admitir, minha quebra de expectativa foi bem grande, em nada me lembrava a versão engraçadinha que li no ensino fundamental. A grande questão que surge é que clássicos são clássicos… mas eles envelhecem. Um simples Google por Monteiro Lobato e você vai entender do que estou falando. Cada obra é filha do seu tempo e eu devia ter levado mais a sério quando, na introdução da minha edição, John Rutherford escreve “(…)No tempo de Cervantes, a loucura e a violência figuravam entre as muitas manifestações da feiura que se podiam enfrentar com o riso”. Vamos lá, não é que o mundo esteja mais chato, ele só está diferente… Ou não também.

Pausa para admiração. Cena do filme “O Homem que matou Dom Quixote”

Loucura é coisa séria

Nesse contexto, é natural se perguntar: Quem seria Dom Quixote na atualidade? Lima Barreto, por exemplo, deve ter sentido algo muito parecido quando escreveu O Triste Fim de Policarpo Quaresma, um Quixote brasileiro. Um louco, um lunático, um ingênuo, mas não se engane: os loucos são muito perigosos. Aqui, você pode se basear em Michel Foucault e falar sobre a história da loucura, mas eu vou por um caminho mais tropical. O conto “O Alienista”, Machado de Assis, define a loucura como uma estrutura de poder: Quem define quem é louco tem o poder da segregação, o médico que indicava os pacientes, no fim, foi o único interno restante do manicômio.

Na busca pela normalidade, talvez você perceba que o louco é você. Ou pior: na sua normalidade, você pode menosprezar o louco, fazer dele um bobo da corte, o que seria um erro fatal, porque o Bobo tinha a grande arma universal todinha para ele, o humor. Ele era o único que, por exemplo, podia fazer críticas ao rei. Agora pense, se no fim quem você pensa que é louco for totalmente são, sabe o que pode acontecer? Você pode colocar a democracia do seu país em risco.

O Filtro Quixotesco

 Ainda assim, toda essa ponderação sobre a loucura não é suficiente para definir nosso querido Quixote. A verdade é que o fidalgo criou sua própria loucura que, com o desenvolvimento da indústria cultural, resulta em um arquétipo a ser reproduzido em outras mídias. Nasce, então, o personagem quixotesco. No cinema ele aparece em filmes com A vida é bela, Miracle in Cell No.7 e O Poço.

O personagem quixotesco é alguém que é tido como louco, é tratado com desprezo, mas tem um poder: consegue ver no mundo uma utopia. Em A vida é Bela, uma obra ganhadora do Óscar , um pai é levado para um campo de concentração e usa seu “superpoder” para proteger a criança. Ele consegue transformar um dos piores momentos da humanidade em uma colônia de férias, pra a criança pelo menos.

Aqui, já no campo de concentração, o pai usa seu poder no filho, que o olha atento para não perder um detalhe das regras do “acampamento”

Nesse sentido, ser quixotesco é ser alguém que tem a habilidade de fazer da realidade menos cruel, de preservar a inocência de uma criança, ou até mesmo a sua própria. (Agora, eu desafio você a achar os elementos quixotescos em Miracle in Cell No.7). Toda essa construção é refeita no longa espanhol O Poço. Nele, há uma referência direta ao romance de Cervantes (aqui, peço desculpas, mas pode ser que surjam alguns spoilers. Se a simples menção a esse ato te dá calafrios, pule o próximo parágrafo, obrigada pela compreensão).

ALERTA!

Primeira convergência é que o personagem principal escolhe o livro para ser o único objeto que leva para a prisão,o que é considerado uma loucura, mas as similaridades não param por aí. Se Dom Quixote confundiu moinhos de vento com gigantes, Goreng viu uma mulher totalmente assustadora como indefesa. Goreng percebeu ainda que a busca por uma “solidariedade espontânea” não viria de palavras doces, ele só trocou a lança e armadura improvisadas por cocô. O filme retrata um louco extremamente lúcido. Alguém que em algum momento, quando consegue um companheiro para a luta, decide (de certo modo) impor sua visão utopista. Eles descem o poço, são considerados loucos por todos, menos por um certo senhor muito sábio. No fim, são eles que promovem uma revolução. Ou não, o final é aberto.

Descrição negada devido a possibilidade de spoiler.

Vai um pãozinho de queijo?

A noção de humor mudou com o passar do tempo, entretanto, a definição de loucura continua criando segregações. Mas, talvez, já estejamos vivendo uma sociedade em que os eixos se inverteram, onde os bobos da corte se tornaram os mandatários, onde aqueles que tem a resposta são segregados, e a arte está nos mostrando isso, propositalmente ou não. O quixotismo, então, se torna uma tendência comportamental associada ao louco, que, como Dom quixote, age em dissonância aos conceitos pré estabelecidos, impondo uma mudança utopista. Imagine um Sócrates moderno na padaria (Da bum tss)

Nesse caso, apenas os Dom Quixotes tem o filtro certo para fazer do mundo um lugar melhor, por que só eles conseguem manter a esperança, e, nesse mundo torto que a gente vive, tem coisa mais maluca do que acreditar na mudança? Sendo assim, é no quixotismo que mora o novo normal, por que o novo normal é combativo demais, é imprevisível demais, para ser implementado por quem está confortável com o status quo.

Falando de algum lugar no universo - Carol Carlos

Olá, sou a Carol, leitora voraz e adepta a liberdade criativa, gosto de pensar meus textos como a introdução de uma conversa. Acredito que os textos tem alma e que a leitura deve sempre causar algum sentimento no final e incentivar a curiosidade sobre determinado tema. Espero conseguir cativar vocês com minhas singelas palavras.

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