O retorno do cinema drive-in e o oportunismo

O retorno do cinema drive-in e o oportunismo

Estamos vivendo em uma época estranha, nova e muitas vezes angustiante. Para os amantes do audiovisual tem sido uma aflição não poder frequentar cinemas por tantos meses. Apesar dos serviços de streaming estarem crescendo cada vez mais com base na facilidade de acesso e exclusividade de títulos, para algumas pessoas (como eu) nada substitui a sala escura do cinema. O retorno do cinema drive-in seria a solução?

Cinemas e teatros são os lugares que (aparentemente) ainda levarão um tempo considerável até poderem ser liberados, com ou sem restrições. Portanto, como são ambos locais extremamente fechados e de grande aglomeração é totalmente impensável que eles voltem a funcionar enquanto ainda não existir uma vacina ou tratamento para a COVID-19.

Cinema drive-in

Porém, em diversas cidades os cinemas drive-in retornaram a vida. Para quem é muito novo ou nunca viu em um filme norte-americano que mostre isso, cinemas drive-in são aqueles que as pessoas vão de carro, prendem um alto-falante na janela do veículo, sintonizam o som do cinema no rádio e assistem a um filme.

Por aqui no Brasil, o último cinema drive-in que fechou ficava em Brasília e o penúltimo no Rio de Janeiro, na Ilha do Governador. Lembro de ter ido neste segundo até quase perto do fechamento. O último filme que assisti lá foi “A Praia” de Danny Boyle. Também me recordo de ir durante a infância com meus pais no drive-in da lagoa Rodrigo de Freitas, famoso ponto turístico no Rio de Janeiro. Porém, eu era tão pequeno que tenho remotas lembranças dele, como a exibição do filme “Os Goonies”, de Richard Donner e o som todo chiado com o filme sendo exibido em uma tela toda suja.

Local de antigo cinema drive-in na Ilha do Governador
Local do antigo Ilha Auto Cine na Ilha do Governador, Rio de Janeiro. Fonte: Diário do Rio.

Será que realmente poderemos matar as saudades de frequentar cinemas com este retorno do cinema drive-in? Muitos viram com alegria e entusiasmo esta notícia, visto que muitas sessões esgotaram seus ingressos. Porém se percebermos nas entrelinhas, trata-se de mais um caso de oportunismo comercial em épocas de crise.

Alto custo para frequentar cinemas

Eu percebo que, além do fato de que o cinema drive-in já é excludente em seu próprio formato, por permitir que apenas pessoas que tenham carros possam ir assistir ao filme, o preço do ingresso é uma facada sem dó nem piedade.

Eu friso aqui que estou falando exclusivamente dos cinemas drive-in que foram inaugurados no Rio de Janeiro. Ou seja, não sei qual é o preço dos que foram inaugurados em outras cidades, mas creio que sigam a mesma linha.

Se a pessoa quiser ir terá que pagar o módico preço de 100 reais por carro! Um preço bastante salgado para uma família que queira matar a saudade do cinema e relaxar um pouco nesta época tão tensa. Além disso, no local do cinema também há a presença do Outback, que é um restaurante muito bom, porém muito caro. Este é o caso de um dos cinemas drive-in que abriram aqui no Rio de Janeiro.

Aparentemente já se conta com três, sendo dois na Barra da Tijuca e um na Lagoa (coincidentemente local do penúltimo cinema drive-in da cidade). Ou seja, essa brincadeira toda estará saindo bem dispendiosa para que as pessoas realmente possam voltar a frequentar cinemas.

Antes da pandemia alguns cinemas já vinham sendo elitizados com o aumento dos preços do ingresso com serviços como oferta de champanhe. Fonte: Cinema[Ação].

Aposta na fidelidade dos cinéfilos?

Quando li a primeira vez sobre as normas de segurança do novo cinema drive-in, vi que podiam apenas duas pessoas por carro e no máximo um terceiro que seria uma criança. Sem entrarmos no mérito de famílias que tenham mais que um filho, parecia de certa forma plausível o limite. Mas, vendo atualmente o site dos cinemas drive-in, vi que este número aumentou para quatro pessoas por carro.

Este oportunismo não é novidade. Muitos eventos relacionados a cinema vêm sendo explorados nos últimos anos apostando na fidelidade do público que ama frequentar cinemas, como os montados ao ar livre. Além dos preços de ingressos exorbitantes, estes espetáculos acabam acontecendo, normalmente, em locais de difícil acesso. Por exemplo: No Rio de Janeiro, o cinema ao ar livre Shell Open Air tem rolado na Marina da Glória, local isolado a noite e com poucas opções de transporte. Assim como um dos atuais cinemas drive-in, na Jeunesse Arena, na Barra da Tijuca, local preferido para eventos culturais deste porte.

Reabertura: é seguro voltar a frequentar cinemas?

Enquanto isso, talvez o grande problema de porque não atingimos logo uma segunda onda, para que os números comecem a cair como em outros países, seja esta flexibilização gradativa e sem lógica. A medida que os casos aumentam, já começa a se liberar de forma (des)proporcional o acesso a serviços e comércio que podem gerar aglomeração. Na mesma linha, de acordo com os planos de reabertura da prefeitura do Rio de Janeiro, cinemas e teatros já o teriam feito em agosto. Porém estes planos foram feitos meses atrás e com outro cenário.

Desde julho que os cinemas buscam alternativas para o retorno às atividades. Algumas redes planejam voltar no dia 27 de setembro, e o festival “De Volta Para o Cinema” está planejado para este mesmo mês, com a exibição de clássicos (leia-se: filmes que em sua maioria podem ser vistos em serviços de streaming ou baixados na rede pelos mais aficionados).

Distanciamento entre poltronas em uma eventual reabertura dos cinemas.
Cinemas terão que manter distanciamento entre poltronas em uma eventual reabertura.

Apesar de os cinemas garantirem de pés juntos que todos os cuidados serão tomados, é difícil de acreditar que o público em geral respeitará rigidamente esses cuidados e regras, visto que normalmente muitos frequentadores de cinema têm costumes bem anti-higiênicos como sentar com o pé na poltrona da frente, encher o assento de pipoca ou até deitar na poltrona. Os donos das redes de cinema e promotores do festival defendem-se dizendo que tudo já reabriu. Isso me faz lembrar o ditado “Dois erros não fazem um acerto”.

Charge ironiza a volta dos cinemas drive-in ao dizer que o filme de 2020 é "A espera de um milagre"
Charge de Marcelo Magon sobre o retorno dos cinemas drive-in. Perfil do artista: https://twitter.com/magon_marcelo

Um cenário além do cinema drive-in

Eu me afasto um pouco da área do cinema agora, e penso em um cenário mais amplo: podemos perceber que os exemplos de abertura não podem ser considerados modelos, pois lugares como os bares por exemplo, concentram pessoas muito próximas e sem máscaras.

Estamos vivendo um momento realmente estranho, onde se preza pela distração e entretenimento, mesmo que isto custe muitas vidas.

Como pensar que é o momento ideal para retomar competições de futebol, como a Taça Libertadores da América, com equipes de países que não controlaram ainda suas pandemias, e com times como o Boca Juniors que conta com 18 atletas com COVID-19? As Olimpíadas, que são um dos maiores eventos esportivos do mundo, foram adiadas para 2021, e ainda corre o risco de não ocorrer. Então, para que apressar a volta do futebol? Só porque o fizeram na Europa?

Oportunismo e ganância em cenários de calamidade

Nós podemos pensar que esse oportunismo comercial é, infelizmente, uma tendência do ser humano. Muitos produtos encareceram durante esta pandemia e sem motivo aparente, a não ser a vontade de se ter lucro rápido. No início do ano o departamento de águas e esgoto do Rio de Janeiro relatou contaminação das águas da cidade levando muitas pessoas a comprarem água mineral e levando seus preços a subirem de forma exorbitante.

Em janeiro de 2011 eu morava na cidade de Nova Friburgo no estado do Rio de Janeiro, quando ocorreram diversas enchentes e deslizamentos, no que foi uma das maiores tragédias naturais do Brasil, matando centenas de pessoas. Os preços de produtos como galão de água mineral, botijão de gás, entre outros dispararam. Esse tipo de oportunismo comercial que ocorre em épocas de crise assim pode ser parte da ganância humana? Ou pode ser fruto de tantos gurus do enriquecimento rápido que pregam frases como “Nunca perca uma oportunidade”?

Eu sou um grande fã do cinema e toda a experiência de assistir a um filme, mas acredito que este retorno de frequentar cinemas é uma decisão equivocada. Por mais que haja distância, um cinema ainda é um ambiente muito fechado. Em conclusão, são tempos difíceis para todos, porém é importante ter esperança de que as coisas certas serão feitas, que a cultura e a arte não sucumbirão para a pandemia, e que poderemos sair fortalecidos de tudo isso.

Falando de algum lugar no universo - Luciano Bugarin

Cinéfilo, cineasta e professor de artes visuais. Gosto de música barulhenta, jogos que ninguém gosta, ver cem vezes o mesmo filme, plantas, cágados e pinguins.

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