A inspiração para esse texto tem três fatores: Primeiro, o fato de minha amiga Bells ser uma grande defensora das fanfics, o que me fez passar a considerar esse tipo de segmento (antes era só uma coisa que existia, e eu não dava bola); A segunda, foi o fato de eu ter instalado o emulador de voltado a jogar no 64 o clássico The Legend of Zelda: Ocarina of Time (TLoZ: OoT). Essas duas primeiras se fundiram na ideia de escrever uma fanfic eu mesmo;
A terceira, foi o programa gravado semana passada, publicada no domingo dia 30, sobre política e entretenimento com a Sabrina Fernandes, que foi absolutamente incrível e inspirador.
Nessa jornada de retorno a um dos jogos da minha vida, uma questão não parava de me ocorrer: Cadê o rei nessa porra?

Alerta
Enquanto eu escrevia, eu notei que estava entregando o enredo todo do jogo. Se você ainda não jogou esse clássico absoluto do entretenimento, se faça esse favor, e jogue. Se ainda assim quiser ler… Bom, só posso lhe agradecer.
The Legend of Zelda
Vamos voltar para as origens, um pouco. Zelda é uma série importantíssima para o mundo dos jogos. Lançado em 1986[1] para Famicom [2], foi pioneiro em algumas questões como, por exemplo, ser o primeiro cartucho de videogame a permitir salvamento de jogos. Ou seja, nada de perder tudo ao reiniciar, nem de passwords. O jogo tem diversas características marcantes, como a sua similaridade ao ambiente dos RPGs, a ampla quantidade de áreas a serem exploradas – algumas pessoas consideram ele um dos precursores dos jogos sandbox.

Esse é o começo da lenda de… Link, o garoto vestido de verde que tem o dever de salvar a princesa Zelda do maligno Ganon. Além de impedir que a lendária Triforce, objeto divino com poderes míticos, caia em mãos erradas – ou resgatá-la dessas mãos.
The Legend of Zelda (TLoZ) é uma série cheia de altos e baixos, mas é icônica desde o lançamento. Não apenas isso, como tem o mérito de possuir, na franquia, mais de um jogo que pode ser considerado o mais importante de sua época, e por algumas gerações para além disso.

Tem dias que eu acho que sei desenhar. Aí acho umas artes dessa na internet, e choro em posição fetal
Ocarina of Time
Dentre eles, está justamente o primeiro dos dois títulos para Nintendo 64, com subtítulo Ocarina of Time (1996). Esse jogo deu dimensões a mais para TLoZ, e não me refiro apenas ao fato de se tornar um jogo 3D, mas sim por agora você ter um mundo mais vivo, mais abrangente, com diversos povos, cidades vivas…! Claro, boa parte dessa percepção muda depois de 25 anos.

Um fator pesava para além da beleza gráfica da época: a narrativa de TLoZ. A história do garoto da floresta que sai do seu lar para salvar o mundo de Hyrule como um todo é muito envolvente. Você se sente se importando com os Gorons, com os Zora… Fica com pena dos Hylians forçados a irem embora do seu lar. Curte um clima de interior no Rancho Lon Lon. Teme as Gerudo. E vive toda a extensão dos Campos de Hyrule. [3]
Tudo isso seria muito bacana, sem precisar do plot: A princesa Zelda prevê uma tempestade sombria se aproximando do reino, mas vê uma luz surgir na floresta. Luz essa que combate a tempestade. Você, Link, é essa luz, que vai ajudá-la. Vocês precisam recuperar os artefatos sagrados (claro que ela não vai fazer nada), tentar entrar no Reino Sagrado, e proteger a Triforce, impedindo que Ganondorf faça o mesmo antes.
Claro que dá tudo errado. Era um plano maluco de crianças.

Mas talvez por isso, talvez por eu já não ser mais criança, talvez por eu já estar acostumado à narrativas mais complexas do que uma “colete os itens mágicos” e “derrote o vilão”, que eu tenha começado a me perguntar:
Cadê o Rei de Hyrule nessa porra?
Isso, a pergunta lá do começo.
É muito estranho porque, na cena onde você é apresentado à Zelda, você também é apresentado ao vilão, Ganondorf. Ele é rei das Gerudo [4], e está se apresentando ao Rei, oferecendo aliança. Zelda tem suspeitas contra ele [5], e imbui Link da tarefa de pegar as Pedras Espirituais restantes, enquanto ela protege a Ocarina do Tempo. Tanto as pedras quanto a Ocarina são a chave para a abertura das Portas do Tempo, que bloqueiam o acesso ao Reino Sagrado. E Link, de fato, pega as pedras, senão o jogo não anda.
Quando você já se lascou todo, rodou meio mundo (o resto vem depois), enfrentou dinossauro, entrou em peixe, e pegou as benditas pedras, e vai voltar, você vê…
Zelda fugindo com Impa [6]!
Zelda joga alguma coisa na sua direção!
Ganondorf aparece!
Link desafia ele!
Bola de energia!
Link cai no chão!
Ganondorf foge!
Qual o plano de Ganon, e de Zelda?
Veja, vamos tentar imaginar essa história pelo outro lado, o lado da Zelda. Ela estava ciente de que uma pessoa com intenções nefastas estava, agora, sendo bem recebida no castelo. Então ela esconde uma das chaves para o Reino Dourado consigo. E isso é importante pois, qual seria o interesse de Ganon de se aproximar do Rei de Hyrule?
Obter acesso ao Reino Sagrado! Esse reino, também chamado de Reino Dourado, é o lugar onde a mítica Triforce repousa. A Triforce, conjunto de 3 triângulos dourados, é (são) o símbolo deixado pelas deusas Din, Farore e Nayru, as criadoras desse planeta. Cada peça da Triforce simboliza uma virtude (poder, coragem e sabedoria) e, juntas, são capazes de realizar qualquer desejo. Porém, ela também espelha o coração da pessoa que a toca. E isso explica a forma decadente de Hyrule 7 anos depois dos acontecimentos relatados nesse texto. Como eu já disse, o Reino Sagrado está oculto atrás das Portas do Tempo, que estão seladas pelas três pedras espirituais e pela Ocarina do Tempo, o que nos leva de volta à Zelda e Ganon (me perdoem pelo desvio).
Nenhum guarda perto de Zelda?
Ganondorf , portanto, teve que fazer toda uma politicagem para conseguir se aproximar da princesa. A gente tem que lembrar que ela é altamente protegida, por dezenas de guardas (mesmo que eles tenham um esquema de vigília e proteção muito esquisito).
É sabido, pelo relato de um dos guardas que você consegue encontrar na cidade, que houve um conflito, e Ganondorf traiu o rei. Impa pressentiu o perigo e fugiu com a princesa.
Mas a dúvida que me vem à cabeça é: por quanto tempo o rei foi trouxa na mão de Ganon? Para permitir que ele conseguisse avançar tanto em seus intentos? Ganon deve ter tentado se aproximar da princesa por diversos meios políticos antes de tentar uma investida mais agressiva. Afinal, uma aliança com o senhor de Hyrule, Kakariko [7] e arredores não é algo que se desperdiça. Ele fracassou no seu plano de aproximação amistosa (como ele não passou dos guardas?), e decidiu usar a cartada derradeira: a força. Ganondorf é um mago poderoso, além de um guerreiro exemplar. Deu cabo das defesas, mas Impa foi mais rápida e fugiu.
Toda hora eu tangencio o tema, mas agora é pra valer.
O rei
Não é apenas na defesa da própria filha que o rei fracassou. Era esperado um emissário real na Cidade Goron, que ajudasse os Gorons com a questão da caverna Dodongo [8], mas esse nunca veio. O fato de Link saber a música herdada pela família real lhe abre muitas portas, como a do reino Zora, mas não lhe dá lá muitas regalias. Apenas locais ligados às glórias do passado reconhecem a melodia. Kakariko, que virá a se tornar a nova morada dos Hylians, era comandada por Impa, que estava expandindo a cidade [9] – não o rei. Não se vê muita influência de Hyrule nos outros recantos do mundo, nem mesmo no Lago Hylia [10].

A verdade é que o poder do Rei já estava reduzido à bastante tempo. Hyrule era um reino em decadência. Já não podia nem mais ajudar os aliados, nem se fazer presente noutros lugares. Mesmo na questão dos dodongos, a gente sabe que foi Ganondorf quem pôs a rocha que bloqueava a entrada da caverna lá. Mas o Rei não fez nada para impedir? Ou para removê-la? Consigo pensar em três alternativas: ou ele não tinha poder para isso (o que tendo a duvidar); ou não tinha interesse; ou estava tão seduzido por Ganondorf, que preferiu não fazê-lo. Todas as perspectivas são terríveis.
Zelda prefere confiar em duas crianças (ela mesma, e Link) para proteger todo o reino, do que esperar que pai faça algo. Pelo contrário, ela sabe que o pai tem Ganondorf como aliado! O plano de Zelda não foi o devaneio de uma garotinha boba (como eu acreditava minutos antes de começar a escrever). A futura portadora da Triforce da Sabedoria sabia: os dias dela estavam contados, e eles tinham pouquíssimo tempo.
Em troca de que?
O que Ganondorf teria a oferecer para o Rei, que lhe permitisse tantos privilégios? As Gerudo são uma raça guerreira e ladra, portanto, a menos que o rei pretendesse entrar numa guerra, e precisasse de mercenários, elas não teriam muito a oferecer. Talvez o rei pudesse fazer uso de um mago talentoso como Ganon, assim como foi Agahnim [11] no passado. Ele pode só ter sido hipnotizado, também. Pelo visto, de fato Impa é a última das sheikah [12], pois o rei estava claramente desamparado. Se tivesse seus guerreiros jurados consigo, isso não teria acontecido.

Teria a guerra anterior custado demais ao reino? Sabemos que houve uma guerra, pois foi fugindo dela que uma mulher Hylian entrou na floresta Kokiri e entregou seu filho à Grande Árvore Deku [13].
Quanto custou ao Rei a Pax Hyliana? Aliança entre os povos? Perda de poderio? Perda de saúde? A aliança com Ganon seria amistosa, ou seria em troca de evitar um novo ataque?
Mas de fato, a traição de Ganondorf lhe custou o reino, e muito certamente, a vida. Por sorte, a linhagem continuou através da sua filha, mas isso é uma lenda para outro dia.
Concluindo
A Hyrule de Ocarina of Time é um lugar muito gostoso de ser transitar, e permitem diversas deliberações. OoT foi um dos jogos que mais joguei na vida (sem contar joguinhos de celular, como 2048), e estou jogando mais uma vez. É como voltar na casa de um amigo de infância. Se eu achar mais coisas perdidas por lá, eu comento aqui. Foi divertido fazer um texto mais especulativo, cheio de teorias. Mas por hoje, a lição que fica é: o rei de Hyrule, em OoT, não estava apto para governar.

Observações
[1] Mesmo ano de lançamento de Metroid, mas as pessoas deixam Samus de lado.
[2] Famicom é acrônimo de [Nintendo] Family Computer, primeiro console da Nintendo. No ocidente, foi remodelado e chamado de Nintendo Entertainment System, o NES (“Nintendinho”)
[3] Gorons são o povo das montanhas. Se alimentam de rochas. Zora são o povo das águas, peixes humanoides. Hylians se assemelham a humanos com orelhas pontudas. Gerudo é uma raça composta apenas por mulheres, são ladras e guerreiras. O Rancho Lon Lon é comandado por Talon, Malon e Ingo.
[4] Tem uma questão de gênero bizarra nas Gerudo. Elas são todas mulheres. A cada 100 anos, nasce um homem na tribo, e ele está destinado a ser rei. Não é escroto?
[5] Será porque ele veio do deserto, tem pele escura, fama de ladrão…? Eu vou acreditar que Zelda percebeu as trevas nele, e continuar.
[6] Impa é a última Sheikah, guardiã da princesa Zelda. É personagem recorrente nos jogos Zelda.
[7] Kakariko é um vilarejo à leste do castelo de Hyrule. É recorrente nos jogos Zelda.
[8] A Caverna Dodongo provê alimento dos Gorons (rochas). O problema são Dodongos, lagartos cuspidores de fogo, que moram lá. E é uma caverna vulcânica.
[9] Era só um monte de tijolos. Mas deu certo.
[10] Lago Hylia é o maior corpo d’água de Hyrule. É um nome/lugar recorrente nos jogos Zelda.
[11] Agahnim é o feiticeiro das trevas de The Legendo of Zelda – A Link to the Past. Ele passa a controlar o rei e seus guardas, tentando acessar o Reino Dourado.
[12] Sheikan são o povo das sombras. Guerreiros esquivos, são protetores jurados da Família Real Hyliana.
[13] A Grande Árvore Deku (eu consigo te ouvir rindo) é o espírito guardião da Floresta Kokiri, mantendo seus habitantes a salvo.
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