Edward Van Halen – O adeus de um gênio da guitarra

Edward Van Halen – O adeus de um gênio da guitarra

Edward Van Halen, guitarrista da banda de hard rock norte-americana Van Halen faleceu no dia 06 de outubro. Mais conhecido como Eddie, ele fundou a banda com seu irmão Alex Van Halen em 1972. Ele tinha 65 anos e estava tratando um câncer na garganta desde 2014. Eddie era considerado um gênio da guitarra.

Edward Lodewijk Van Halen nasceu em Nijmegen na Holanda de mãe indonésia (Eugenia) e pai holandês (Jan) em 26 de janeiro de 1955. Assim como ele, seu pai foi músico, mas de jazz, e tocava clarinete, piano e saxofone. Seu nome do meio é equivalente a Ludwig. Uma homenagem ao compositor alemão Ludwig Van Beethoven.

Origens

A princípio, Eddie e o irmão Alex foram treinados desde cedo a serem pianistas de música clássica. Ao passo que, este talento precoce foi inclusive útil para a família, quando eles emigraram para os Estados Unidos de navio em 1962. Afinal, para ajudar a pagar as passagens da família, ambos irmãos e o pai tocavam como atrações musicais durante o trajeto de nove dias até os Estados Unidos da América. Enfim, eles chegaram com algumas malas, o equivalente a 15 dólares e um piano.

A família Van Halen a caminho dos EUA. Eddie está ao lado da mãe e Alex ao lado do pai.

Em contrapartida ao desejo dos pais que eles fossem pianistas clássicos, a atenção dos irmãos voltou-se para o rock ‘n’ roll. Ao mesmo tempo em que Eddie tocava bateria, Alex tocava guitarra. No entanto, ao perceber um dia que seu irmão estava melhor que ele na bateria, propôs que eles trocassem de instrumentos. Posteriormente, ambos formaram em 1972 a banda Mammoth. Ao passo que dois anos depois a banda mudou de nome para Van Halen (o sobrenome dos irmãos).

Reinventando a guitarra

Podemos citar Eddie facilmente como um integrante do panteão dos grandes guitarristas da história do rock. Afinal, ele criou uma linguagem totalmente nova para guitarristas de rock. Assim como Jimi Hendrix havia feito na década de 60. Assim como Jimi, ele foi um gênio da guitarra.

Ele ficou particularmente célebre por sua técnica do tapping. Eddie não inventou a técnica do tapping, mas ele revolucionou a forma como ele passou a usá-la de forma bem mais acelerada que o normal e com as duas mãos simultaneamente nos solos de guitarra e adaptou-o ao hard rock. Isto tornou-se uma marca registrada do som de sua guitarra e de seus solos, desde o primeiro disco da banda Van Halen. Notavelmente na faixa “Eruption”, considerada um dos melhores e mais criativos solos de guitarra da história do rock.

Som inconfundível

O som que ele conseguia produzir em seus solos era extremamente único e inconfundível. Quem não lembra da cena clássica do filme “De volta para o futuro”, onde Marty coloca nos ouvidos de seu pai um walkman tocando uma fita com uma etiqueta escrita Edward Van Halen, que deixou George surdo com um solo de um gênio da guitarra?

Ele também montava e estilizava suas próprias guitarras, as quais ele chamava de Frankencrast e inovou no uso da alavanca para criar efeitos em seus solos. Eddie aprendeu a ser criativo experimentando na guitarra e amplificadores, pois não tinha dinheiro para comprar pedais de efeito, o que tecnicamente facilitaria mais sua vida. Ele inclusive patenteou uma espécie de suporte para tocar guitarra na horizontal, enquanto estivesse de pé.

Eddie toca uma de suas guitarras customizadas clássicas.
Suporte de guitarra patenteada por Eddie.

Pai e filho

Jan Van Halen passou a seus filhos o amor pela música.  Eddie via como o pai se dedicava ao clarinete. Ou seja, a dedicação para viver da música e conseguir o suficiente para manter a família era o que motivava seu pai. Eddie assimilou isso para sua vida e carreira. Dessa forma, ele vivia para a música e isso fica evidente nos solos e melodias em suas músicas.

A relação de Eddie e Alex com o baixista Michael Anthony azedou a ponto de ele sair da banda em 2006. Posteriormente, Eddie colocou seu filho Wolfgang no Van Halen com apenas 15 anos. Assim, Wolfgang participou da gravação do último disco de estúdio da banda “A different kind of truth” de 2012 e participou da turnê de promoção do álbum. Os shows eram quase uma reunião familiar então, com Wolfgang tocando com seu pai e seu tio. Da mesma forma que Eddie viveu a sensação de gravar com seu pai em 1982. Além disso, ele batizou a música “316” em homenagem a data do nascimento de seu filho (16/03).

Eddie toca com seu filho, Wolfgang em Las Vegas em 2015. Foto de: Ethan Miller/Getty Images

Ao passo que gravavam o disco “Diver Down”, ele e o irmão convidaram o pai para tocar clarinete na gravação da música “Big Bad Bill (Is Sweet William Now) ”, uma música de sucesso da década de 1920. A princípio Jan Van Halen ficou relutante, pois ele havia parado de tocar clarinete em 1972, após perder um dedo em um acidente. Todavia por insistência, ele topou o desafio. Afinal, essa foi a única gravação realizada por Jan com seus filhos.

Eddie e seu pai Jan, na gravação do disco “Diver Down”.

Sem medo de experimentar

Em síntese, Eddie foi um músico que nunca teve medo de experimentar e fazer o que ele tinha vontade, independente do que o mercado queria. Posteriormente ao o disco “Diver Down”, ele ficou extremamente desapontado com o resultado. A gravadora pressionava para o rápido lançamento de um disco de sucesso. O vocalista David Lee Roth sugeriu que eles gravassem covers de diversas músicas de sucesso. Porque, segundo David, seria mais fácil e garantido que eles venderiam bem. Todavia, Eddie detestou a ideia. Afinal, ele queria fazer sua própria música e não ficar gravando sucessos consagrados para garantir sucesso comercial.

No disco seguinte, ele botou em prática então sua vontade de experimentar ao utilizar sintetizadores na gravação do disco “1984“. Neste disco está a música “Jump”, maior sucesso comercial da banda, onde Eddie apresenta toda sua capacidade técnica de tocar um solo no teclado como se estivesse tocando uma guitarra. Além de um gênio da guitarra, ele se mostraria um gênio do teclado.

Lado mais “pop”

O disco “1984” foi um sucesso e ampliou o público do Van Halen, fazendo com que pessoas que não eram o público alvo da banda passassem a ouvi-los. Contudo, o vocalista David Lee Roth não gostou do som mais “pop” da banda e acabou saindo para carreira solo, sendo substituído pelo cantor e guitarrista Sammy Hagar

Eddie disse certa vez que ele toca o que ele gosta de ouvir, e que às vezes ele quer ouvir um som mais “pop” e que isso não é ruim. O importante, segundo ele, é a vontade de sempre querer se reinventar, como se estivesse sempre começando do zero. Ao passo que músicos quando fazem tudo igual são chamados de acomodados. Contudo, quando fazem diferente são chamados de vendidos. Em suma, o que conta mesmo é ser fiel aos próprios instintos.

Eddie Van Halen ao vivo em 1986. Foto: Ebet Roberts/Getty Images

A banda Van Halen sempre foi visto como uma “party band”. O vocalista David Lee Roth tem certa responsabilidade nisso. O cantor sempre teve uma pegada bem histriônica e espetacular, ou como Eddie definiu: “um jeito Las Vegas de ser”. Em sua segunda fase a banda passou a ficar mais madura musicalmente, passando a escrever letras mais sérias e contemporâneas, como na música “Right now”.

Eddie no estúdio 5150, que ele construiu em 1983 perto de casa para ter mais liberdade criativa e usou em todas suas gravações a partir de então.

Sucessos e fracassos

Com Sammy Hagar, a banda entrou numa fase mais mainstream, alcançando números de vendas e topos de paradas que nunca havia conseguido antes, e isso se deveu também ao maior número de composições com uma pegada mais pop, como as músicas “Dreams”, “Why can’t this be love” e “Can’t stop lovin’ you”, mas mantendo também o peso de outrora em canções como “Get up”, “Judgement day” e “The seventh seal”.

Porém, Sammy Hagar acabou saindo da banda, devido a desavenças com Eddie em 1996. Gary Cherone entrou em cena como o terceiro vocalista da banda. Gary é mais conhecido por ter sido vocalista da banda Extreme, que fez sucesso nos anos 1990. Com Gary, a banda lançou apenas um disco: “Van Halen III”, que foi um fracasso de vendas. Embora seja creditado como um disco da banda, ele pode ser considerado quase um disco solo de Eddie, pois ele gravou e compôs a maioria das músicas e instrumentos, inclusive o baixo. Ele chega até a cantar em uma faixa, atuando mais que um gênio da guitarra, mais um multi-instrumentista.

A maioria dos fãs detestou o disco assim como os críticos musicais. Eu mesmo também achei na época as músicas muito estranhas e diferentes de qualquer coisa que o Van Halen já havia feito. Porém é interessante ouvir o disco sem se prender ao fato de quem o gravou. As músicas não são ruins, porém a identidade da banda não estava lá. Eddie arriscou por não querer se comprometer a tranquilidade de repetir a fórmula do sucesso.

Michael Jackson e experimentações

Eddie participou de gravações de outros artistas como músico convidado, inclusive fora do rock. Entre eles sua participação mais célebre foi na música “Beat it”, grande sucesso de Michael Jackson, a convite do músico e produtor Quincy Jones. Eddie compôs e gravou o solo de guitarra, além de ter mudado o arranjo original da música. Aparentemente ele fez tudo em meia hora e recusou qualquer pagamento ou crédito escrito. Coisas de um gênio da guitarra.

Eddie toca em show de Michael Jackson em 1984. Foto: Carlos Osorio/AP/Arquivo

A versatilidade de Eddie o levou também a participar de gravações do rapper LL Cool J (“Not leaving you” e “We’re the greatest“) e produzir pedaços de trilhas sonoras, sendo a mais notável a música “Respect the Wind”, para o filme “Twister”, gravada com seu irmão Alex.

Além de dominar de forma incrível a guitarra e o teclado, Eddie adorava fazer experimentações com objetos, muitas vezes utilizando-os como instrumentos de música ou complementos em canções como buzina de carro, serrote, martelos, pregos e até uma furadeira, também utilizada em shows e devidamente customizada. Quase todo disco do Van Halen trazia uma faixa instrumental gravada por Eddie: “Spanish fly”, “Cathedral”, “316” são alguns exemplos do trabalho instrumental de um gênio da guitarra.

Eddie com uma furadeira customizada ao vivo.

Eddie no Brasil

O guitarrista veio com o Van Halen, apenas uma vez no Brasil. Em 1983 eles passaram por Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre em uma época que era uma raridade uma banda internacional vir tocar na América do Sul, muito menos no auge do sucesso como se encontrava o Van Halen.

Tendo nascido em 1983, obviamente não pude ir a estes shows, mas tive um breve momento de alegria quando em 1998 foi anunciado que a banda voltaria ao Brasil para promover o já citado acima disco “Van Halen III”, porém o mesmo foi cancelado, acredito que pelos baixos números de venda de discos e ingressos para a turnê na época. Nunca pude ver de perto um gênio da guitarra em ação.

O mais próximo que cheguei de um show da banda foi um show solo de David Lee Roth em 2006 em São Paulo, com repertório 90% composto por músicas do Van Halen. Este ano, o cantor Sammy Hagar viria ao Brasil em março com sua banda The Circle, porém foi o primeiro a ser cancelado com o início da pandemia da COVID-19.

Câncer

Desde 2014, Eddie vem tratando de um câncer na garganta. O músico estava buscando tratamento de radioterapia na Alemanha. Este foi o segundo câncer que ele enfrentou. O músico já havia tido um câncer na língua por volta do ano 2000. Inclusive durante o tratamento foi retirado 1/3 de sua língua.

Infelizmente, ele era um fumante ávido. Desde os 12 anos ele fumava e bebia bastante. Eddie era bastante tímido e ficava extremamente nervoso quando subia no palco. Quando aos 12 anos perguntou ao seu pai como ele lidava com a ansiedade de subir em um palco, seu pai lhe disse que era com cigarro e bebida. Eddie teve que passar também por uma reabilitação do seu alcoolismo em 2007. Afinal, um gênio da guitarra, também é humano.

Homenagens

Diversos músicos prestaram suas homenagens a Eddie, entre eles Gene Simmons, líder do KISS e produtor da primeira gravação demo do Van Halen. O segundo vocalista do Van Halen, Sammy Hagar também postou sua homenagem a Eddie e disse que eles haviam feito as pazes no início do ano, depois ficarem sem se falar desde 2004. Segundo Sammy, eles resolveram não revelar isso publicamente para que não houvesse nenhum rumor sobre um eventual retorno ou sobre a saúde de Eddie. O músico Jack White homenageou Eddie tocando no Saturday Night Live com uma guitarra desenhada pelo guitarrista holandês. Todos são unânimes em considerá-lo um gênio da guitarra.

Na minha opinião, a contribuição de Eddie Van Halen para o rock foi imensurável. Ele influenciou toda uma legião de guitarristas de estilos extremamente diversificados. De Steve Vai a Tom Morello, da banda Rage Against The Machine. É impossível ouvir uma música do Van Halen, sem sentir vontade de dançar, pular ou cantar no chuveiro.

Curtindo Van Halen

Eu comecei a escutar a banda por volta dos meus 12 anos de idade, particularmente sentia calafrios a cada solo diferente. Frequentemente, a energia que cada um emanava era tão intensa que me sentia totalmente imerso ao ouvir os discos.

Por uma época da minha adolescência eu escutava Van Halen praticamente todos os dias. Até minha mãe já sabia e conhecia como eram as músicas de tanto eu escutar. A energia que elas passam, sejam as mais pesadas, as mais pops, as mais românticas ou as mais melódicas é incrível. 

Mesmo nas canções mais pesadas do Van Halen, havia uma certa leveza melódica, que faz qualquer um se embalar no ritmo. Talvez os backing vocals do baixista Michael Anthony dessem uma adição melódica que diferencia o Van Halen de qualquer outra banda de hard rock.

A importância dos imigrantes

Em 2015, o Instituto Smithsonian homenageou Eddie por suas contribuições na música americana como imigrante. A entidade vem realizando diversas pesquisas e ações de apoio a valorização da vida e da importância dos imigrantes. 

Vivemos um momento no mundo de um intenso fluxo migratório de certos países em crise por diversos motivos, e proporcionalmente há um grande aumento da xenofobia nos países que recebem estes imigrantes. Os mais conservadores associam de forma infundada o aumento do fluxo migratório com o aumento da violência urbana e o desemprego. O próprio Eddie e seu irmão Alex enfrentaram preconceitos em uma difícil adaptação à vida nos EUA em suas infâncias.

Infelizmente, isto não é exclusividade de países europeus, como muitos pensam. Aqui mesmo no Brasil já ocorreram diversos casos de repúdio abusivo e injustificado como haitianos e venezuelanos. Sendo que esses imigrantes na verdade são refugiados, pois eles não saíram de seus países por vontade própria como a família de Eddie quando foi para a América. São pessoas forçadas a deixar seus países de forma traumática e arriscada. Cada povo que migrou para o Brasil contribuiu com sua cultura para a formação de um país multicultural. Tudo que eles querem é respeito e um lugar ao sol.

Atualização: Wolfgang Van Halen lançou em novembro sua primeira música autoral: “Distance“, em homenagem a seu pai, sob o nome Mammoth WVH. É uma alusão a um dos nomes usados pela banda Van Halen em seus primeiros anos.

Falando de algum lugar no universo - Luciano Bugarin

Cinéfilo, cineasta e professor de artes visuais. Gosto de música barulhenta, jogos que ninguém gosta, ver cem vezes o mesmo filme, plantas, cágados e pinguins.

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