Dom Casmurro, A armadilha Machadiana.

Dom Casmurro, A armadilha Machadiana.
Dom Casmurro, traiu ou não traiu, eis a questão...só que não. 
A imagem é de uma cena da série inspirada no romance Dom Casmurro,  Capitu (Letícia Persiles), e o Bentinho (César Cardadeiro) deitam no chão, de costas, com um quintal desenhado no fundo. É um retrato de um dos primeiros momentos da paixão que conduzirá o livro
Capitu (Letícia Persiles) e Bentinho (César Cardadeiro) , protagonistas da primeira fase da minissérie Capitu.

Machado de Assis é um dos maiores nomes da literatura brasileira, da mesma forma, Dom Casmurro é um dos clássicos mais populares. Contudo, é difícil dizer qual a fonte do seu talento, mas vou dar uma arriscada e palpitar: Acredito que a mágica machadiana é a ousadia.

Em princípio, o livro é uma promessa, um aviso, deixa claro que o narrador não é isento, permite escolher se vai confiar ou não nas palavras escritas. Dessa forma, ele escolhe uma estratégia arriscada: deixar que o leitor ressignifique as imagens, ser parcial mantendo a liberdade de interpretação.

Inegavelmente, A habilidade do Machado de Assis é insana,  ele é, com certeza, um escritor que quebra a roda (Que mete o louco, eu diria). Por mais que esse tipo de linguagem, conhecida por quebrar a construção e estrutura habitual, costume afastar um pouco leitores inexperientes, vai por mim, vale a pena.

Eventualmente, é difícil pensar que uma pessoa aleatória, em um momento aleatório, pensaria: “Nossa, vou ler uma redação mil e entender os preceitos que a fez gabaritar as competências”. Entretanto, mesmo uma pessoa que não tem afinidade nenhuma com leitura já se deparou com a seguinte pergunta “Capitu, traiu ou não traiu Bentinho?”

aqui, um retrato do autor, com olhar austero e óculos torto, a foto passou por um processo de colorização. Machado de Assis, um dos maiores autores da literatura brasileira, autor de Dom Casmurro.
Esse é um retrato do autor, Machado De Assis.

A mulher ideal

Por conseguinte, se Capitu não traiu ela enquadra-se no arquétipo da mulher perfeita. Afinal, era Bonita, educada, guardou-se para o amor da sua infância. Portanto, a consequência direta da constatação de que Capitu não traiu Bentinho é permitir que ela perca o protagonismo. 

Ou seja, constatando-se como falsas as traições de Capitu, o debate é limitado ao quanto Bentinho era, provavelmente, super inseguro e maníaco. Tendo isso em vista, uma fragilidade aparece, o narrador era um advogado, e dizem por aí que todo advogado consegue ser um sofista, e que todo sofista pode ser um charlatão que usa suas habilidades para convencer os outros de qualquer coisa . 

Quando você diz que ela não traiu Bentinho, que ele era louco, você pode estar  ignorando as reais habilidades do narrador (o que é perigoso). Um advogado conhece os meios para te convencer sobre um ponto de vista. Logo, reduzir Bentinho a apenas suas inseguranças, descabidas ou não, é uma escolha perigosa . 

Uma cena da minissérie, Capitu e Bentinho dançam, ainda crianças.
Aqui, Capitu e Bentinho dançam, ainda crianças, ainda antes da desgraça afetar o amor em sua formula mais pura.

Ideal de mulher

Em análise…e se Capitu realmente traiu Bentinho? Por que, lá no fundo, a gente sabe quando o amor acaba. Ainda mais quando as inseguranças são construídas desde a infância, sabemos que o coração jovem pode ser incerto, mas se as impressões se mantém na vida adulta…

Nesse caso se, hipoteticamente, Capitu traiu Bentinho, ela deixa de ser uma mulher ideal, ela deixa de ser perfeita, mas acaba caindo em outro conceito. De certo modo, queremos que Capitu tenha traído, que tenha se revoltado contra um amor torto, que tenha sido feliz no exterior. Desejamos que ela seja uma mulher disruptiva. 

Aqui, Capitu, com seus olhos de cigana oblíqua e dissimulada, foi dona de sua própria história, tomou atitudes que fugiram do padrão imposto às mulheres.

Em contraponto, até onde esse desejo é nosso? Até onde não fomos cativados pelo relato de Bentinho? Se ficamos felizes por ela trair, mesmo depois de ler o sofrimento do pobre Dom Casmurro, o que isso faz de nós? Fica claro, a liberdade não deve vir do sofrimento alheio, não podemos comemorar atitudes que deliberadamente causam sofrimento…Tendo em vista que o Dom Casmurro não tenha sofrido com a morte do próprio filho, o que faria dele rancoroso e insensível, mesmo que o livro todo seja um monólogo não confiável sobre como ele é infeliz. É, veja só, essa é a armadilha machadiana.

É confuso, é Machado de Assis, é mágico.

uma foto da Maria Fernanda Cândido, no papel da Capitu adulta, seu olhar representa as descrições "Ressaca, cigana, obliqua e dissimulada". Também da versão televisiva do romance Dom Casmurro.
Esses são os olhos de cigana, representados no olhar da Maria Fernanda Cândido, a Capitu na fase adulta , apenas deleite-se. Eu, particularmente, lembro de ficar algumas horas no espelho tentando imita-lo.

A armadilha Machadiana

Essa é a armadilha Machadiana, qualquer caminho que você decidir tomar para definir certezas sobre o livro vai esbarrar em pontos abertos, deixados lá propositalmente pelo autor. Se ainda hoje existem discussões sobre ‘afinal, traiu ou não traiu?’ é em decorrência dessa estratégia.

Machado faz parecer que tomar uma decisão sobre o roteiro é muito mais sobre você do que sobre a narrativa. É quase como se ele brincasse com o leitor, uma brincadeira que dura gerações. Essa estratégia só funciona porque o narrador não é confiável.

Para um narrador não ser confiável não basta ser personagem, deve deixar claro suas inclinações e utilizar diversas estratégias de manipulação para construir a ambiguidade. Inegavelmente, é uma técnica complexa, poucos são hábeis o suficiente para estrutura-la, mas se estamos aqui é por que Machado o fez, de forma exímia. 

Mediante isso, acredito que o diferencial do Machado é a ousadia, Dom casmurro quebra a estrutura habitual, é uma ode a liberdade criativa.

 (e essa não é a única liberdade que Machado de Assis pode representar)

Estátua em homenagem a Machado de Assis, fundador da academia Brasileira de Letras
Estátua de Machado de Assis presente na Academia Brasileira de Letras, da qual ele é o fundador.

Quando a arte transborda

Dom Casmurro, com toda a sua subjetividade e complexidade, parecia ser uma dessas obras que se limitam apenas a literatura. Felizmente, a afirmativa que acabei de fazer é um erro, A obra se tornou uma minissérie em 2008, transmitida pela Rede Globo, intitulada: Capitu

Dirigida por Luiz Fernando Carvalho,  renomado cineasta brasileiro, a minissérie é uma jornada fantástica. Usando elementos de teatro, jogo de câmeras e uma localização privilegiada ( antigo Automóvel Clube, no Centro do Rio de Janeiro), a série te cativa imensamente. É uma experiência única. Recomendo, ainda, que você reserve um tempo para ler a página oficial da minissérie.

Luiz Fernando usa sua estética diferenciada para permitir a transição da história, da literatura para a TV. Eu diria, ainda, que o uso da trilha sonora foi impecável. Ao mesclar a uma produção televisiva elementos de teatro a obra ganha uma atmosfera mágica que orna perfeitamente com as narrações de trechos do livro.

Nesse contexto, as decisões de fotografia  são essenciais para permitir que as imagens construídas por Machado de Assis sejam reconstruídas. Decorrente disso, uma das cenas mais memoráveis é a do quintal: representado como uma pintura de giz no chão, o ângulo da câmera substitui o dinamismo habitual por um enquadramento fixo, como se tudo não passasse de uma pintura.

A minissérie está, com certeza, a altura do livro. A proposta do diretor, optando por uma aproximação e não adaptação, permite que a série seja como um ‘universo expandido’, são linguagens que se complementam. Eu diria que são pares que foram feitos para dançar juntos, na mesma sintonia. 

Michel Melamed interpreta Bentinho na versão adulta, na realidade, já sendo descrito como 'Dom Casmurro"
Michel Melamed interpreta Bentinho na versão adulta.

Adeus

Não quero falar demais, quero deixar vocês curiosos, com gostinho de quero mais, talvez até separem um tempo do seu dia para assistir essa minissérie-arte. Enfim, espero estar indicando-lhes algo que renda prazer momentâneo.

Antes de tudo, aviso que será um sentimento de que nenhuma referência audiovisual vai ser boa o bastante. Por fim, Vai existir uma saudade do sentir que vem junto do “Elephant Gun“, dos olhos de ressaca.

Um último comentário: Reservemos a Capitu a liberdade da dúvida.

Falando de algum lugar no universo - Carol Carlos

Olá, sou a Carol, leitora voraz e adepta a liberdade criativa, gosto de pensar meus textos como a introdução de uma conversa. Acredito que os textos tem alma e que a leitura deve sempre causar algum sentimento no final e incentivar a curiosidade sobre determinado tema. Espero conseguir cativar vocês com minhas singelas palavras.

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